Representações sociais da família negra no Brasil

O olhar comum da sociedade sobre nós

**Texto por Renata Lima, professora, falante e escrevente. Administradora dos perfis @mulherepresenta e @euseifazerpoesia no Instagram

A sociedade enxerga as pessoas negras com outros olhos e preconceituosos
A sociedade enxerga as pessoas negras com outros olhos e preconceituosos (Foto: Shutterstock)

Ao pensar em família, vou ao lugar de comunhão: encontro, parceria e compartilhamento. Aquele local que tem necessidade de harmonia e oferece acolhimento, mas que não é sinônimo de uma perfeição padronizada. Nos foi vendido um ideal onde há princesas, príncipes, vilões e fadas. Eu nunca acreditei nisso e muito menos fui menina de sonhar com casamento. Mas, é a experiência de ser mulher negra, mãe e esposa que me autoriza a falar sobre família e pactos afetivos.

Quando pensamos numa família negra, por mais que queiramos ser justos como algo comum e cotidiano, ainda não somos. Mesmo porque a sociedade brasileira tende a enxergar famílias negras como inacabadas, incapazes ou fracassadas. Nossa população negra, aquela que reúne pretos e pardos, racializados ou não, é a que se apresenta com maiores indícios de vulnerabilidades: sociais, econômicas, intelectuais, emocionais e psicológicas.

A maioria das mães adolescentes e/ou solo, por exemplo, são negras. Resultado de um abandono socioeducativo que reflete-se na ausência de políticas públicas que nos ajude a modificar essa realidade, que coloca nossas meninas e mulheres em situação desfavorável em relação às mulheres brancas. Desde as dificuldades de moradia ou acesso à saúde e educação de qualidade. O olhar do Brasil para nossa formação familiar é de desconfiança no sucesso da união, dos pares e dos seus frutos. Espera se que nosso projeto afetivo-familiar não dê certo.

A história da colonização nos conta que nossos antepassados ao caírem nos nós asfixiantes da escravidão, foram separados de seus afetos e impedidos de construir famílias. Coisificados, homens e mulheres, não tinham direito a seus próprios corpos e de vivenciar seus sentimentos. Afinal sua humanidade fora usurpada e alterada para servir a um projeto lucrativo e hediondo. Muitos povos no Oriente e no Ocidente pensam a estrutura de uma família em cima das regras de um modelo patriarcal e isto respingou forte na formação da sociedade brasileira, onde o “chefe” de família padrão, aquele que merece respeito e distinção social, é um homem branco.

Ao homem negro reservou-se o lugar servil e de segunda categoria numa hierarquia das raças edificada pela branquitude, que lhe rouba até mesmo a cidadania. Todas as violências do período escravista moldaram o pensamento nacional e ainda hoje circulam como satélites no imaginário coletivo. Creio na importância de criarmos imagens e representações sociais positivas das famílias negras e de sua diversidade. A sociedade brasileira precisa abandonar os estereótipos de desajuste ao qual se condiciona a ver famílias negras como falíveis dentro de um quadro histórico que tenta nos impedir de enxergar nossos potenciais e sobretudo acreditar que não estamos fadados a falência da ideia tradicional de família.

Há toda uma geração, da qual faço parte, que não se viu representada como indivíduo quem dirá enquanto membro de uma estrutura familiar. Nos principais canais de comunicação nacional, nas propagandas de TV e impressas, além das imagens divulgadas nas novelas, onde geralmente éramos figurantes ou personagens fixos sem núcleo, sem ter para onde retornar, sem origem e intimamente ligados a papéis de subalternidade, marginalidade e criminalidade. Quando não apenas associados às condições impostas pela escravidão.

Aqui em casa viemos de famílias em que nossos pais conviveram e separaram-se com a viuvez. Não houve fórmula mágica nem conto de fadas para se manterem juntos. Foram casais negros e pobres, trabalhadores que nos ensinaram a lutar por nós mesmos dentro da conjuntura que puderam compartilhar. Há nessas histórias cruzadas, abandonos paterno/materno, mãe solo, mas também casais unidos que se mantiveram juntos. Hoje temos famílias negras televisivas e instagrâmicas, mas que ainda são vistas como exceção por nós mesmos, mulheres e homens negros.

Um dos casais negros mais acompanhados do Brasil é formado por Lázaro Ramos e Taís Araújo. Eles são artistas e empresários, têm uma realidade financeira que lhes coloca em lugar de muito privilégio diante da maioria do povo negro brasileiro e de tantos brancos também. Em seu livro “Na Minha Pele”, Lázaro fala que não é contra a casamentos interaciais, mas o fato de ser casado com uma mulher negra lhe deixa no espaço emocional de cumplicidade, conforto e entendimento que ele talvez não tivesse com uma mulher branca. Penso ser pertinente esse exemplo para analisar as continuidades de nossas relações e a necessidade do acolhimento pelos iguais.

O desafio, desse modo, é construir um outro olhar: aquele que entende, explica, acolhe e se mostra transformador. Essa tarefa atinge em cheio as relações domésticas e a esfera pública, por isso cabe tanto essa visão psicossocial das representações e da representatividade. É a teoria e a prática desenvolvendo nossa identidade afirmativa, criando novos símbolos e entrando em contato com o outro, sem nos diminuirmos e nos inferiorizarmos.

Infelizmente, não fomos ensinados a nos amarmos. Quando um casal negro resolve ficar juntos, tomam uma decisão que não só atinge a eles como também a descendência e todo o entorno. É sempre bom lembrar que tal decisão é um ato político, um ato de sobrevivência, quase revolucionário. Ficar junto e construir uma família negra é um propósito que estimula a todos que se sentem representados. É um exercício de fortalecimento de tudo que nos torna negro, inclusive manter a melanina acentuada na descendência. Especialmente, porque estamos ajudando a quebrar os padrões que sustentam toda essa estrutura racista na qual vivemos. Eu desejo que possamos acreditar em nossos afetos. Família é fortaleza e Amor é poder.