As dores e as delícias de morar em outro país

Eu diria que é um doce amargo em que a gente faz careta, mas adora e repete

Não dá para estar nos dois lugares ao mesmo tempo (Foto: Getty Images)

De vez em quando minha filha pede para voltar para o Brasil. Estamos aqui há mais de dois anos e esses momentos ainda acontecem mais do que eu gostaria. Eu sempre a abraço, digo que entendo, acolho o chorinho e, às vezes, choro junto. Essa semana ela veio com o mesmo papo. Dessa vez me arrisquei em um novo caminho: “Mas filha, se a gente volta, imagina a saudade que você vai ter dos amigos daqui, da casa, de ir à pé para a escola, dos parques, do Natal com friozinho e patinação no parque?”. E ela, do alto dos seus nove anos e sem pensar, foi lá e jogou em mim tudo o que levei anos para aprender: “Tá vendo, se a gente não tivesse vindo, não teria esse problema!”.

Depois que nos aventuramos longe da nossa cidade natal, é como se criássemos um vácuo, um espaço que nunca mais será totalmente preenchido. Percebemos que nenhum lugar será completo. Nunca mais.

A nossa cidade de origem nunca terá as maravilhas que descobrimos e que amamos no novo lugar, assim como o novo nunca será onde estão nossas raízes, família, amigos de infância ou até mesmo a casa da avó, mesmo que seja só nas nossas lembranças.

A brincadeira do “aqui é bom, mas é ruim. Lá é ruim, mas é bom”, ganha espaço nas conversas entre amigos. Rimos da piada enquanto damos uma choradinha por dentro e aprendemos a lidar com esse gostinho “bittersweet“, como se diz em inglês. É um doce amargo em que a gente faz careta, mas adora e repete. Não dá para estar nos dois lugares ao mesmo tempo, não é mesmo? E abrir mão de um dos dois (ou três, ou quatro) gera uma insatisfação (zinha) eterna dentro de nós. Quase um “problema”, como disse minha mini sábia, não fossem tantos ganhos que descobrimos na nova jornada longe de casa.

E cada vez que temos a sorte de conseguirmos visitar o Brasil, repetimos o exercício de nos imaginarmos em um lugar e depois no outro para testarmos as emoções, mesmo que no campo das ideias. Onde nos sentimos melhor? Onde faz mais sentido estar hoje? Onde nos sentimos mais honestas com nossos valores, objetivos e estilo de vida que gostaríamos de oferecer à nossa família? Sair do Brasil é sempre uma decisão difícil. Mas sempre sabemos a resposta do nosso coração.

Escrevo esse texto hoje para todos que pensam em sair do Brasil. Recebo muitas dúvidas a respeito deste assunto e acho importante compartilhar os dois lados. Eles existem. E é uma escolha diária, assim como ser feliz. A leveza precisa brotar de dentro da gente para amenizar o caos que encontra ao nosso redor. E que caos!

Mandem sugestões e perguntas! Será uma delícia trocar ideias com vocês.