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“Meu filho é a criança que me obriga a estar preparada”

Meu projeto de ser melhor, minha maturidade no grito, minha muda de gente que vingou

Cris Guerra é mãe do Francisco (Foto: Reprodução)

Tenho em casa uma surpresa diária de mim. Meu projeto de ser melhor, minha maturidade no grito, minha muda de gente que vingou.

Tenho em casa uma criança grande. Ou um pequeno adulto, não sei bem ao certo. Há doze anos era só um exame positivo – e medo, esperança, frio na barriga, a certeza de que eu não estava preparada. Acordo hoje diante de uma verdade que cresceu.

Tenho em casa o gerúndio de um sonho-surpresa. Que deixa bilhetes do tipo “Mãe, se você não me ‘ver’ andando de bike na praça, é pq eu devo estar dando a volta numa parte que ñ dá pra ver. Valeu pela atenção e boa tarde”.

O menino que vai e volta a pé da escola, autônomo, é o mesmo que carrego pra cama mais tarde, com significativa dificuldade. Pede cafuné na hora de dormir e na manhã seguinte me serve café na cama. Já prepara seu prato de macarrão para um eventual almoço sem a mãe em casa.

Ele é o adulto que ensina ao amigo mais novo as manhas do videogame. Ele é a criança que ainda me surpreende perguntando por quê. O menino que tenho em casa usa termos como “literalmente”, “lisonjeado” e “a propósito”, e os aplica em contextos corretos. Prova pratos com o tom grave de um crítico gastronômico.

Aceita o suco dizendo “Sim, obrigado” e me dá conselhos do tipo “Por que você não compra esse apartamento?”. Meu pequeno grande homem é quem entra no meu quarto na hora da chuva, preocupado em fechar minha janela. O copiloto que me lembra de abastecer o carro. É ele quem me dá a bronca se me distraio no trânsito com o celular.

Tenho em casa o espelho dos meus defeitos, lição sobre minha ingenuidade, indiferença aos meus medos. Tenho em casa o milagre. A expectativa e o nunca esperado. O que jamais sonhei porque não me sabia capaz.

Tenho em casa um contador das minhas histórias. Espera o que não sou, mostra de mim aquilo em que não ponho fé. Haverei de ser para ele sempre melhor, mesmo que não me ache capaz. Tenho em casa um projeto adiantado de homem da casa.

E é em casa mesmo a minha aula diária de ser gente. Ele é o adulto que me lembra a minha imaturidade. Ele é a criança que me obriga a estar preparada. Ele é o mestre que sinaliza meus propósitos. Ele é o pequeno e o grande, o bebê e o menino, o filho e o homem, aquele de quem cuido e que me cuida.

Nunca sei qual deles irá contar uma piada, pedir um carinho, fazer bico de adolescente e revirar os olhinhos com certa preguiça. E é assim, com surpresas a cada instante, que construo com ele a vida que não planejamos.

Companheiros e nunca solitários. Cúmplices, mas nunca dependentes. O que posso fazer de mais bonito por ele é ensiná-lo a viver bem sem mim. Enquanto isso, a vida segue uma alegria.

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