Que mãe sou eu?

A maternidade é apenas uma das nossas várias versões. É preciso dar atenção, sim, mas não esqueça das demais

**Texto por Priscila Farias, casada, mãe da Alice, de 5 anos. Formada em Comunicação Social, trabalha como secretária executiva há 10 anos. Gosta de ler sobre tudo um pouco, ama viajar e fotografar

A maternidade é cheia de questões, e tá tudo bem não dar conta de tudo sempre
A maternidade é cheia de questões, e tá tudo bem não dar conta de tudo sempre (Foto: Getty Images)

Hoje eu esqueci de mandar o café da manhã que a minha filha toma todo dia na casa da minha mãe. Que mãe sou eu que esquece uma coisa dessas?

Ah sim, sou aquela que acordou de madrugada para limpar o xixi que ela fez na cama, quebrando minhas poucas horas de sono e descanso. A mãe que na noite anterior já deixou preparada a lancheira da escola, o uniforme, a lição de casa e o almoço do dia seguinte. Já organizou pela centésima vez a casa e as roupas espalhadas. Já acordou antes de todo mundo para se exercitar, porque imagina se vou me tornar a mulher que “depois que casou e teve filho, se largou, vocês viram?!”. Quem nunca ouviu ou sentiu essa cobrança, ainda que isso pareça tão pequeno perto das responsabilidades diárias?

E nessa infinita lista de cobranças internas e externas, me lembro que preciso tomar um banho rápido e engolir o café da manhã, em pé mesmo, porque às 9h preciso estar no trabalho. Por um momento até me esqueci dessa parte!

Ainda assim me considero uma mulher de sorte, porque tenho um marido super participativo, minha filha tem avós presentes e que me ajudam sempre que preciso, e ainda posso contar com uma ajudante em casa. Mas, por algum motivo, talvez alguma parte dessa história que ainda não entendi, a conta não fecha. Se fechasse eu não teria esquecido de mandar o café da manhã da minha filha, ou não me sentiria culpada por não ter tido tempo de sentar e brincar com ela ontem à noite. Ou quem sabe teria até tempo para maratonar a última série da qual estão todos falando.

Isso pode parecer um texto de uma mãe triste ou até arrependida, mas não é. É para gerar identificação com aquele mundo particular que só as mães entendem. Para, quem sabe, escrevendo, enumerando e revendo tudo o que fizemos em 24 horas, a gente se liberte de uma vez da pressão que nos acompanha sempre. E o sentimento de culpa dê lugar à leveza de pensar “hoje eu fiz o meu melhor”. Quero pensar que faço o que é possível e o melhor que eu posso. E quero ser feliz com isso. Porque quero ter a mesma sensação de missão cumprida tanto nos dias em que faço aquela receita de lanche saudável que a nutricionista ensinou, quanto nos dias que peço uma pizza porque não deu tempo de cozinhar, ou porque quero a praticidade, ou porque sim!

Essa reflexão poderia se estender por muitas outras linhas, mas cheguei agora no trabalho e preciso acionar a outra versão de mim. A que usa salto alto, tem diploma e perfil no LinkedIn. Temos muitas versões, às vezes cansa mesmo. E está tudo bem, porque eu sei que estou fazendo sempre o meu melhor.