A ligação entre pais e filhos é eterna

O cordão umbilical permanece mesmo após o corte. Eles podem até estar longe dos olhos, mas sempre estarão dentro do coração

Era meio da manhã quando o Gabriel finalmente adormeceu nos braços do Eduardo depois de uma maratona de mamadas na madrugada. Lembro bem da cena: meu marido sentado no sofá com o nosso pequeno adormecido sobre seu peito. Eu estava exausta. “Você precisa sair um pouco, respirar ar fresco. Por que você não sai pra caminhar e pegar um solzinho? Eu fico aqui com ele. Qualquer coisa, eu te chamo”. Apesar do cansaço, era mesmo o que eu precisava naquele momento. Sair de casa, sair do mundo das fraldas e rosquinhas de pano protetoras de bico esfolado. Entendedoras entenderão!

A relação de pais e filhos se desenvolve com o tempo, mas essa corda nunca se desprende (Foto: iStock)

Desci. Caminhei aflita pela praça. Algo não me deixava relaxar. O pensamento havia ficado lá em cima com o meu filho. Uma volta completa e o telefone toca: “Sobe. Ele acordou, está chorando”. Minha escapada durou exatos dez minutos. Depois de não sei quantos dias, finalmente, sentia o vento no rosto, o calor do sol na pele… Uma mistura de alegria, frustração e culpa. Mesmo assim, voltei correndo pra amamentar a cria.

Aquele havia sido o primeiro pequeno momento longe do meu filho e eu não conseguia tirá-lo da cabeça. A segunda tentativa aconteceu mais tarde, quando o Gabriel já tinha 8 meses de vida. Eu voltaria a celebrar casamentos e o Edu ficaria cuidando dele. Tentei focar no trabalho. Na primeira cerimônia, tentei concentrar no texto e me desligar do resto do mundo por pelo menos quarenta minutos. Noivo, pais, padrinhos… Quando o pajem apareceu, eu desabei a chorar imaginando o meu Gabrielzinho ali, já andando, de gravatinha borboleta e tudo. Depois se casando, formando família e saindo de casa. Ai, como coração de mãe sofre… Calma, Geovanna, que você ainda tem alguns desafios pra enfrentar antes do altar!

Dizem que a adaptação escolar é mais difícil pros pais do que pros filhos. Eu concordo. Para o  Gabriel não foi tão fácil. Afinal, ele é um “filho da pandemia”. Mas eu achava que tiraria de letra, que iria aproveitar meu tempo livre pra fazer várias coisas das quais sentia saudade. O que eu fiz na primeira tarde que me mandaram voltar pra casa depois de deixá-lo na escolinha? Fiquei assistindo o Gabriel na tela do celular, acompanhando seus passos pelas câmeras do berçário. O meu próprio “BBBaby”.

Agora entendo porque minha mãe ainda me chama de Geovaninha e sempre pergunta se eu estou me alimentando bem. Só agora posso compreender alguns “nãos” que recebi do meu pai e porque ele fazia tanta questão de me levar e me buscar nos lugares até depois da minha adolescência. Definitivamente, a ligação entre pais e filhos é eterna. O instinto materno, ou paterno, nada mais é do que amor e cuidado. O cordão umbilical permanece mesmo após o corte.

A parentalidade é como soltar pipa. Nós queremos ver nossos filhos subindo com o vento, colorindo e alegrando o céu. Soltamos a linha pouco a pouco, nos acostumamos com a distância conquistada, admiramos suas piruetas ao longe, mas queremos que o carretel fique bem firme em nossas mãos para que possamos içá-los quando os ventos da vida não estiverem tão favoráveis. Ao menos, assim eles não perderão o caminho de volta pra casa.