O mito da mulher-maravilha

Acumulamos lições sobre expectativas e realidade mesmo antes de ser mãe. A maternidade nos faz desacelerar e nos ensina a festejar aquilo que conseguimos realizar, ainda que mais ou menos

“Eu não sou a mulher-maravilha!” Um dia acordei com essa afirmação postada por mim mesma no Facebook depois de um “burnout” sofrido por conta do excesso de trabalho. Estava tão fora de mim que nem lembrava de ter digitado a frase num momento de sonambulismo noturno, ou teria sido diurno? Nem sei. Naquele tempo, eu já me cobrava demais. O trabalho me cobrava demais. A sociedade me cobrava demais. Não aguentei. Aquele foi um pedido de socorro que eu mesma nem sabia que precisava. Eu ainda estava longe de me tornar mãe e já acumulava lições sobre expectativas e realidade. A pergunta que mais ouvi durante a gravidez foi que tipo de mãe eu seria. Nunca soube responder. A verdade é que eu estava morrendo de medo de me frustrar, de errar, de não ser boa o suficiente. Uma lição para a posteridade!

Fato é que a gente dá conta sim, mas não sem sofrer algum prejuízo quando exigimos de nós mesmas fazer tudo, perfeitamente, todos os dias (Foto: iStock)

Quando o Gabriel chegou, não sabia o que esperar de mim. Desde muito nova que encaro qualquer desafio, que me jogo de cabeça nos projetos, que me doo por completo. Achava que já estava calejada, que já estava preparada para o trabalho que uma criança exige. Se entrego a minha vida por um projeto, porque não faria o mesmo pelo meu filho? Esqueci que o trampo da mãe vai muito além do desgaste físico. Que também tem o corpo e a mente pra cuidar, a casa pra arrumar, a despensa pra abastecer. A comida não aparece quentinha na mesa. A roupa não surge cheirosa no armário. As preocupações com as contas e o relacionamento com o marido não vão embora depois que o bebê dorme. O sono sim, se vai. Ah! Se todas aquelas longas e profundas sonecas tiradas durante a gravidez pudessem ser armazenadas em nosso ser para podermos lidar melhor com a maratona da maternidade que nos aguarda… Infelizmente, “banco de sono” não existe.

Mesmo com toda a experiência frustrada em exigir de mim a perfeição, ainda sim me cobrei demais. “Você dá conta!”. “A mulher é multitarefa, faz tudo ao mesmo tempo”. “Nós somos superpoderosas”. Ouvia essas frases das amigas, dos colegas de trabalho, nas redes sociais, dentro da minha cabeça e pensava: “Se todo mundo consegue, porque raios eu não consigo?”. Fato é que a gente dá conta sim, mas não sem sofrer algum prejuízo quando exigimos de nós mesmas fazer tudo, perfeitamente, todos os dias. A mulher-maravilha tem superpoderes, gente! Eu não tenho. Ponto. Então eu prefiro acreditar na Mulher-Possível, essa mulher real que todas nós conseguimos ser todos os dias.

Aprendi que devemos olhar para as nossas limitações com mais generosidade e festejar no fim do dia aquilo que conseguimos realizar, ainda que mais ou menos. Aprendi que pedir ajuda não é passar atestado de incompetência. Que não dar o “check” em toda a sua lista de afazeres não vai te colocar em maus lençóis, nem fazer de você uma mãe pior. A maternidade nos faz reduzir a marcha para podermos priorizar aquilo que mais importa no momento, a criação de outro ser humano. Acabei descobrindo em mim uma mulher muito mais focada, organizada e com vontade de mudar o mundo. Mas agora com um passo de cada vez. Assim como os nossos bebês.