Mãe reflete sobre vida pós-maternidade: “Devoto dele é o vento, esta minha respiração de nascimento”

Ligia Ignacio de Freitas Castro, mãe de João, é a filha do meio que sempre seguiu à risca a vida, até que o pequeno bebê chegou para mudar tudo

*Texto enviado por Ligia Ignacio de Freitas Castro, mãe de João

João chegou para mudar completamente a vida da mãe (Foto: Getty Images)

“Como autêntica filha do meio, entre a primogênita que reina e a caçulinha boazinha, sempre tive necessidade de ser vista e reconhecida pela família. Para alcançar esse objetivo existiam dois caminhos: o da ovelha negra ou o da mulher maravilha. Optei pelo segundo, claro, pois além de ser vista, eu seria elogiada.

Assim, fui me afastando a cada dia de mim mesma e me aproximando da pessoa que eu deveria ser: reservada, inteligente, dedicada e sem falhas. A perfeição tomou conta do meu “eu” e hoje entendo a escolha da faculdade de direito para a minha vida. Diferente não foi com a aprovação no concurso público de Cartório. Na minha cabeça, eu estaria sendo aprovada não só profissionalmente, mas também pela minha família.

Viver quietinha, sem calafrios ou muitas emoções, sem molhar o cabelo ou as pontas dos dedos parecia fácil, e não exigia muito de mim. O casamento chegou para emoldurar esse pequeno pacote que me definia, com fita vermelha e broche de ametista, aquela era eu: uma pessoa monocromática, centrada e previsível.

De repente, ele apareceu na minha vida e entortou minha estrada lisinha, retinha, sem curva. Chegou chegando, bagunçado os meus cabelos, mexendo em meu ventre, derretendo a minha alma.

O sol que raiava lá em casa nem parecia o mesmo, não conseguia mais esconder os meus medos, os meus erros, as
minhas falas. O clarão era tamanho que alumiou as minhas entranhas e descobriu os meus escritos embaixo do tapete da sala. E foi assim, numa tarde fria, com um grito quente entalado no peito, vindo do estômago, que eu me tornei escritora, descobrindo atrás da pedra de gelo água corrente.

Lígia brinca e diz que foi ela quem nasceu dele, e não ele dela (Foto: Getty Images)

Foi assim, despretensiosamente, que eu nasci dele e não ele de mim. Tá, ele saiu do meu corpo, apenas. Eu não, eu passei a existir essencialmente a partir dele. Eu parei de me preocupar com o vizinho, o porteiro, o médico, o país inteiro e passei a me olhar mais no espelho.

Eu parei de seguir a cartilha da sociedade e passei a seguir o meu calendário, de janeiro a janeiro. Eu parei de viver para o outro e passei a viver mais para mim, passei a sentir necessidade de ser ao invés de dever ser. Eu parei de buscar reconhecimento e passei a buscar felicidade, eu me aceitei demasiadamente errante e vi beleza nessa vivacidade.

São tantas as heranças da maternidade, mas para mim, a melhor foi a que me fez me descobrir. Ser quem eu sou é tanto e isso me basta. Ao meu filho João devo a minha vida. Devoto dele é o vento, esta minha respiração de nascimento”.