Serendipidade: felizes descobertas feitas ao acaso

Como o diagnóstico da deficiência de um filho(a) faz o impossível ser apenas uma questão de ponto de vista

A descoberta da gravidez é um momento mágico para qualquer casal: acompanhar a gestação do bebê e presenciar seu nascimento é uma experiência única, mistura de sensações e emoções que tomam conta de nós desde o início desta jornada. Junto com elas, nascem muitas expectativas. Automática e involuntariamente começamos a sonhar e a projetar na criança que está por vir tudo aquilo que queríamos ter sido – ou ainda que somos e acreditamos nos fazer bem. Tenho lembranças gostosas desta fase dos meus três filhos.

Às vezes, a vida sai do roteiro que planejamos (Foto: Getty Images)

Mas… E se num dado momento deste processo descobrirmos que o bebê tem alguma deficiência? A escritora americana Emily Pearls Kingsley descreve bem esta situação na famosa fábula “Bem-vindo à Holanda”. Minha experiência pessoal e através do acompanhamento das mais de 150 famílias de crianças com deficiência atendidas pelo Projeto Laços (iniciativa de acolhimento parental do Instituto Serendipidade) indicam que os planos previstos parecem começar a ruir. É como se nossos desejos fossem por água abaixo e as possibilidades antes vislumbradas deixassem de existir.

O “momento da notícia” costuma ser difícil para qualquer um, seja pela escassez de informações acerca do mundo que envolve a condição diagnosticada, seja pela falta de oportunidades de convívio prévio com pessoas com as mesmas características. E esta situação pode ser ainda potencializada se o diagnóstico não for dado de maneira adequada.

Como dar a notícia que o bebê tem deficiência?

Nestas horas, acredito que um bom caminho é respeitar o tempo de cada família, para então, oportunamente acolhê-las: validar seus sentimentos e ajudá-las a ressignificar este momento. O nascimento de um filho(a) deve ser sempre motivo de alegria e de celebração da vida. Se por ventura ele “não chegar exatamente como imaginávamos”, a primeira coisa a se fazer é entender que não há culpados e que a existência humana é repleta de possibilidades. O mundo é diverso e cada um de nós é diferente entre si – e é exatamente isto que nos torna seres únicos e insubstituíveis.

Conversar com pais e mães que já passaram pela mesma situação costuma ajudar, especialmente para que enxerguemos muito além do que inicialmente pensemos não ser mais possível. E se ainda assim, algo parecer não ser, está tudo bem! Não há problemas! Afinal, o universo é feito de infinitas possibilidades e, às vezes, basta mudarmos o ângulo de visão para que o “impossível” aconteça de outras formas.

Taí um dos grandes ensinamentos que o Pedro, nosso caçula de 3 anos que tem síndrome de Down, nos proporciona desde que nasceu: aprender a respeitar e apreciar as individualidades alheias, incluindo nossas próprias vulnerabilidades, entendendo que a beleza do mundo reside no fato de que ninguém é igual a ninguém. Isto gera infinitas oportunidades de trocas e aprendizados não claramente enxergadas por nós até então. Eu e a Marina nos tornamos pais mais abertos, menos preocupados com o futuro dos nossos filhos e mais conscientes das vantagens de desfrutarmos o presente de modo mais intenso, valorizando as etapas do dia a dia e as pequenas conquistas de cada um deles.

Ter um filho com necessidades especificas nos fez diminuir as expectativas não apenas em relação a ele, mas também sobre a Nina e o Lipe, os irmãos. E não é por falta de sonhos ou de crenças em seus respectivos potenciais, mas porque percebemos que não desejamos nada mais do que simplesmente vê-los felizes, fazendo o que querem e podem dentro de suas possibilidades. Vendo isto acontecer cotidianamente, permitimo-nos “desencanar” um pouco das cobranças e das perspectivas futuras. Aproveitar bem o hoje é sinônimo de um amanhã mais fértil. Que baita libertação!

Sobre o momento da notícia do diagnóstico, sempre me pergunto se precisava ter sido sofrido. Sinceramente não sei. Por um lado, muito do que pensei na época, entendo hoje ser bobagem. Por outro, ter passado por tudo aquilo me proporciona – e até legitima – encarar hoje a situação de uma forma positiva. Vejo que todo este processo faz parte de um contexto maior de aprendizado. Mas Henri, quer dizer que para eu passar por uma experiência como esta eu preciso ter um filho com deficiência?

A resposta é “claro que não”! Permita-se conhecer novas realidades, coloque-nos no lugar dos outros, conviva com pessoas diferentes de você, envolva-se com ideias e pensamentos inovadores, frequente lugares diferentes dos usuais. Ampliar horizontes nestas direções costuma ser um bom caminho para experimentar um mundo mais plural, rico e divertido – e consequentemente com menos sofrimento e repleto de serendipidades. Depois me conta como foi?