O capacitismo e nossas múltiplas inteligências

Como abordagens únicas e excludentes limitam a convivência e o potencial dos seres humanos

Há alguns dias vi um post no Instagram da ativista Andrea Werner, que faz um trabalho extremamente sério relacionado à inclusão de Pessoas com deficiência, e é mãe do Theo, um adolescente Autista de 13 anos. A publicação revelava a mensagem enviada por uma seguidora, contendo as seguintes frases: “Não entendo quando você fala que seu filho é inteligente”, “eu fico achando que você segue negando o autismo do seu filho”, “ele lê, escreve, faz contas?”, “abraça o teu filho como ele é, com atraso, um retardo e não fica dizendo algo que ele não é”… Dentre outras inacreditáveis colocações.

Apresentar um mundo diverso para os filhos é essencial
Apresentar um mundo diverso para os filhos é essencial (Foto: Shutterstock)

Quero começar oferecendo, mais uma vez, solidariedade à família Werner e repudiando o desagradável texto, repleto de insinuações espúrias. Infelizmente, trata-se de um exemplo prático de como a sociedade, em geral, enxerga as Pessoas com deficiência – e de como alguns ainda insistem em diminuir a luta dos que buscam mudar esta realidade. Associações de “deficiência com incapacidade”, “deficiência com doença” e “deficiência com infelicidade” são manifestações frequentes do capacitismo estrutural, enraizado e nocivo que existe por aí. O simples fato de uma mãe não vitimizar seu filho com Transtorno do Espectro Autista e não encarar sua condição neurodivergente como um fardo já é suficiente para revoltar os preconceituosos de plantão. Presenciar ofensas e atitudes discriminatórias contra um filho dói (nossa Família também passou por isto recentemente, como mostramos aqui) e muitos ainda esbarram nelas todos os dias.

A partir deste triste episódio, pensei que seria útil compartilhar algumas das minhas recentes descobertas ligadas à inteligência dos seres humanos, traçando um paralelo com inclusão, diversidade e com a educação brasileira.

Em fevereiro de 2021 deixei a empresa de tecnologia que co-fundei em 2008 e passei a ter tempo livre para estudar temas que me interessavam, mas cuja disponibilidade para aprofundamento era restrita até então. Um deles era a educação – mais especificamente as “metodologias de aprendizagem ativas”. A experiência vivida a partir de meados de 2020 com a Escola de Impacto, iniciativa do Instituto Serendipidade em parceria com a ONG Turma do Jiló, despertou em mim uma nova paixão: a educação para a transformação.

O programa da Escola de Impacto, que em 2021 atendeu mais de 200 jovens de 14 a 19 anos das redes pública e privada de ensino de todo o Brasil, dedica-se a formar cidadãos para o mundo. Através da exploração de temas como Racismo, Desigualdade Social, Sustentabilidade Ambiental, Neurociência, Pessoas com deficiência, Filantropia, Cultura ESG e Educação Política e de experiências práticas de trabalho voluntário guiado, a Escola desenvolve em seus estudantes habilidades socioemocionais, ampliando seu repertório comportamental e contribuindo para que sejam (ainda mais) protagonistas de sua própria história. Num ambiente colaborativo, de muita escuta e repleto de diversidade, ensinamo-los a trabalhar por projetos e a construir soluções de impacto socioambiental nas áreas em que desejarem, sejam elas no 1º, 2º ou no 3º setor. A proposta, sem fins lucrativos, tem a missão de formar os futuros agentes de transformação do nosso Pais – e se apresenta, com muito sucesso, como um complemento necessário à educação tradicional (e obsoleta) ainda predominante no Brasil: o NPS (Net Promoter Score) das turmas é acima de 83 – número que enche qualquer um de orgulho.

A educação básica brasileira ainda é extremamente conteudista, focando a jornada escolar na preparação para uma prova que acontece no final do Ensino Médio. A maioria das escolas está, há décadas, interessada apenas em fazer seus alunos memorizarem a maior quantidade possível de informações, que passam a não servir mais para (quase) nada no dia imediatamente seguinte ao vestibular. Afirmo isto com conhecimento de causa, já que em 1995 mudei de escola para fazer o então “colegial” numa instituição mais forte em conteúdo, com o objetivo de aumentar as minhas chances de ser aprovado na Fuvest. Eu passei – e apesar de poder dizer que “deu certo”, tenho dúvidas se “fiz o certo”.

Quando penso na minha história de vida, vejo que por muito tempo vivi numa bolha que, dentre inúmeras limitações, fazia-me crer que só havia uma única forma de viver, de existir e de ser feliz: a minha. Ela também me induzia a pensar, por exemplo, que Pessoas com deficiência eram coitadinhas e me ensinou a atribuir prestígio às Pessoas de acordo com suas respectivas capacidades cognitivas. Aliás, esta noção era bastante reforçada através de rankings organizados por ordem decrescente de notas, colados nas paredes da escola e da faculdade: quem verificava os resultados em pé era “CDF” e quem tinha que se agachar para saber quanto tirou na prova, era considerado “vagal”.

Para que não fique a impressão (errada) de ingratidão em relação à educação que meus Pais me deram, como se eu estivesse “cuspindo no prato em que comi”, explico: olhando para trás, pergunto-me apenas como seria se este prato tivesse também outras opções através das quais eu pudesse me nutrir. Nesta linha metafórica, algo como uma “alimentação socioeducacional mais equilibrada” durante meus anos de colégio. Sou extremamente grato à formação privilegiada que recebi e não reclamo – inclusive pois tive a chance de mudá-la depois de adulto, e não o fiz. Apenas faço o exercício de pensar como seria se eu tivesse sido exposto a experiências de vida mais plurais, conhecendo Pessoas diversas e contextos diferentes dos meus desde cedo. Portanto, o sentido aqui não é o da negação ou reclamação, mas sim o da reflexão e ampliação, como passei a fazer a partir do nascimento do meu 3º filho com síndrome de Down no início de 2018. A imersão no ecossistema da inclusão, o envolvimento com outras realidades e a construção de novos imaginários de cidadania que a chegada do Pedro me proporcionou, foi – ainda que apenas aos 38 anos – complementar a tudo o que vivi antes e que moldou boa parte do ser humano que sou hoje. Além do mais, ao me tornar ativista e empreendedor social, assumi o papel de promover reflexões que busquem transformar o olhar da sociedade em relação à diversidade humana – como tento fazer neste espaço que a Pais&Filhos me oferece. E vozes como as do Pedro e do Theo, independente de como ecoem, são fundamentais neste processo.

Voltando ao post mencionado no início e ao meu recente período sabático de estudos: Ricardo Semler, meu sócio na área de educação, conectou-me com a ideia das múltiplas inteligências – um conceito apresentado em 1983 por Howard Gardner, psicólogo e professor de Harvard – e que se aplica bem a este (con)texto. Segundo ele, a inteligência lógico-matemática (muito ligada à capacidade analítica e com vasta aplicação no mundo dos negócios) é apenas uma das múltiplas inteligências que todos os seres humanos possuem. As demais – igualmente importantes, porém bem menos exploradas pela maioria de nós – são:

  • Inteligência Linguística: diretamente relacionada à habilidade de aprender idiomas variados e à capacidade de usar a fala e a escrita para a comunicação interpessoal.
  • Inteligência Espacial: diz respeito à capacidade de compreensão, reconhecimento e manipulação de situações que estejam considerando a visão como fator determinante.
  • Inteligência Físico-Cinestésica (ou Corporal): relacionada à capacidade de utilizar os movimentos corporais para a resolução de algo.
  • Inteligência Intersocial: é a soma das inteligências interpessoal e intrapessoal. Está ligada ao autoconhecimento e ao entendimento das intenções e desejos das pessoas, com reflexos diretos na relação social do indivíduo em grupo.
  • Inteligência Musical: é a aptidão para compor, tocar ou estar inserido no universo musical.
  • Inteligência Natural: relacionada ao reconhecimento e classificação de uma espécie da natureza.
  • Inteligência Existencial: ligada à reflexão sobre assuntos que estão presentes na nossa vida.

A teoria de Gardner, portanto, desafiou a noção tradicional de que existe um único tipo de inteligência, às vezes conhecido como “g” de inteligência geral ou QI (quociente de inteligência), que se concentra apenas nas habilidades cognitivas e lógico-matemáticas. Vale a pena dar um Google para conhecer mais a respeito, encontrando seus livros, artigos e textos como este.

Tendo estudado o assunto, estou convencido de que limitar o potencial intelectual da espécie humana a apenas um tipo de inteligência é o equivalente a, no âmbito da diversidade, estabelecer um padrão único de existência, sem considerar todas as possibilidades. É como se D’us tivesse dado um carimbo para alguém dizer quem é “normal” e quem não é, por não se enquadrar em (pre)conceitos estabelecidos por esta lunática ideia. Foi exatamente o que a seguidora da Andrea Werner fez.

E de onde será que vem isto? A maioria de nós frequentou escolas tradicionais com foco apenas em conteúdo e não (também) no desenvolvimento de habilidades socioemocionais. Este modelo – que nasceu durante a revolução industrial do século XVIII e até hoje pouco evoluiu – parte do princípio da “padronização para a eficiência”, que serve bem para produtos, mas funciona muito mal quando aplicado a pessoas. Além de pouco inclusivo (já que cada um de nós é único, diferente entre si, e precisa que as individualidades sejam respeitadas sempre – em especial dentro da escola), ele limita demais o potencial de aprendizagem, uma vez que não leva em consideração os ensinamentos de Gardner, concentrando-se apenas em um tipo de inteligência e deixando muitas oportunidades de desenvolvimento para trás. Sua consequência mais danosa é fazer com que todos os alunos sejam vistos por meio de uma lente única, padronizada, sendo medidos pela mesma régua, com zero equidade e sem qualquer tipo de adequação às necessidades que cada um de nós possui. Resultado: ambientes escolares pouco diversos que sustentam a injusta ideia de que os “despadronizados” não servem, fomentando um capacitismo difícil de ser combatido – inclusive porque quem pode ajudar a mudá-lo não teve a oportunidade de desenvolver outras inteligências além daquela que originou estas estruturas discriminatórias. O famoso círculo vicioso.

Será que é isto que queremos para os nossos filhos? O Theo, o Pepo e os quase 18 milhões de brasileiros com alguma deficiência têm suas inúmeras capacidades e múltiplas inteligências muito bem desenvolvidas – assim como todos os demais. Querer limitá-las e medi-las em caráter competitivo ou comparativo é uma grande demonstração da falta delas. Tentar fazer isto usando a velha ideia de padronização, é pior ainda. Para mudar este cenário é preciso abrir a mente, deixar de pensar que o mundo se restringe ao que acontece apenas ao nosso redor e parar de imaginar que D’us nos escolheu como os julgadores da humanidade. Um bom começo é passar a conviver com Pessoas diferentes de nós. Eu me arrisco a dizer que quem o fizer, vai amar – e possivelmente achar que Garder foi modesto, já que a diversidade nos proporciona conhecer e desenvolver não apenas 9 ou 10, mas milhões de inteligências – sendo a principal delas o afeto.