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Dos poderes secretos empoeirados

Uma mulher sempre pode ter um talher guardado no bolso

(Foto: iStock)

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Dos poderes secretos empoeirados.

Homens caçavam.

Mulheres alimentavam a prole.

O ato de estar perto do fogo provendo o valor afetivo que nutre o alimento é do sagrado feminino.

Mulheres que aprenderam a cozinhar com suas mães, com suas avós.
Mulheres que aprenderam sozinhas a primeira papinha do bebê.
O primeiro jantar romântico do namorado.
A última lentilha da mãe que já não pode ir ao fogão.

O caldeirão de velhas
alquimias, o valor do fogo, o tempero da alegria ou da salgada lagrima.

Hoje, o esforço do terceiro turno, às vezes do quarto.

Um ato banal?!

Caçarolas surgem a mesa como um milagre!

Mas só uma mulher sabe o que chorou por uma cebola!
Ou, sorriu ao fatiar a carne,
Ou sentiu ao perceber o aroma do feijão ficar finalmente parecido com o de sua casa de origem.

Seja ela que prepare o alimento ou não, é ela que pensa na fome, no conforto, no consolo de sua prole.

A chama do velho caldeirão
existe.
E insiste.
Enquanto há amor por qualquer coração faminto.
Mesmo que este não saiba ouvir o silêncio que uma cozinha traz, ela não se importa.

Uma mulher sempre pode ter um talher guardado no bolso.

E tem 🙂

Ana Guedes
Psicologia Clínica e Hospitalar

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