Sonhos não envelhecem!

Mãe também é gente e é fundamental que a gente continue buscando nossa felicidade após o nascimento dos filhos

**Texto por Rosangela Morais, conhecida como Ró Morais ou tia Ró, de 47 anos, de Salvador – Bahia, mãe solo de quatro filhos: Paulo Fernando (in memória); Tiago; Bianca e Ednei William. Avó de Matheus Gabriel. É profissional doméstica diarista, modelo, atriz, cuidadora de idoso e está concluindo um curso de designer de moda.

Pais são exemplos para os filhos e nossas ações ensinam muito mais do que palavras
Pais são exemplos para os filhos e nossas ações ensinam muito mais do que palavras (Foto: Arquivo Pessoal)

Sempre sonhei em ser atriz. Desde criança, quando assistia novelas, às vezes até uma propaganda, eu colocava uma toalha na cabeça e lá estava eu tentado interpretar aquela cena, quando era drama então, eu me entregava com tudo. Sempre que via alguém em um outdoor eu dizia: “Um dia serei eu quem vou estar ali e todos irão conhecer a atriz Rosangela Morais”. E haja imaginação de poses para a foto que ali estaria, mas, devido às adversidades da vida, comecei a trabalhar aos 11 cuidando da casa e da proprietária (uma senhora de 90 anos que sofria da doença de Alzheimer).

Por conta disso, parei de estudar e a cada dia fui deixando o sonho de lado, pois achava impossível para uma menina negra de periferia. Aos 18 anos tive meu primeiro filho, com 19 o segundo, e assim os sonhos foram sendo esquecidos, cada vez achava ainda mais impossível. Foquei apenas em trabalhar para ter como sustentar meus filhos.

Como tinha deixado os estudos muito cedo (nem cheguei concluir o Ensino Médio), continuei trabalhando como doméstica e depois tive minha filha (neste momento eu já tinha enterrado de vez o meu maior sonho). Anos depois, nasceu o caçula (Ednei) e nele veio junto à veia artística e o sonho de ser ator.

Eu sempre incentivei meus filhos dizendo a eles que eles podiam ser o que quisessem, desde que a base fosse a educação, mas isso era só uma fala, pois, de exemplo da minha parte não acontecia, continuava trabalhando como doméstica. Até que, um certo dia, uma amiga do curso de teatro de meu filho caçula o incentivou a se inscrever em um concurso de moda muito concorrido aqui, na Bahia.

Ele se inscreveu, porém não passou na seleção, entretanto abriu portas para outros concursos e cursos de moda. Por ele ser menor de idade, precisei acompanhá-lo em tudo, apoiando em seus ensaios (eu era a fotógrafa), o ajudava a ensaiar passarela e, com isso, acabei aprendendo sem nem perceber: postura, andar mais segura… Um belo dia conheci o dono da agência “One Model” e idealizador do concurso “BELEZA BLACK”, ele me convidou para fazer parte do concurso na categoria Master.

Inicialmente relutei um pouco, não achava possível ser modelo sendo fora do “padrão fashion”: baixinha (1,56 m), negra e com quase 43 anos. Mas, por fim, aceitei e comecei a fazer parte de um projeto social e, consequentemente, fui elevando minha autoestima e colocando na prática o que sempre dizia aos meus filhos apenas com palavras. Voltei a estudar para concluir o Ensino Médio, através do Enceeja (meu sonho concluir o Ensino Médio e fazer faculdade de artes cênicas ou administração – que também sempre foi um sonho, já que gosto de empreender). Tenho um brechó online que abri com ajuda de amigos, estes me doaram roupas de qualidade para vender. Tudo estava tomando um bom rumo, até que veio a pandemia inesperadamente e fiquei desempregada, pois, teve um momento em que o brechó parou e não vendia nada!!

Quando eu pensei que mais uma vez meus sonhos seriam estacionados, me surpreendi! Não ganhei o concurso, mas fiquei no terceiro lugar e ganhei na categoria “internet”. Com isso, consegui o agenciamento gratuito na agência organizadora do concurso (que é uma das melhores da Bahia) em termo de visibilidade. Mesmo na pandemia, me arrisque em vários cursos: teatro, fotografia através do celular… Participei de lives e fui aos poucos ganhado visibilidade. Me inscrevi para o concurso do projeto no qual fazia parte, ganhei e hoje sou a primeira Garota Periférica na categoria Master. Aí, os sonhos da atriz, aos pouquinhos, tem cada dia se mostrando possível. Fiz duas séries, realizei uma campanha em que o objetivo era incentivar a terceira dose da vacina contra Covid-19 para pessoas acima de 85 anos.

Recentemente, participei de um clip para uma dupla que vem fazendo muito sucesso, representando a mãe de um deles. Estou ansiosa para ver  o resultado desse trabalho, pois, acredito que através dele outras oportunidades podem vir (já que meu sonho é alcançar as telinhas e as telonas, fazer propagada, comerciais a nível nacional, novelas)… Na moda, gostaria de fazer parte do “Afro Fashion Day” (eu vibro todo ano ao assistir e acompanhar os bastidores, Casa de Criadores e o SPFW.

Sempre é tempo de fazer coisas que nós queremos e nos fazem feliz
Sempre é tempo de fazer coisas que nós queremos e nos fazem feliz (Foto: Arquivo Pessoal)

Os sonhos de uma mulher com 47 anos são os mesmo de uma atriz, modelo e qualquer outra profissão. Nossas expectativas são as mesmas, as ansiedades os medos, o desejo de ter uma oportunidade e de ver acontecer. A diferença é que as oportunidades são bem menores para nós, porém, o meu consolo é minha força de vontade de lutar para conquistar e de acreditar que é, sim, possível.

Tenho ouvido muito falar no mundo da moda que os 40, 50, 60… serão os próximos “new face” e eu quero muito fazer parte das top comercias (risos). No momento, estou na expectativa com o final do meu curso – que será algo grandioso, o resultado do Enceeja (para o ano que vem fazer ENEM e a possibilidade de fazer faculdade) e continuar lutando para fazer possível a construção de cada degrau que me levará ao topo da construção dos meus sonhos.

Por enquanto o meu sustento ainda vem de pequenos trabalhos como atriz e como profissional doméstica. E assim vou alimentando meus sonhos, não me permitindo desistir, na certeza que sonhos não envelhecem e lutar por eles os tornam possível.

Racismo! O que é racismo? O que é racismo? Racismo é você ser julgada pela sua cor de pele, é desigualdade social por você ser negro, é não ter direito a educação de qualidade, é desacreditarem da sua capacidade e dignidade, é ser barrado nos lugares, é morrer antes para depois pedirem seus documentos e verem que você não era um marginal por conta da sua melanina ativada, racismo é você entrar numa loja e não ser vista por pessoas que normalmente esquecem que ali são funcionários e deduzem que você não tem dinheiro para pagar, racismo é ser necessário ter cota para que você possa ingressar em uma faculdade e mostrar sua capacidade de aprendizado e cultura (sou a favor da cota, cota não é esmola), racismo é assistir a TV e ver que dificilmente você verá um ator, atriz negro sendo protagonista e se acontece não sendo remunerado com o mesmo salário, racismo é mandar um filho para escola e ficar com o coração na boca de ansiedade por medo de não ter a certeza se ele chegará na escola ou voltará para casa, racismo é dizer que todo preto é igual e prender um preto por reconhecimento facial de um crime que ele nunca cometeu, quando na verdade o reconhecimento é racial.

Racismo é você ser chamado de feio pelos seus traços, seus cabelos rastafári, cacheados, crespos blackpower, seu nariz largo, sua boca carnuda, racismo é você não ser mulher pra casar, racismo é não ter dignidade de um parto humanizado porquê você é forte e aguenta dor, racismo é você estar no hospital com um crachá com seu nome e escrito doutor, doutora e te perguntarem onde está o médico, racismo é ter que lutar todos os dias para chegar em casa e ao deitar em sua cama agradecer ao universo por mais um dia estar viva, é se olhar no espelho e dizer o quanto você é linda, o quanto você é capaz, o quanto o seus cabelos e traços são lindos, o quanto você é inteligente e que seu lugar é onde você quiser! Ter que discutir ou ensinar ou educar sobre cor de pele em pleno século 21 em um país onde maioria é negro é doloroso cansativo e abusivo.

As crianças negras precisam de referências
As crianças negras precisam de referências (Foto: Arquivo Pessoal)