Sobrevivendo no mundo solo da maternidade negra

Não foi fácil a experiência de criar filhos em uma sociedade racista, ouvindo absurdos apenas por uma questão racial

**Texto por Guacira Beatriz Silva Nunes, de Cachoeira do Sul, filha de mãe solo que criou cinco filhos, foi uma grande mulher, trabalhou como doméstica e cozinheira de mão cheia

A maternidade solo de uma mulher negra envolve muitas outras dificuldades
A maternidade solo de uma mulher negra envolve muitas outras dificuldades (Foto: Arquivo Pessoal)

Estudei em escola pública na cidade, e em 2003 vim morar em Porto Alegre a procura de novas oportunidades de trabalho. Aos 22 anos me tornei mãe. Aos 23 anos me separei. Não foi fácil superar uma separação e cuidar de uma filha de 8 meses de idade. Meu mundo desabou me senti perdida, sem rumo. A ausência paterna se torna mais difícil ainda na educação de um filho nos dias de hoje.

Sempre trabalhei no ramo farmacêutico, me formei em técnica em Gestão Hospitalar na Escola técnica no Hospital de Clinicas, já trabalhei em farmácias comercias e empresas privadas. Atualmente trabalho no Complexo Hospitalar Santa Casa De Misericórdia de Porto Alegre, evolui e cresci muito nestes 7 anos. Completei 40 anos e resolvi me capacitar e aprimorar meus conhecimentos. Tive chance de voltar a estudar, enfrentar desafios com a Graduação em Biomedicina.

Também faço parte do coletivo de mulheres negras, onde cada uma compartilha sua experiência, buscando mudanças e criando novas relações com as Digitais Pretas divulgando nas redes sociais o empoderamento feminino. Viver numa sociedade racista onde cresci ouvindo absurdos, falando de minha cor, do meu cabelo, por se pobre, enfim sendo oprimida. Sempre tento ter um bom diálogo com minha filha a respeito de tudo, sexualidade, colorismo, discriminação, explicar todos os desafios que ela vai passar.

Não foi nada fácil, trabalhar e cuidar da casa, época que trabalhava em dois empregos e só via minha filha dormindo. Chegava em casa duas da manhã e saia as seis da manhã assim era minha rotina. Dormia pouco e me alimentava muito mal, coletava leite materno e deixava para a pessoa que cuidava dela. Com o passar do tempo os avós viram a dificuldade que eu estava passando, me apoiaram e me ajudam até hoje.

Na criação de minha filha muitos me criticam, com a intromissão das pessoas sempre querendo dar palpites, os avós paternos sempre cuidaram da minha filha desde pequena, um vínculo de amor e carinho em dobro. Sempre dei o que tenho para dar sem excessos. Tento sempre me esforçar, luto, corro atrás, para não faltar nada, pois a maternidade impõe vários desafios, sempre preocupada com o dia de amanhã, eu sempre penso “o que será amanhã?”, “o que me espera?”, mas tento sempre fazer o meu melhor.

Às vezes, me culpo me condeno, será que fiz o certo escolher a ausência de um pai? Foi muita coisa para pesar na balança. Algumas situações que doem, e doeram muito por ouvir que não sou uma boa mãe. Vivia com insônia, quantas lagrimas rolaram no meu rosto, angústia e desespero de uma mãe negra, preocupada com quem deixar seu filho, na minha época as redes sociais não tinham tanta força como têm nos dias de hoje.

E nossos  filhos nos ensinam a ser a mulher preta guerreira, ser aquela mulher f**a,  são nossos anjos que nos ensinam a criar uma força inexplicável. Quero um mundo melhor, sem discriminação de cor, raça e gênero. Sorrir sem esconder sofrimento por trás dele e acreditar que dias melhores virão.