Não é possível (nem saudável) resolver todos problemas dos nossos filhos por eles

Muito mais efetivo do que encontrar a solução dos conflitos das crianças é ajudá-las a encontrar as respostas por si só

Eu sempre amei papelaria. Adoro trabalhos manuais, artesanato e por isso tenho duas prateleiras do armário do escritório dedicadas a guardar todo tipo de bugigangas. Posso ter herdado algo de  “acumulação” da minha avó que não desperdiçava nenhum pedacinho de fita, botão ou papel de  presente usado para o caso de, algum dia, precisar. A verdade é que eu quase nunca precisei de fato. Meu marido sempre perguntava porque guardo tanta tranqueira lá. Pra minha sorte, veio o Gabriel e os trabalhinhos da escola. Ativei o modo “atividades escolares” e desenterrei meus tesouros do armário com muito orgulho. Mas um item em especial ganhou destaque na rotina com o meu filho, a fita adesiva.

As crianças precisam aprender a resolver os problemas e também lidar com a frustração
As crianças precisam aprender a resolver os problemas e também lidar com a frustração (Foto: iStock)

Bastou uma página de livro rasgada pra que ele decorasse a frase “conserta, mamãe”. Toda vez que uma página se desprende do bloco, ou uma folha é rasgada, ele repete a ladainha: “conserta, mamãe! Conserta, mamãe!”. No início, me senti poderosa! Uma super mãe empunhando a fita adesiva, disposta a salvar qualquer brincadeira. Pois quando a fita acabou, a birra começou. Foi então que cai em mim e comecei a me preocupar. Nem sempre estaremos por perto pra resolver os problemas dos nossos pequenos imediatamente. Nem sempre poderemos consertar os estragos dos nossos filhos. Então comecei a me perguntar se essa é uma atitude saudável na criação do meu filho.

Lembro de brincar com boneca sem perna, jogo faltando peças e quebra-cabeças que nunca poderiam ser concluídos por não estarem completos. É claro que queremos ver o sorriso no rosto dos nossos filhos, mas esse também pode ser um exercício de aceitação daquilo que não podemos mudar, de responsabilidade sobre as atitudes e uma bela lição de que a vida está cheia de imperfeições… E que está tudo bem assim.

Depois da reflexão, deixei os rasgos como estavam e adiei a ida à papelaria. Sabe qual foi a reação do Gabriel? Nenhuma. Nenhum choro, nenhuma reclamação. E mais! Percebi que ele passou a manusear seus livrinhos com mais cuidado por causa dos rasgos. Ele não chorou, nem deixou de brincar. Essa pequena intercorrência acabou se mostrando uma grande aula pra minha maternidade. Resolvi agir diferente e incluir o meu pequeno no processo. Combinamos de ir juntos à loja pra comprar a fita. Chegando em casa, deixei que ele participasse do recorte e cole. Folha por folha, fomos consertando as páginas da historinha que ele adora. “Mamãe, consertei o baratotal!”, ele me disse. Foi lindo ver os olhinhos dele brilhando de felicidade ao conseguir remendar, ele mesmo, o seu próprio livro. Com a minha supervisão, claro!

Aprendi que ser uma boa mãe não é solucionar os problemas dos filhos, mas sim ensinar a eles como resolvê-los, esperando que sofram menos no processo. Afinal de contas, há muitas coisas na vida que nós mães(e pais), ou uma fita adesiva, não vamos poder remendar por eles.