Quando os axiomas conspiram a favor

Alguns ditados populares têm feito mais sentido neste meu começo de ano. Mas eles podem fazer sempre, para todos. Basta praticarmos o bem

A virada de ano costuma ser uma época de renovação e esperança na qual refletimos sobre o período que se encerra e estabelecemos planos para o que chega. Superstições, crenças e ditados populares fazem parte desta busca por boas vibrações e sentimentos positivos para um próximo ciclo mais próspero.

Fazer o bem faz bem e ensinar isso para as crianças é importante
Fazer o bem faz bem e ensinar isso para as crianças é importante (Foto: Getty Images)

Para mim, este processo todo começa com o “jantar da troca dos bilhetes”: um ritual que eu e a Marina, minha esposa, fazemos na última semana de dezembro desde que nos conhecemos em 2007. Cada um escreve num guardanapo uma lista de desejos para o ano que se inicia – sem que o outro leia – num jantar a 2 entre o Natal e o Réveillon, onde também lemos em voz alta as aspirações do ano anterior. Não existem regras, além de seguirmos nosso coração e nossa intuição – e cada um pode incluir quantos pedidos quiser, de qualquer natureza, que são mantidos em segredo por 365 dias. Também fazem parte da minha rotina neste período algumas divagações, tentativas de meditação, uma corridinha na tarde do dia 31-Dez, os pulos das 7 ondas no mar, a meia-noite junto da família vestindo peças de roupas brancas, a troca de centenas de mensagens com amigos e familiares – e por aí vai.

Numa delas, uma querida amiga escreveu que “quando fazemos o bem, o universo conspira a favor”. Sempre acreditei que fazer o bem é bom. Bom para quem recebe e melhor ainda para quem faz – já que, dizem, “a recompensa vem em dobro”. Por esta razão, já escutei inclusive que fazer o bem aos outros é um “egoísmo do bem’”. Que sejamos então “egoístas do bem”!

E é sobre isto que quero falar, contando duas histórias recentes que me levaram refletir o quanto estas frases e axiomas consagrados são ditos, escritos e postados por nós apenas por inércia ou força do hábito, versus o quanto fazemos realmente por acreditarmos em seus significados.

No último 1º de janeiro vi na TV que o resultado da Mega Sena da Virada foi divulgado. Lembrei que tinha feito alguns jogos pelo site da loteria por indicação do Tião, o barbeiro com quem corto meu cabelo desde 1989. Minha mãe me levava ao salão e passava instruções sobre como fazer a “tigelinha” – estilo que usei até a pré-adolescência. O papo na cadeira em frente ao espelho é sempre muito agradável e normalmente oscila entre futebol, política, família, economia e loteria – sendo este último, um tema que ele nunca deixa de abordar. O Tião é um apostador dedicado, disciplinado e otimista que joga religiosamente em todos os concursos há mais de 30 anos. Alguém que lê inúmeros livros sobre probabilidade e estatística, conversa com colegas para debater as melhores combinações e tem na memória as dezenas que são mais sorteadas. Frases como “o 41 é uma boa pedida para esta semana” e “o 10 me prejudicou desta vez, deveria ser o 11” são ditas frequentemente por este são-paulino roxo que, mesmo nunca tendo acertado a quina ou a mega, mantém a fé e a convicção de que seu dia vai chegar.

Até uns 15 anos atrás, eu não apostava na Mega Sena. Mas por inspiração – e insistência – do meu amigo barbeiro, passei a jogar na esporadicamente – isto é, sempre que o prêmio acumula por semanas consecutivas. Por falta de tempo (e quiçá crença), uso o modo “surpresinha” – aquele que a máquina escolhe os números para você. O Tião costuma dizer, num tom brincalhão que lhe é característico, que “é muito difícil ganhar, mas que se não comprarmos o bilhete, fica impossível” e que “devemos fazer a parte que nos cabe, esperando que D’us faça a dele”.

Naquela mesma noite, ao acessar o portal de resultados, constatei que 1 dos 15 jogos que fiz trazia a mensagem: “APOSTA PREMIADA”. Com o coração palpitante acordei a Marina e disse: “Não sei quanto, mas ganhamos na loteria!”. E… Voilá: acertei a Quina da Mega da Virada! Isto significa que, se eu tivesse jogado o 23 ao invés do 38, teria me juntado aos outros 2 sortudos que dividiram o prêmio principal de R$ 378 milhões. Mas tudo bem… Por ter acertado (apenas!) 5 dos 6 números, uni-me a outros 1711 participantes que ganharam R$ 51 mil cada. Parece mentira, né? Mas é real.

Semana passada, eu, o Lipe (6 anos) e a Nina (9 anos), meus filhos mais velhos, fomos pessoalmente contar a novidade ao Tião, agradecer pelo incentivo de tantos anos e entregar-lhe uma parte considerável do prêmio. Há algum tempo eu e a Má fazemos em casa um trabalho de conscientização e cultura de doação junto às crianças. Isto envolve o contato com novas e diferentes realidades, possibilitando que elas furem bolhas e construam novos imaginários de cidadania. Como consequência, esperamos que se tornem cidadãos (ainda) mais conscientes e conhecedores da sociedade plural e da realidade do mundo em que vivemos. Já visitamos uma favela, conhecemos projetos sociais, participamos de bazares beneficentes e estabelecemos uma rotina de doação de alimentos, brinquedos e roupas – além de outras boas práticas que surgem no grupo de discussão do Movimento Cultura de Doação, do qual faço parte. Na minha opinião, o desafio maior não é engajar a garotada a doar (eles curtem!), mas sim envolvê-los de modo a enxergarem este hábito como um processo vantajoso, que promove desenvolvimento e evolução para todos – não encarando-o apenas como caridade, favor ou esmola aos mais necessitados. Queremos, portanto, construir de maneira lúdica uma visão menos vertical (de cima para baixo) e mais horizontal (lado a lado), independente de em qual ponta da doação eles estejam, como exploro neste recente artigo da Folha de SP.

Precisamos mostrar para os nossos filhos que a felicidade compartilhada é muito mais curtida
Precisamos mostrar para os nossos filhos que a felicidade compartilhada é muito mais curtida (Foto: Shutterstock)

Os pequenos estavam muito curiosos para saber “por que o Papai ganhou na loteria”. Explicamos que, além de ter tido a iniciativa de apostar, “quando fazemos o bem, o universo conspira a favor”. Juntos lembramos de todas as doações e boas ações que fizemos em 2021 e dissemos que D’us nos recompensou – algo que, de fato, acreditamos ter acontecido. Reservamos uma outra parte do prêmio para novos “doamentos” – como diz o Lipe e eu não tenho coragem de corrigir – também com a participação deles, para que entendam cada vez mais a importância destes atos. O Tião me fez muito bem ao recomendar que eu jogasse na mega e a experiência de entrega de parte do prêmio ajudou meus filhos a compreenderem o conceito “ganha-ganha” promovido quando se faz o bem.

A 2ª história tem um começo diferente, mas é o típico exemplo de que “há males que vem para o bem”. Há alguns meses vínhamos recebemos ofensas no perfil de Instagram @PepoZylber, criado em 2018 para compartilhar a jornada de aprendizados que passamos a vivenciar após a descoberta da síndrome de Down do Pedro, nosso caçula de 3 anos. As mensagens discriminatórias partiram de uma mulher que chamou o Pepo, em diversas ocasiões, de “feioso”, “estranho”, “bem retardado” e “macaco”, sendo a injúria mais recente feita no último 2 de Janeiro. O artigo 88 da Lei Brasileira de Inclusão (Nº 13.146/2015) é bem claro ao tipificar como crime esta conduta: “Art. 88 Praticar, induzir ou incitar discriminação de pessoa em razão de sua deficiência”.

É difícil tentar explicar o que leva uma mãe – como ela se descreve – a cometer um ato tão abominável de forma consciente, intencional e reiterada, contra uma criança de 3 anos. É assustadora a coragem e a falta de pudor da criminosa. A troco de quê? Mais do que buscar entender a índole destas pessoas, é preciso combater todo tipo de preconceito contra qualquer ser humano, por meio de educação, informação, conscientização, políticas públicas e medidas mais enérgicas quando necessário. Se isto atinge quem tem mais condições de se defender, imaginem o que não acontece com a população mais vulnerável, incluindo através de formatos mais graves. Não podemos nos calar! E foi pensando nisto que resolvemos expor o caso nas redes sociais mostrando nossa indignação, solidarizando-nos e oferecendo ajuda a outras pessoas que já passaram por situações correlatas, de maneira a tentar diminuir a falta de respeito e caráter de alguns.

Sabíamos que a postagem geraria algum grau de repercussão, mas não podíamos prever o tamanho e a velocidade de sua propagação: em menos de 1 hora, recebemos contatos de pessoas, entidades, emissoras de TV, jornais e portais de notícias que queriam dar maior visibilidade ao caso. No dia seguinte contabilizávamos mais de 10 mil mensagens recebidas, com manifestações de apoio e com histórias semelhantes de discriminação dos mais variados tipos, contra múltiplos grupos: Pessoas com deficiência, negros, LGBTQIAP+, idosos, mulheres, judeus, pobres e imigrantes. Muitas delas relatavam abalos emocionais, medo de oferecer denúncias e sequelas por abusos que acontecem não apenas na internet, mas também em casa, nas escolas, nos clubes, no ambiente corporativo e nas ruas.

O triste episódio e sua repercussão deram início a discussões no Instituto Serendipidade que pretendem abrir novos canais para ajudar principalmente Pessoas com deficiência que sofrem discriminação. A ideia é, através de parcerias com outras entidades, dar voz e visibilidade aos casos e às Pessoas com deficiência, além de apoio jurídico, técnico, psicológico e emocional para crimes que vão de xingamentos em redes sociais, a agressões físicas, recusas de matrículas em escolas, até – mas não se limitando a – incidentes no mercado de trabalho e no transporte público. O fato das próprias vítimas atuarem, quando quiserem, como agentes de combate ao preconceito que elas mesmo sofrem, ajuda a diminuir o capacitismo e a mudar forma como são vistas: saem os coitadinhos e indefesos e entram os cidadãos, protagonistas das próprias histórias – como, na realidade, são.

Ninguém gosta de ser ofendido – e eu espero que isto não se repita. Mas vale reconhecer que o balanço final das reações geradas a partir deste episódio foi extremamente positivo – e não me refiro unicamente às matérias bem redigidas (como as do O Globo, Portal G1 e Pais&Filhos, apenas para citar algumas) e/ou bem produzidas (como as da Globo, Band e Record), mas sim às iniciativas coletivas que estão nascendo a partir de agora. Que os futuros casos sejam denunciados pelas vítimas – que desde já sabem que não estão sozinhas – e que os criminosos sejam punidos. Não ao preconceito!

Como diz o título deste artigo, parece que os ditados populares estão fazendo mais sentido pra mim neste começo de ano. “Há males que vem para o bem, especialmente para quem faz o bem. Porque quando fazemos o bem, o universo conspira a favor. Parece que a recompensa vem em dobro” – é como dizem por aí – e estou cada vez mais convencido de tudo isto.