Instinto materno: paixão à primeira vista, amor construído no dia a dia

Mesmo com todos os preparativos da gestação, o nascimento de um bebê muda tudo. São novos sentimentos e sensações que se misturam e criam a “mãe-leoa”

A “mãe-leoa” só deu as caras alguns dias após o nascimento do Gabriel. Aprendi que o instinto materno não é inerente a mulher que dá a luz. A pandemia nos deu a oportunidade de ressignificar a função de pai e mãe.

O relacionamento entre mãe e filho é uma construção, que mistura vários sentimentos (Foto: Shutterstock)

Olhei para o rostinho daquele bebê pela primeira vez e pensei: “Então esse é o meu filho”. Observei atentamente cada detalhe do meu pequeno enrolado na manta do hospital. Os olhos brilhantes, o nariz ainda inchado e a boca envergada pelo choro necessário. Finalmente em meus braços, materializava-se a ideia que construí do meu bebê ao longo da gestação. Ele era exatamente igual a imagem da ultra 3D. Santa tecnologia! Os chutes na costela, os socos-surpresa, as longas conversas com a “barriga” só aguçavam a curiosidade do primeiro encontro.

É  como um “blinde date” que começa no virtual. Você troca mensagens com o outro e acha que já o conhece, mas na hora do olho no olho é que a magia acontece. Me apaixonei por aquela criaturinha tão amassada, suja e indefesa. Foi paixão à primeira vista! Porque o amor mesmo só aconteceu mais tarde como em qualquer outro relacionamento.

A ficha da maternidade demorou a cair, mesmo tendo carregado meu filho por tantos meses na barriga. Dia a dia, pouco a pouco, fui entendo o que era o tal “amor de mãe”. É amor que se constrói no cuidado, no carinho, no afeto… Em cada troca de fralda desastrada, em cada mamada dolorida. Foi no cotidiano do puerpério que entendi o que significavam algumas expressões que ouvi durante toda a vida. “A mãe dá o sangue” ou “Tiro da minha boca pra dar pro meu filho”. Aprendi na dor que a amamentação não é algo natural e instintivo. Assim como aprendi também que o instinto materno não é inerente a mulher que dá a luz.

Quando Gabriel nasceu, eu me senti mais filha do que mãe. Precisava de cuidado, de colo, de atenção. Agradeço muito a Dona Nazaré, minha mãezinha, que me acolheu e ajudou tanto no início  do meu maternar. A mãe-leoa que habita em mim só deu as caras alguns dias após o nascimento do Gabriel, quando entendi que ninguém era melhor do que eu para cuidar do meu filho. Foi no dia em que pedi para as pessoas que me rodeavam naquele momento me deixar sozinha com ele. Ali encontrei uma força que não sabia que existia. Foi a partir daquele momento que começamos a nos conhecer melhor e o amor surgiu. Somente através dessa conexão estabelecida com os nossos pequenos é que podemos seguir para o próximo estágio.

Dizem que quem ama, cria. Eu diria que o inverso também é verdadeiro: Quem cria, ama. A pandemia nos deu a oportunidade de estar mais perto dos nossos filhos e dar novo sentido à função de pai e mãe. Meu marido e eu pudemos acompanhar cada conquista do desenvolvimento do Gabriel nos seus primeiros dois anos de vida, e isso é uma benção. Acredito que esse período intenso de isolamento em casa, tão juntinho dos nossos filhos, vai resultar num “novo normal” familiar muito mais atento e afetuoso. Nós vimos que não é fácil assumir a responsabilidade total sobre a criação dos pequenos. Quando não se pode ter por perto uma rede de apoio como a família, os cuidadores e a escola pra ajudar, a tarefa fica pesada. Nenhum pai ou mãe que queira assumir por completo esse processo vai sair ileso. Mas vale a pena investir em algo que pode reverberar por essa e outras gerações, não acham?