Mindfulness familiar: a atenção plena que todos nós precisamos

Como estar totalmente presente nas atividades com os filhos melhora a qualidade das nossas relações

Sempre fui uma pessoa hiperativa, com dificuldade para desligar. Ano passado com o início da pandemia, assim como quase todo mundo, comecei a buscar alternativas para relaxar e cuidar da minha saúde mental e emocional.

Exercitar o Mindfulness melhorou a qualidade da relação com os meus filhos (Foto: iStock)

Comprei o livro “Meditação para céticos ansiosos” de Dan Harris, Jeff Warren e Carlye Adler e passei a (tentar) praticar meditação. Fui apresentado logo no início da obra ao conceito de Mindfulness – um dos pilares da atividade meditativa – que quer dizer “atenção plena”. Basicamente é o ato de se estar no momento presente da maneira mais consciente possível, focando toda sua atenção na ação que você se propõe a fazer. Confesso que eu ainda não consegui meditar pra valer – ou como o livro sugere que farei se continuar tentando – mas descobrir a existência do Mindfulness me ajudou a melhorar a convivência e a qualidade da relação com meus três filhos.

Antes, um breve histórico: a chegada do Pedro foi um dos melhores presentes que a vida me ofereceu. Como já escrevi em outros textos desta coluna, tê-lo ao meu lado significou descobrir um mundo novo – mais amplo, profundo e divertido – e proporcionou-me enxergar o antigo através de novas perspectivas. A descoberta da síndrome de Down um dia após o nascimento fez-me valorizar o que realmente importa na vida e revisitar importantes conceitos da natureza humana – até então, em mim, adormecidos. Este conjunto de privilegiadas possibilidades faz com que eu me torne uma versão mais evoluída de mim mesmo a cada dia.

Para a Nina e o Lipe, os irmãos mais velhos, este cenário foi apresentado numa fase ainda muito inicial dos respectivos desenvolvimentos. Consequentemente, eles aproveitarão os benefícios desta visão de mundo mais plural por muito mais tempo em suas vidas do que eu e a Marina nas nossas. E isto quase sempre é muito bom. Quase.

A carga de cuidados envolvida na fase de estimulação de uma criança com deficiência intelectual muda a rotina de qualquer família – seja ela de um ou três filhos. O acompanhamento médico-terapêutico, a constante aparição de dúvidas e novas questões e as diferentes nuances dos temas mais antigos, requerem um grau de dedicação que envolve todos os que estão próximos, independentemente de suas idades. Por mais cuidadosos que sejamos nestes processos, especialmente quando o cenário contempla outros pequenos, é bem provável que algumas fases de seus desenvolvimentos estejam sendo adiantadas. E isto normalmente não é bom.

Em casa, esta percepção sempre se deu inicialmente em relação à Nina, que já tinha 5 anos quando o caçula nasceu: uma irmã extremamente carinhosa que estabeleceu com ele uma relação maternal – ou como diz a Debora Goldzveig, uma relação de “irmãe”. Ainda que nossa Princesa faça tudo com alegria e espontaneidade, involuntariamente ela absorve uma carga de responsabilidade fruto deste convívio. Se somarmos isto à ansiedade que lhe é característica, não é bobagem pensar num amadurecimento precoce em algumas áreas – e que, portanto, requer especial atenção.

Como o Lipe tinha apenas 2 anos e 5 meses quando o irmão mais novo chegou, sua relação com ele demorou mais para amadurecer. Mas posso afirmar que, de tempos para cá, ele também começou a demonstrar alguns sinais como os da irmã.

E o que pode ser feito? Talvez um dos grandes desafios desta jornada, juntamente com a aceitação do diagnóstico no momento da notícia, seja encontrar o ponto de equilíbrio nas mais diversas situações: a dose certa da estimulação, a manutenção da relação do casal, o meio-termo entre benefícios e desgastes que uma criança com necessidades especificas pode oferecer e a distribuição de atenção entre os filhos. E é sobre esta última que quero falar um pouco mais.

Uma das primeiras dicas que recebemos logo após recebermos o diagnóstico foi: “cuidado para não dar mais atenção ao filho com síndrome de Down. Afinal, você é pai de três e não apenas de um”. Procuramos seguir à risca esta sugestão: um bom exemplo é a realização constante de programas individuais com cada filho, a partir de suas respectivas vontades e interesses. Além disto, Marina e eu sempre buscamos fazer atividades familiares com a participação e protagonismo dos três – mesmo que seja um exercício de fisioterapia do Pepo, que pode se transformar numa brincadeira lúdica onde todos participam, brincam e comemoram – como neste vídeo.

Mas o que realmente mudou a qualidade da relação com as crianças, reforçando inclusive a uniformização de atenção, foi a aplicação do tal conceito de Mindulness. Todas as vezes que estou sozinho com cada um eles, eu busco praticá-lo: procuro concentrar-me na atividade que estamos fazendo, dedicando o máximo possível da minha atenção para estar realmente presente, de corpo e alma, ali. Isto envolve, invariavelmente, perguntar o que eles querem fazer, largar o celular (estaria aqui o maior desafio?), sentar no chão, suar, sujar-se e muitas outras ações que, a priori me tiram da zona de conforto, mas que muito em breve terei muitas saudades de fazer com eles.

Há alguns dias, ao deixar o Lipe na escola, percebi que ao nos aproximarmos do portão ele disparou com os braços abertos em direção a um amigo da sua classe. Ambos se abraçaram longamente, deitando as cabeças nos ombros alheios, enquanto eu e o pai dele olhávamos, repletos de admiração – e, no meu caso, com algumas lágrimas. Era a saudade materializada em forma de afeto, já que o Guto não tinha vindo na primeira semana de aula. Quando este abraço terminou, elogiei a atitude e ganhei o meu de despedida, acompanhado de um “eu te amo, papai”.

Quando liguei emocionado do carro para a Marina para contar o que tinha recém presenciado, escutei: “Rico, isto é fruto da tua atenção plena para com os filhos: a percepção de uma atitude que poderia ser considerada comum e, principalmente, a capacidade de absorvê-la a ponto de melhorar o teu dia”. E ela tem razão: praticar o “mindfulnesss familiar”, até se tornar algo natural, levou-me a valorizar ainda mais as pequenas atitudes e fazer felizes descobertas ao acaso (serendipidades), que por sua vez geram mais gratidão e maior sensação de plenitude e cumplicidade – tanto para mim, quanto para meus três pimpolhos. Bora experimentar?