Não fale na frente das crianças

Elas desde sempre sabem de tudo. Inclusive daquilo que nós acreditamos inapropriado

As crianças desde sempre sabem tudo (Foto: Getty Images)

>> Não fale na frente das crianças!
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>> Tudo não. Mas hoje, quase tudo sim.
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>> As crianças desde sempre sabem de tudo. Inclusive daquilo que nós acreditamos inapropriado.
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>> Apenas não falam conosco sobre isso.
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>> Ou você aí me lendo não lembra do tanto que sabia? Do tanto que via nas revistas escondidas do seu irmão mais velho?
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>> Ou de uma conversa interessante e aquele esforço pra escutar?
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>> Lembra.
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>> Hoje não precisamos nos esforçar para saber nada.
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>> Seu amigo não lhe avisa do novo problema da esquina pelo WhatsApp? Você não vê a foto do acidente no mesmo minuto no facebook ?
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>> Seu filho também.
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>> E pra ele aparece até os fantasmas em que você e eu não queremos pensar.
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>> Como o suicídio.
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>> Que ano passado era uma baleia azul e, este ano, uma boneca fria e feia dando vida às angústias de adultos e crianças na internet.
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>> Sim, a momo.
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>> A momo, como as crianças, sabe mais do que nós e aparece por tudo,
>> inclusive no Youtubekids, ensinando meninos e meninas de todas as idades a desafiarem seus maiores medos e suas próprias vidas.
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>> E mesmo no grupo de whatsapp!
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>> Pode?
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>> Pode. Ao contrário da cartilha, na vida tudo pode.
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>> Logo, a palavra conectada com a empatia e longe do certo e errado se faz mais do que necessária.
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>> O fato é que precisamos parar de mentir pra dizer a verdade.
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>> Crianças mentem, pois aprendem ou precisam.
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>> Adultos, porque acreditam que precisam.
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>> Podemos, sim, falar sobre qualquer assunto com nossos filhos.
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>> Desde que seja da altura que eles medem, que dobremos os joelhos pra aprender o vocabulário deles.
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>> Logo, que tenhamos tempo.
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>> Tempo para a verdade.
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>> E carinho com o tempo.
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>> Que passa.
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>> Não adianta encaminhar o vídeo sobre o alerta disso ou aquilo no grupo de família.
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>> É preciso encarar nossas momos, nossos medos, nossa pressa e perder tempo com a vida.
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>> Pois ela acaba sem aviso prévio, e sem ou com a momo.
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>> Nós precisamos parar para que eles parem.
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>> Descer pro parquinho para que desçam.
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>> Largar o celular para que larguem.
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>> E conversar para que conversem.
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>> Sim. Você pode falar sobre o que é suicídio com seu filho de seis anos até e como sabe, que ele compreende.
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>> Ou mesmo sobre sexo, sobre gêneros, sobre o que for necessário.
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>> O que não pode é não falar. Nem falar demais.
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>> Cada idade, uma demanda. Uma pergunta, uma resposta.
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>> Como saber? Como fazer?
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>> Estando junto.
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>> Presente no momento. Brincando.
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>> Realmente prestando atenção, dando carinho e colo às angústias e falando que também são suas. Mas que estamos aqui. Estamos juntos. Pra tudo.
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>> Mas primeiro, a gente tem que se encontrar e perguntar:
>> onde eu estava antes da momo chegar?
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>> E pro resto da vida saber que se encontrar é fundamental para poder encontrar o outro. Acolher, escutar, dar colo, mão.
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>> Mas antes de tudo, precisamos de nós. Os pais, tios, avós, devem saber:
>> onde estamos?
>>
>>
>> Ana Guedes
>> Psicologia Clínica e Hospitalar

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