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Não!

É difícil dizer "não" para os filhos. Mas de vez em quando, o "sim" precisa aparecer

dizer não para os filhos

A terrível arte de conseguir dizer não.

Sim terrível.

Quem, me diga quem, com 5, 15, 25, 50 ou 95 goste de ouvir não.

Gostar de dizer até já ví, e com certos requintes muitas vezes desnecessários.

Mas receber um não nunca é desejado, embora muitas vezes necessário.

Eu particularmente não gosto de dizer não, combinei comigo há algum tempo de dizer muito mais sim, para mim, e para vida do que nãos. O sim me protege dos nãos. Mas muitas vezes os nãos me protegem também.

E assim tenho tentado aprender o momento efetivo, afetivo e correto de dizer o não aqui em casa.

Tarefa suada.

Ando pensando em nãos necessários, nãos que protegem.

Mas ando pensando também na falta de necessidade dos nãos que, muitas vezes, desapercebidamente, e na maior boa intenção, inibem, moralizam, e enganosamente educam para a vida.

A vida não se evita com nãos. Se evita, a dor  dos nãos da vida com sims.

Descobri que a vida se encarregou de dar-me a maioria de meus nãos sozinha, e que pude tolerá-los por muitos sims que dentro de casa cabiam.

Dentro de casa, dizia minha mãe, carinhosamente, é o único lugar onde podes dizer e agir de desta forma, na rua te repreenderiam. Na rua não podes falar assim, em casa sim. Mas tens que saber disso.

Era a forma de em dizer não, dizendo sim, e me preparando pra enfrentar a vida.

Difícil de escrever sobre não, tanto como ouvir, falar, e aceitar.

Mas necessário, se usado e escrito com moderação e afeto.

Vou tentar.

Acredito na necessidade do limite, acredito na voz carinhosa que avisa do perigo, que explica sinteticamente o porque do não.

A consequência do sim.

Aqui em casa, passei a me perguntar dos malefícios de deixar o Pedro dormir comigo ás vezes, e se realmente ele iria gostar de fazer isto aos trinta anos, ou se seria sua única chance a infância.

Se uma mamadeira de manhã no conforto do alcochoado seguiria persistente na volta dos bailes e festas de quinze anos, ou…

Seria sua única chance a infância.

Se permitir que não fosse um dia na escola pois desabava o mundo lá fora e nem eu queria sair de casa iria realmente repercutir desfavoravelmente em sua carreira ou lhe daria o que sabiamente chamou o grande pediatra e psicanalista Donald Winnicott de “holding”.

Traduzindo, segurança para o amanhã, fortalecimento através do afeto.

Afeto antes do não, não pelo afeto.

Muito Star Wars? Sim. Notei a influência das lutinhas.

Não para o iPad por tempo indeterminado.

Voltei atrás.

Sim para o iPad sem lutinhas com tempo determinado, e mais tempo determinada em desenhar com ele.

Fomos trocando, tentando, acertando e errando. Receita?

Desconheço.

Sei que ele acredita em mim quando explico os riscos de não escovar os dentes, pois combinei de não mentirmos nada um para o outro.

Modos? Nem eu tenho sempre. Estou escrevendo com o pé na cadeira e na penumbra. Mal para a postura? Para os olhos?

Cresci demais. Esqueci.

Sei que na casa do amiguinho ele se comporta melhor do que em casa.

Afinal é em casa que ele pode se descompromissar um pouco. Abrir o zíper e tirar o tênis.

A única coisa que comecei a pensar foi que;

A infância é a única chance de ser criança.

E eu tenho que saber que tenho saudades da minha, estou com o pé sujo na cadeira do escritório  e um pouco de ciúmes da dele.

Sim.

Ao menos pra dizer um pouco menos não. Para nós dois.

Antes que a criança que fomos, como bem disse o poeta,

Chore na estrada.

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