“Estamos todos, adultos e crianças, necessitando de um banho da velha infância”, afirma Cris Guerra

A mãe de Francisco também alertou que precisamos reaprender a curtir a própria companhia, e ensinar aos filhos a apreciar a solitude também!

Criança precisa brincar e se divertir! (Foto: Getty Images)

Nesse mundo onde as crianças desenvolvem habilidades digitais cada vez mais cedo, a grande dificuldade é se concentrar em um único assunto. O que falta hoje é essa atenção a cada coisa –  o cabelo da boneca, o trajeto das formigas ou essa demora para chegar o Natal. Mas essa ansiedade moderna não é privilégio dos mais jovens. Estamos todos, adultos e crianças, necessitando de um banho da velha infância

Na fazenda da minha avó, minha obsessão quando pequena era ser dona de uma galinha – linda, branca pincelada de amarelo. Enquanto os irmãos e primos mais velhos tinham cavalos, para mim sobrara uma galinha. Ou meia. A outra metade era do meu irmão. Não me lembro se a bichinha acabou no molho pardo, porque outra coisa logo me distraiu. No velho armário da casa da fazenda, orelhas brancas me fizeram coelha, um pedaço de filó virou véu de noiva e de pijamas me casei. Última neta e temporã, aprendi a brincar comigo mesma (também no sentido figurado). As lembranças que eu enxergava com certa melancolia, hoje percebo, foram cruciais para apreciar a solitude – que é bem diferente de solidão. 

Os adultos e crianças de hoje estão desaprendendo a curtir sua própria companhia. Inebriados pela falsa sensação trazida por uma timeline em constante movimento, seguem fugindo de si mesmos. Não tem sido fácil o desafio de preparar nossos filhos para um mundo que sequer temos tempo para conhecer – porque não para de se transformar. Para esse entorno que se movimenta tão rápido, o alicerce fundamental é a autoestima.

A palavra se desenha claramente na trama “Rocketman”, a biografia musical recém-lançada sobre a vida do cantor e compositor Elton John. O filme traz uma compilação de lembranças do próprio Elton, num clima fantástico que tem a ver com a estética de seus anos de maior sucesso. Uma das cenas traz a criança de Elton John pedindo um abraço a ele mesmo, já adulto. E é sobre isso a autoestima: sobre abraçar-se a si mesmo. 

De um jeito ou de outro, todo ser humano tem de aprender a se acolher, até para vivenciar as relações de forma saudável. A construção desse conforto de estar em si mesmo passa pelos verbos brincar e conversar. Duas ações que, por sinal, caminham muito bem juntas. Conversar consigo mesmo, por exemplo, é um caminho bonito para o autoconhecimento e a autoaceitação. 

“Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam: o que você quer ser quando crescer? Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino”. A frase do escritor Fernando Sabino, que retratou lindamente a sua infância no livro “O menino no espelho”, nunca foi tão atual. Quando a gente mantém viva a nossa criança, estamos sempre prontos para abraçá-la quando for preciso.

 

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