A maternidade é o esporte mais radical do mundo

Ela vai além de gerar ou parir uma criança

Ter um filho sempre me pareceu coisa de quem não tem juízo (Foto: Getty Images)

Eu posso ter cometido algumas irresponsabilidades na juventude, mas ter um filho sempre me pareceu coisa de quem não tem juízo. Eu, hein. Pra começar, você precisa esperar a menstruação não chegar – se ela chegar, é porque o bebê não vem. As crianças detestam essa pressão pra elas virem logo, e continuam assim até a vida adulta.

E aí é como quase tudo na vida: você só encontra aquele anel perdido quando para de procurar; o telefone só toca quando você não está esperando. Foi assim que o Francisco chegou. Eu não encomendei, juro! Mas amei a surpresa. Quando fiz o exame eu fiquei olhando para aquela barrinha azul, depois para o laudo do laboratório, e foi bem difícil acreditar que dentro de mim tinha uma pessoa de verdade. Mas tinha.

Demorou, mas a ficha foi caindo. O espelho dizia “você tá grávida” e eu falava “cê tá doido, rapaz”. A gravidez é assim, essa verdade que vai crescendo devagar. Deve ser pra gente não se assustar com o tamanho da loucura. Com o tempo o bebê pega a marginal e acelera. Até nascer.

Pensa bem, a gente começa emprestando o corpo para o menino morar. É por uma temporada curta, mas, não tem jeito: ele deixa algumas avarias. Depois, quando nasce, a gente respira aliviada pensando que deu tudo certo. Que ingenuidade, a aventura está só começando. A maternidade é o esporte mais radical do mundo. Porque depois de emprestar o corpo a gente cede o coração. Em definitivo.

Eu sei, ser mãe é cair num mar de clichês. As mães são muitas e estão por toda parte. Mas é verdade, nasce mesmo uma mãe junto com o bebê. O que ninguém conta é que depois desse nascimento a gestação continua. É sobre isso que escrevi no livro “Escrever uma árvore, plantar um livro”, tentando passar por lugares não tão comuns (se tem uma coisa que mãe faz é tentar).

As crônicas reunidas neste livro que estou lançando (muitas delas escritas aqui para a Pais&Filhos) crescem junto com o Francisco. Lê-las é acompanhar o crescimento dele e também o de uma mulher que não para de se transformar. Parece que nos tornamos “matrioskas”, vamos dando à luz outras mulheres, e essas vão parindo outras. Cada dia uma.

Tudo tão rápido, que nem dá tempo de amadurecer. Ser mãe é só um disfarce pra gente parecer adulta (às vezes até acredito). É um deslumbramento atrás do outro e, por mais que a gente exercite, nunca nos tornamos “profissionais” no assunto. Amamos demais pra deixar de ser amadoras.

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