A magia de ver e sentir o ano dividido em estações

Aqui dá mesmo para contar os anos pelo número de primaveras. Dessa vez nem vimos ela passar, mas o verão já bate à porta. E o calor promete!

Contar a idade pelo número de estações no Brasil chega a ser engraçado (Foto: Getty Images)

Em uma das minhas caminhadas pelas ruas de Londres, me peguei pensando: quanto tempo seria o ideal para se viver fora do Brasil? Quantos anos seriam necessários para aproveitar a experiência e levar de volta uma boa bagagem de vida, de cultura, de inglês, de viagens? Estamos aqui há pouco mais de dois anos e vivemos tudo tão intensamente, que mais parecem dez. Por outro lado, só vi a cidade florir duas míseras vezes! Aaah, não daria para viver a primavera em Londres só duas ou três vezes. E foi aí que me bateu o real sentido da contagem de anos por primavera. Já pensou nisso?

Esta seria a nossa terceira primavera aqui, mas este ano o florescer inglês foi diferente. Passou sem cor, quase sem prova de que realmente existiu. As árvores floriram e esverdearam enquanto estávamos em casa. Quem mora aqui sabe que, quando chega a primavera, é dada a largada para a temporada de fotos incríveis pela cidade em busca da árvore ou casa perfeita – todas floridas.

Tudo começa com as cerejeiras, passa pelos parques com mil e uma cores e acaba com as wisterias, uma flor lilás em cacho que mais parece um campo de lavanda de cabeça para baixo, de tão linda. Essa busca frenética aqui tem até hashtag própria: wisteria hysteria (histeria pela wisteria, em português). Ano passado eu fui uma dessas loucas e fotografei e postei até as flores caírem. Que delícia que foi.

Essa é uma das maravilhas de morar no hemisfério norte. Vivemos o ano em quatro etapas e cada uma tem a sua própria versão da mesma cidade. Cada uma com seu visual, cor e temperatura guia o nosso astral e as relações entre as pessoas por aqui. Se basta o sol sair para vermos os ingleses (e nós) sorrindo, a chegada do verão traz quase a euforia se comparado à melancolia do inverno. Parece mágica ver da mesma janela um cenário completamente diferente a cada nascer do sol.

Falando nele, o solstício de verão já tem data marcada. Este ano será dia 20 de Junho. Lembra? É  quando sol incide mais tempo sobre o pedaço de terra por aqui e marca o início do verão. Essa é uma estação que me deixa realmente dividida. É motivo de felicidade pelos programas ao ar livre que se iniciam, mas também motivo de desespero, pelo menos da minha parte.

Perdi a conta das noites em claro que já passei aqui por conta do calor desesperador da madrugada. Todo ano é o mesmo drama. E o mesmo dilema: comprar ou não comprar um ar-condicionado portátil para aturar os 10 dias de calor insuportável que fazem por ano. Essa época vai chegando e já começo a sofrer, confesso. A dúvida nem é somente pelo preço salgadinho, mas pensa no pepino que seria depois ficar com esse trambolho pela casa? Aqui a escassez de armário é real e a gente aprende na marra a ter somente o que precisa.

Agora, quantos outonos eu gostaria de viver aqui? Gente, mil né! A paleta de cores mais linda do universo para mim é a do outono. Flor nenhuma ganha das árvores em tons de bege nem da folha caída e seca no chão. É quando eu mais amo sair para fotografar. Os ensaios fotográficos ficam mais lindos e a agenda da fotógrafa aqui, mais cheia.

Contar a idade pelo número de estações no Brasil chega a ser engraçado, agora pensando. É uma expressão linda, mas no Brasil a gente mal percebe a diferença entre as estações, a não ser quando às vezes frio e calor trocam de lugar. Mas mãe, calma! Não se preocupe. Um dia voltaremos. Só não sei quando. Só espero não perder mais nenhuma troca da guarda… Ops, das folhagens.