Flexibilidade mental e a dificuldade com o novo

As crianças autistas tendem a gostar de repetir padrões e comportamentos, mas alguns estímulos que façam elas saírem da zona de conforto são necessários

Um dos critérios diagnósticos do autismo são os padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. O desenvolvimento atípico do cérebro dessas crianças pode trazer dificuldades com a Flexibilidade Cognitiva, que é uma função executiva muito importante para o desenvolvimento infantil.

Apesar das crianças autistas gostarem de comportamentos repetitivos, é necessário oferecer novos estímulos
Apesar das crianças autistas gostarem de comportamentos repetitivos, é necessário oferecer novos estímulos (Foto: iStock)

Por essa resistência natural ao novo e diferente, esses pequenos tendem a gostar muito de:

  • Rotinas seguidas à risca;
  • Falar dos mesmos temas
  • Organização em todos os ambientes – fechar gavetas, por exemplo.
  • Enfileirar e empilhar objetos;
  • Brincar sempre do mesmo jeito.

Isso traz prejuízos ao desenvolvimento da criança porque dificulta que ela adquira alguns comportamentos que são pré-requisitos para outros e também que esteja mais vulnerável a possíveis desregulações. Quando tentamos ensinar algo novo para elas, por exemplo, elas podem apresentar resistência e é comum tentarem voltar para a repetição das suas ideias originais.

Porém, quando fazemos apenas aquilo que já conhecemos e estamos acostumados, não aprendemos novas habilidades. Ampliar repertório comportamental, aprender novas habilidades de comunicação e de interação social estão diretamente relacionados à aceitação das ideias de outras pessoas.

No caso de crianças pequenas, podemos perceber claramente essa dificuldade quando o colega tenta brincar junto, mexer em seus brinquedos ou fazer variações na maneira de usar objetos e materiais, mas a criança autista tenta impedir. Pode entrar em sofrimento e desregulação.

Imagine um músico que toque apenas 1 dos 7 acordes de seu instrumento. Ele estará restrito apenas às canções com aquela nota e seu repertório e suas possibilidades de se desenvolver cada vez mais serão muito menores. Trabalhar a flexibilidade mental nas crianças é importante para:

  • Compreender a comunicação e interações sociais;
  • Reduzir possíveis dificuldades na vida escolar;
  • Aprender a conviver com os imprevistos do dia a dia;
  • Evitar crises e desregulações quando algo sai do esperado.

Bom, e como isso se dá na nossa prática como terapeutas? Precisamos aprender as estratégias e abordagens que vão nos ajudar a tornar esse pequeno mais ‘maleável’, disposto a tentar novas atividades que saem do que está acostumado.

E, uma vez que a dificuldade com flexibilidade mental é uma característica fortemente presente no autismo, é essencial compreender os limites entre estimular um novo aprendizado e frustrar nosso paciente a ponto que ele se desregule.

A estratégia principal é fazer um pouco do que a criança quer, depois pedir algo novo e voltar a fazer o que ela quer. Essa técnica entra como uma ferramenta que nos norteia entre sair daquilo que o pequeno já conhece e ensinar algo novo, de forma leve e divertida, sem causar uma crise.

As crianças autistas, principalmente nos primeiros anos de vida, tem uma alta capacidade de aprender, mas precisam trabalhar sua rigidez mental para descobrir coisas novas que possibilitem um desenvolvimento feliz, saudável e com mais independência.