A quarentena e eu

Tantas mudanças em tão pouco espaço. Um mundo inteiro para refletir e mudar agora

**Texto por Priscila Pereira, mãe de Maria Beatriz e João Gabriel

Uma reflexão sobre esse período em casa (Foto: iStock)

Lá se vão 6 meses de quarentena, bem verdade que em casa estamos meio a meio, eu e o marido não paramos, mas nossos filhos estão desde então em casa, sem aula e saindo muito pouco mesmo. Nesse tempo já passamos por muitos períodos, teve o oba oba das férias permanentes, o medo da infecção, a ansiedade, o tédio, as brigas por conta das tarefas. Parece até que já passou muito mais tempo do que os já longos seis meses.

Vi meu filho se tornar um adolescente, quase maior que eu, como lidar com um adolescente? Estou aprendendo ainda, espero que seja tranquilo e que ele não se feche muito em seu mundo, mas sei que se isso acontecer, será natural e devo demonstrar que estou por perto, sem invadir o espaço que é só dele.

Não sei se é uma boa entrar na adolescência durante este isolamento, sem ter o contato com os amigos que estão passando pelo mesmo processo, tendo só com os pais que tentam tranquilizar dizendo que é assim mesmo, que a voz que vai mudando é completamente natural, que virão as espinhas, que o pé cresce mesmo e fica desengonçado… acredito que o convívio com o pessoal da mesma idade é fundamental em todas as fases, mas na adolescência, quando nos sentimos tão estranhos, é essencial para podermos ver que acontece com todo mundo. Espero que as marcas desse período sejam positivas.

Vi também o medo no olhar da minha pequena quando tinha que sair para trabalhar, guardava o meu medo no bolso e tentava acalmar o seu coração, devia ser confuso para ela mesmo ver que os pais saiam para trabalhar enquanto várias campanhas eram feitas falando da importância de ficar em casa, mas passamos por essa fase, ainda bem… Foi difícil vê-la chorando sem conseguir acalmar, mas com o tempo veio a calmaria. Ela também cresceu, mas acho que me recuso a ver (rs), ela é meu bebê e pronto, mesmo com quase 9 anos (abafa o caso).

Mas para ser sincera, o mais complicado disso tudo são as aulas online, gente, como não surtar? Na primeira aula, eu saí para trabalhar deixando tudo ligado, com o link na tela, prontinho para a aula, mas como não existe perfeição, recebi a ligação da minha mãe, com minha filha chorando ao fundo, porque não conseguia assistir a aula, que nervoso que deu, não estar lá para ajudar, mas agora essa parte eles aprenderam. Se prestam a devida atenção na aula? Não mesmo, e olha que conversamos muito, mas não sei até que ponto é justo cobrar atenção em aula online de uma criança de 8 anos, quando eu não estou ao lado dela nesse tempo, cobrar que ela saiba utilizar ferramentas que não está familiarizada, estamos tentando, mas uma surtada de vez em quando é inevitável.

Vamos no estilo respira e inspira para manter a calma. E me vi uma amante de plantas, mais do que já era. Descobri que é uma verdadeira terapia mexer na terra, ver as sementes germinarem, as plantinhas crescerem e as flores desabrocharem. Se deixar minha casa vira uma floresta. Está sendo muito bom passar um tempo com os pés literalmente no chão e as unhas sujas de terra, já consegui trazer minha mãe e minha filha para o mundo das plantas.

Espero que por aí vocês e suas famílias estejam bem, olhando a vida sempre pelo melhor ângulo. E assim vamos levando, um dia de cada vez, tarefa por tarefa, tentando ter calma e dar a pausa que o período pede. Que possamos aprender para crescer enquanto raça humana, o mundo precisa de mais cuidado e empatia.