Volta às aulas: as crianças autistas estão preparadas para o retorno?

Nós, pais e também os profissionais da educação, temos que estar ainda mais alertas e pacientes, para apoiar as necessidades que certamente surgirão das crianças que precisam de apoio em situações de mudança

Um ano se passou desde que aquilo que pensamos que seriam apenas alguns dias, se tornou nossa rotina de quarentena. Durante todo esse tempo, nossas crianças ficaram em casa, tentando realizar algumas atividades escolares por vídeo.

Todos se esforçaram muito para que isso pudesse acontecer: pais precisaram acompanhar seus filhos nas aulas online, professores precisaram adaptar suas aulas e conteúdos passados, e os pequenos precisaram conter suas necessidades de brincar com seus amigos e suportar ficar o dia todo dentro do mesmo ambiente. Sem dúvida, uma mudança repentina para a qual ninguém estava preparado.

E, agora, as escolas estão reabrindo e uma nova necessidade de adaptação surgindo. Para as crianças com desenvolvimento típico, já é um grande desafio. E, para aqueles com desenvolvimento atípico, que muitas vezes têm maior necessidade de seguir rotinas e previsibilidade, como as crianças com autismo, a situação pode alcançar até níveis de sofrimento.

(Foto: iStock)

Por melhor que tenha sido a possibilidade de realizar as aulas em casa, nem tudo pode ser aprendido virtualmente. As demandas do ensino presencial e do online são diferentes e o nível de exigência da atenção das crianças também.

Além de um ano em que não precisaram realizar uma série de demandas exigidas no ambiente escolar, agora estão voltando para uma série posterior, na qual o nível de exigência é maior e alguns pré-requisitos, que deveriam ter sido aprendidos no ano anterior, são esperados.

E também precisaremos ensinar novamente às crianças os hábitos da sala de aula, elas vão ter que reaprender a passarem horas sentadas, com foco nos professores e com tarefas a realizar. Então, nesse momento tão complexo e delicado, devemos ter bastante atenção e acolhimento com os nossos pequenos.

A volta ao convívio social e às atividades em grupo são importantes e necessárias! Porém, precisamos cuidar das adaptações. Por mais que as crianças estivessem sentindo falta e saudades dos colegas e da escola, não será fácil cumprir as exigências de um ano a mais de maturidade, sem ter tido treino e exposição a essas experiências por tanto tempo.

Nós, pais e também os profissionais da educação, temos que estar ainda mais alertas e pacientes, para apoiar as necessidades que certamente surgirão das crianças que precisam de apoio em situações de mudança.

(Foto: Shutterstock)

Para os pequenos com autismo muitas dificuldades podem aparecer na adaptação ao novo ambiente. Lugares cheios, com outras pessoas, com barulhos e excessos de estímulos podem desorganizar a criança e causar comportamentos considerados inadequados.

E é justamente nesses momentos em que as birras e crises sensoriais costumam aparecer com mais frequência e intensidade. Por isso, seguem algumas dicas para adaptação do ambiente, caso as crianças sintam sobrecargas:

  • Ter um “cantinho da calma”, mais silencioso e com poucos estímulos. A criança pode buscar sozinha este local ou ser direcionada pelo mediador quando perceber os primeiros sinais de irritação;
  • Quadro de rotina com imagens explicativas da sequência de atividades que precisam realizar, tais como: hora da história, hora de brincar com os números da matemática, lanche e hora de ir embora. Assim, o educador poderá levar a criança ao quadro e explicar o que é esperado para aquele e para os próximos momentos;
  • Objetos de preferência da criança para usar como prêmios e incentivos após comportamentos adequados e metas atingidas. Os pequenos tinham livre acesso a eles em casa e a transição pode ser feita devagar.
  • A orientação dos professores, bem como um acompanhante especializado no transtorno, pode ajudar muito! Ainda teremos vários desafios na volta às aulas, mas estamos juntos nessa e, com tempo e paciência, as crianças vão se acostumando de novo às atividades como eram antes desse turbilhão da pandemia.