Uma conversa honesta sobre as dores e enfrentamentos do racismo escolar

“O meu filho também pode ser fofo”. Precisamos desconstruir estereótipos e falar sobre preconceitos

**Texto por Keila Vieira Gomes, professora de História da rede pública municipal e Estadual do Rio de Janeiro. Mãe solo de Gabriela e Caio, idealizadora do projeto Aquilombar, que busca uma perspectiva afro-brasileira e decolonial em monumentos históricos da Zona Oeste. É alfaieira do movimento de Maracatu chamado Baque Mulher, fundado pela Mestra Joana, de Recife. É integrante do Femnegras GT Zona Oeste e empreendedora da marca Histeria

Racismo é assunto sério e não pode ser tratado com irrelevância no ambiente escolar
Racismo é assunto sério e não pode ser tratado com irrelevância no ambiente escolar (Foto: Arquivo Pessoal)

Voltando da FLUP com umas amigas, meu filho de sete anos, virou-se para mim e falou: “Mamãe, quando o menino me ouviu falando para a tia que eu era fofo, ele riu e disse que isso era mentira porque eu sou preto”. Respirei fundo e na maior calma, perguntei para ele: “O que a sua professora fez?”, ele respondeu: “Ela brigou com ele. E só”.

Na mesma semana, na escola em que trabalho, uma aluna minha foi chamada de cabelo de palha de aço. Confesso que uma mistura de raiva, cansaço e tristeza me invadiram. Em menos de três dias, dois episódios de racismo escolar em um território onde a maioria das pessoas são negras. Eu moro e trabalho na Zona Oeste do Rio de Janeiro (ou como brincamos entre nós, Zona Oeste da Zona Oeste) em Paciência, antepenúltima estação de trem do Ramal de Santa Cruz. Ou a terceira se mudarmos a perspectiva e enxergarmos aqui como o começo e não o fim da cidade.

Não fiz como a professora do meu filho. Além de falar com o aluno, dei uma advertência e expliquei para a turma que isso era racismo e que o mesmo é crime. As leis 10.639/2003 e 11.645/2008 estabelecem as Diretrizes e Bases da inclusão da História e Cultura Afro Brasileira e Indígenas no Currículo da Educação Básica. Essa lei fez dezenove anos em 2022 e sinceramente, eu não vejo grandes avanços.

É triste ver alguns gestores escolares chamando professoras negras de mulatas; é triste ouvir na sala dos professores que o Sul é uma maravilha porque os imigrantes europeus foram para lá. Triste e real, pois sem o apoio de toda a comunidade escolar não iremos avançar nunca. E eu tenho pressa.

Meu filho não tem amigos, não gosta da escola. Minha filha também não tem muitas amizades e está longe de ser a popular da galera. Por que tantas pessoas pretas se sentem ou se sentiam sozinhas em ambientes escolares? Como educadora, ouço de colegas de trabalho, que eu só falo da minha negritude e do meu ativismo. Pelo jeito, estou falando sozinha.

Existe um artigo de um professor chamado William Correa de Melo intitulado “A ciência do afeto e clima escolar” que diz que existe muita potência nas relações afetivas dentro da sala de aula e que essas relações interferem diretamente no rendimento escolar. Principalmente no rendimento escolar de pessoas negras.

Sendo professora do Ensino Fundamental durante 12 anos, observo que a intolerância às indisciplinas dos outros docentes eram direcionadas aos alunos negros. A partir dessa minha experiência, da minha trajetória pessoal e da análise do trabalho de William vejo que não é somente o meu filho que não é considerado fofo e nem a minha filha que não é a menina preta popular. São milhares de meninos e meninas que sofrem discriminação racial e solidão nas escolas todos os dias. Eu fui uma dessas crianças.

Tive os piores apelidos na escola: macaca ninja, marimbondo, cabelo de plástico… Normal e cruel dentro de um ensino que limitava a História da África e dos africanos à escravidão. Não existiam reis do Congo, ou Nzinga, ou as Candaces e Mansa Musa. Não existia Zumbi dos Palmares como herói, mas, sim, a “bondosa” princesa Isabel. Existiam também as obras de Debret e Rugendas nos livros, retratando castigos físicos e pés descalços.

Houve um apagamento muito incisivo aos descendentes africanos em diáspora nos anos oitenta. Era difícil ser considerada fofa tendo a Xuxa e suas paquitas como única referência de beleza! Também era difícil me olhar no espelho e gostar do meu cabelo quando na época, Luis Caldas cantava sobre a “tal nega do cabelo duro, que não gosta de pentear”.

A potência da experiência de sofrer racismo na infância ou adolescência é devastadora para a formação da autoestima. E na escola, que eu acredito prezar pela formação de cidadãos críticos e que respeitam as diversidades e pluralidades, isso é inadmissível. A escola precisa ser um ambiente acolhedor e saudável para todas as crianças. Principalmente a escola pública de uma cidade que recebeu a maior quantidade de escravizados na maior migração forçada da Era moderna.

Paulo Freire no seu livro “Pedagogia da Autonomia”, discute a valorização do afeto, dos pequenos gestos, dos sentimentos e essa pedagogia que direciona a minha prática não combina com o racismo. É necessário e urgente que professores não negros, gestores de escola e toda comunidade escolar discutam as questões raciais e cumpram a lei. Muitos não cumprem. Muitos.

Eu odiava a escola. Odiava ser preta e a única alternativa que eu tinha era fingir que a solidão e a não-fofura eram coisas bobas, secundárias e aos trancos e barrancos, fui desenhando o que era ser preta. A falta de afeto tornou-se regra e não exceção. E isso impactou profundamente as minhas relações interpessoais. Me achava muito pouco e contentava-me com qualquer migalha. Não quero isso para os meus filhos, e muito menos para os meus alunos.

Ao ver uma situação de racismo, precisamos nos impor. Ninguém nasce preconceituoso
Ao ver uma situação de racismo, precisamos nos impor. Ninguém nasce preconceituoso (Foto: Arquivo Pessoal)

Não tive a tal descoberta que pessoas pardas têm de me perceber preta adulta. Assim como meu filho de sete e minha filha de quinze também nunca tiveram dúvidas. Para quem é retinto e tem o cabelo bem crespo não há duvidas em ser preto. A sociedade, a escola e os olhares nos explicitam isso bem rápido. Minha filha também percebe isso. O primeiro amor dela não a quis, riu do seu cabelo e ela chorando me disse: “Não sei o porquê que os meninos não chegam em mim… Quer dizer, eu sei. Isso me cansa!”

A história se repete, o racismo é uma tecnologia tão elaborada que a mesma se reinventa de muitas formas. Confesso que estou com muita raiva de ter que passar por isso de novo com as minhas crianças! Confesso que eu estou cansada. Mesmo com as políticas públicas, mesmo com o Lázaro e a Taís Araujo, mesmo com o Barack Obama… A impressão que eu tenho é que dentro da subjetividade do racismo, a Xuxa, o Luis Caldas, as paquitas estão ainda por aí, como fantasmas de um país que não admite que caminha muito lentamente para uma igualdade racial efetiva.

Seja em 1987, em 2014 ou 2022, as crianças pretas são menos acariciadas por professores, meninos pretos são mais evidenciados em situações de indisciplinas e meninas pretas são menos escolhidas para dançar. É obrigação de toda comunidade escolar práticas antirracistas, que não se limitem aos meses de maio e novembro. É necessário que a representatividade e a estética preta sejam apresentadas às crianças massivamente todos os meses. O racismo pode nos matar em vida e começa muito cedo. Essa construção social maléfica deve ser combatida veementemente pela escola. Ninguém nasce racista!

Semana passada a tal menina que foi chamada de “cabelo de aço” me deu um tchauzinho. Ela estava com os cabelos soltos e fez questão de falar com essa professora de Dreads aqui, que não achou que a ofensa dela era coisa de adolescente. Ali, vi que não estou sozinha. Acho que ela viu isso também.

Caio é um menino alegre, espoleta e tem a sobrancelha mais linda que eu já vi. É carinhoso e esperto. Nasceu dentro de muito amor. Um amor que adoeceu com o tempo, mas tão potente e que reverbera em cada gesto dele. Para mim ele é um poço de fofura! Fofo quando insiste em dormir abraçado comigo ou quando pede para eu jurar que nunca vou abandoná-lo. Ontem, ele participou de um concurso de dança e ganhou o primeiro lugar! Falei com ele: “Viu, como você é fofo?”. Ele com uma cara muito da levada, me respondeu: “Eu sei, mamãe! Você fala isso toda hora!”.

Gabi é uma menina doce e inteligente! Nessa maternagem solo, é ela que me dá a mão e me olha com uma força que não me deixa desistir. E olha que eu penso muitas vezes nisso. Beijou um menino e fez questão de falar comigo. Um menino preto. Tenho esperança que o afeto terá de vir de nós.

Mesmo na nossa solidão a três, pela crueldade do racismo, pela ignorância e hipocrisia à lá Brasil. Resistimos. Com essa fofura quase imperceptível para muitos. Mas nos nutrimos desse amor. Um amor que prevalece no lar de tantas outras mães solos com filhos pretos. Com a fofura, resistência e por que não dizer: com a esperança daqueles que vieram antes de nós…