O dia amanheceu (na quarentena)

O momento é desafiador e nos convida a nos aproximar. Dentro de casa, esse hábito é ainda mais importante

**Texto por Lídia Maria Teixeira Lima Coelho, cientista social e estudante de psicologia

É o momento de focar na nossa família e rotina (Foto: Shutterstock)

O dia amanheceu. Ela ama. E porque ama percebe, se preocupa e tenta acolher. Relembra o dia em que ouviu dele: “Eu quero ser o provedor”. Tarefa demasiadamente pesada, carregada de significado e história. Apesar desse desejo de suprir as necessidades do outro, sejam econômicas ou afetivas, não se pode negar suas próprias questões. Nem sempre a máxima de que um homem não pode chorar funciona na prática. E como chora! Esconde sentimentos e temores, angústias. Muitas vezes as lágrimas caem sozinhas, solitárias. A vida se torna pesada. Repleta de incertezas.

A canção do grande poeta Gonzaguinha nos remete a uma realidade masculina bastante presente: “Um homem também chora, menina, morena. Também deseja colo, palavras amenas. Precisa de carinho, precisa de ternura, precisa de um abraço, da própria candura”. Esse homem sinaliza o tempo todo que deseja esse colo, que precisa dessa atenção. Ela, só quer isso: ser o reservatório de compreensão, abrigo e amor. Saber escutar é uma tarefa essencial. Ela quer aprender. Porque não é hora de julgamentos, de dizer: “Você é um homem, ou um rato?”. Mas de sensivelmente poder dividir as cargas, os medos e angústias. Afinal de contas, como diz a mesma canção do poeta Gonzaguinha, “guerreiros são pessoas, são fortes, são frágeis. Guerreiros são meninos por dentro do peito. Precisam de um descanso, precisam de um remanso. Precisam de um sonho que os torne refeitos. É triste ver meu homem guerreiro menino, com a barra do seu tempo por sobre seus ombros…”

É possível que muitos homens estejam se sentindo assim. Principalmente em tempos de pandemia. Preocupados, angustiados, sem saber o que fazer. Pode ser que alguns estejam com seus sonhos estrangulados, soterrados, abafados.  Infelizmente, em nossa cultura muitos não aprenderam a dividir o que sente com as companheiras. Nesse sentido, torna-se fundamental, o estabelecimento de um diálogo, que seja algo construído com muita paciência, sabedoria e empatia. E não existe receita padrão. Existem mil maneiras de se conversar honestamente, de amadurecer, e acolher criativamente o outro. E a canção segue: 

“Um homem se humilha, se castram seus sonhos, seu sonho é sua vida, e vida é trabalho, e sem o seu trabalho o homem não tem honra, e sem a sua honra, se morre se mata.” O trabalho mudou de lugar, ele está dentro de casa. Dentro do mesmo ambiente que precisa ser limpo, cuidado, onde as crianças brincam, estudam, carecem também de atenção. Somos equilibristas. Maridos, esposas, pais, mães, mas sobretudo indivíduos. Saberíamos contar para os nossos parceiros o que desejamos? Escutar de verdade, e não adivinhar como nos convém?  

Cuide da sua saúde mental (Foto: Shutterstock)

Homens, mulheres não podem deixar de sonhar. Não podemos pisar em nossos sonhos, esmagando-os. Triturar nossos desejos é caminhar para o precipício, para o adoecimento físico, mental, espiritual e emocional. O tempo não para, não volta atrás. É urgente prosseguir com fé e coragem. Se existe uma pandemia de divórcio no Brasil e no mundo, há também casos de reinvenção, de superação, através de um longo exercício. Não é uma fórmula mágica, uma vacina contra o divórcio, mas a conquista de maior sabedoria e discernimento. Podemos nos questionar. Sem encontrar vítimas e/ou culpados. Adultos responsáveis pelos caminhos escolhidos. Sempre pensando na felicidade e saúde mental das crianças.

Ela ama. Como já foi dito anteriormente, percebeu que ele não estava bem. E na verdade, não está. Seu humor oscila bastante. Angústia. Medo da morte. E se algo acontecer com ele? Decide começar uma psicoterapia, sente-se melhor. Fala, fala, fala, e fala. Tem mais assunto para conversar com a esposa. Conversa sobre a terapia. 

São tempos difíceis, marcados por muito sofrimento. Pensar na morte não é algo mais distante ou tabu. É da ordem do dia. No entanto, não precisa ser o único tema. É tempo de amar. Podemos tentar acordar cedo, aproveitar o tempo em que as crianças estiverem dormindo para prosear com o cônjuge. Ele/precisam falar, falar, falar. Independente do assunto, precisamos falar. Sabemos do que o outro necessita? Conseguimos ser suficientemente boas companheiras e  bons companheiros? 

Ela ama, mas não ama sozinha. Ele também ama.  E de repente, decidiu dar às suas filhas um animal de estimação. Resgatou duas gatas/bebês. Surpreendentemente, a atmosfera mudou. Interrompeu também por um tempo as notícias ruins, por miados e carinhos de quem também necessita de amor. Os vínculos daquela família se fortaleceram. Trazendo vida. Duas felinas vidas. Dividiram tarefas e  prorrogaram a vontade de estar juntos. Numa família que ainda tem muito a viver, com alegria e esperança de dias melhores. Porque se há a angústia e o medo proveniente da pandemia, há também a possibilidade de adoção, de doação, de superação.