Se a escola dos seus filhos não tem casos de racismo, ela tem um grave problema

**Texto por Monique dos Anjos é jornalista, consultora de comunicação antirracista e mestranda em Divulgação Científica na Unicamp. Desde o nascimento da primogênita, Victoria, de 9 anos, iniciou o letramento racial com auxílio de leituras especializadas e cursos sobre questões étnico-raciais. A chegada de Nicholas, de 6 anos, e Alessandra Carolina, de 2 anos, intensificaram seu desejo em orientar empresas e instituições de ensino sobre equidade racial para tornar presente e futuro de suas crianças mais promissor e justo.

É preciso falar sobre racismos e formas de combatê-lo nas escolas
É preciso falar sobre racismos e formas de combatê-lo nas escolas (Foto: Arquivo Pessoal)

Um dos grandes erros que pais e professores cometem quando se trata de dar início às discussões raciais no ambiente escolar é achar que a falta de casos relatados de racismo significa que não existe a prática e, portanto, não faça sentido trazer um tema tão difícil para o dia a dia das crianças.

O equívoco está em acreditar, primeiramente, que não existe racismo em determinada escola. Crianças não nascem racistas. Ainda assim elas são ensinadas desde cedo sobre hierarquização de raças, aprendendo muito com as relações interpessoais. E, na falta de explicação, encontram elas mesmas as justificativas para o fato de que a professora tem a mesma cor que ela, mas a pessoa em situação de rua tem o tom de pele que ela não vê na escola.

Portanto, não é de se estranhar que um estudante que tenha visto pessoas negras somente em cargos subalternos (uso aqui o termo cunhado pela teórica literária e especialista em questões raciais Gayatri Chakravorty Spivak, autora do livro “Pode o subalterno falar?”, editora UFMG) irá questionar futuramente a intelectualidade de pessoas diferentes dela.

Quando presumimos que a ausência de denúncias contra práticas racistas se dá pela inexistência desse crime, entramos em um terreno perigoso da negação. Como pode uma escola, sendo uma representação da sociedade, não vivenciar o racismo quando, no Brasil, a desigualdade racial ainda faz com que haja diferenciação no acesso a oportunidades em âmbitos pessoais, profissionais e acadêmicos? Índices de pesquisas nos lembram diariamente como uma pessoa negra possui mais chances de ter a vida reduzida seja pela falta de políticas públicas, seja pela deterioração da saúde e insegurança alimentar.

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Andressa Simonini, editora-executiva da Pais&Filhos está concorrendo ao Troféu Mulher Imprensa
Andressa Simonini, editora-executiva da Pais&Filhos está concorrendo ao Troféu Mulher Imprensa (Foto: Divulgação/Pais&Filhos)

A ingenuidade nociva de se pensar que “na escola do meu filho não tem racismo” cai por terra quando três perspectivas são refutadas. Primeira: será que não há racismo ou não há casos reportados? É fácil deixarmos de nomear determinadas agressões. Por vezes, violências racistas são tratadas como bullying, assédio moral e outros termos que desviam o olhar para a questão racial.

O segundo ponto a se observar é que a falta de denúncias pode significar que exista medo por parte da vítima (seja aluno ou funcionário) de tornar pública a violência sofrida. Isso ocorre quando não há protocolo ou institucionalização de ações para quando uma agressão racial acontece. O resultado da falta de preparo para lidar com casos de racismo dentro do ecossistema estudantil é o silenciamento da vítima e fortalecimento do sentimento de impunidade do perpetuador.

Por fim, mas não menos problemático, existe a possibilidade de que a falta de casos de racismo se dê pela ausência de pessoas negras naquele espaço. Esse cenário em um país onde, segundo o IBGE, 56% da população se autodeclara negra, ou seja, preta e parda, é preocupante. Afinal, a escola é ou deveria ser, segundo visão atemporal de Bell Hooks, autora de “Ensinando a Transgredir – a Educação como Prática de Liberdade”, editora WMF Martins Fontes, um lugar onde a diversidade cultural atue como um dos maiores propulsores para um ensino vibrante e transformador.

Racismo precisa se tornar um assunto de todos
Racismo precisa se tornar um assunto de todos (Foto: Arquivo Pessoal)

Como isso ocorrerá sem a inclusão de parte tão significativa da sociedade dentro das salas de aula seja a escola qual for? É preciso, portanto, muito além de perguntar se há ou não racismo na escola, questionar de que forma ele acontece e deliberar sobre a participação de todas as pessoas que compõe esse espaço na erradicação da discriminação racial. Isso passa pela contratação de pessoas negras em cargos de docência e tomada de decisões, revisão do material didático, aplicação da lei 10.639 além da obrigatoriedade, inclusão e retenção de estudantes negros e letramento racial para professores, gestores e famílias.

Lembrando que não ser racista não é mérito. É apenas estar dentro da lei. O que precisamos é de ações intencionais para o combate ao preconceito racial de forma a nos tornarmos antirracistas. O simples fato de ignorar essa realidade adoece crianças negras e por vezes as expele do ambiente escolar. Assim como não encarar o tema não fará com que ele desapareça. Será preciso uma comunidade inteira e trabalhando em prol do mesmo objetivo para que possamos um dia, afirmar “nessa escola (empresa, bairro, cidade, país) não tem racismo”. Torço para que esse dia pareça cada vez menos utópico.

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