Mudando de país: o mais importante já vai com você

As mudanças não são fáceis, mas são necessárias para alcançar nossos sonhos. O mais importante, você já leva com você: coragem e vontade

Leve coragem e vontade de seguir seus sonhos (Foto: Getty Images)

Recebo muitas perguntas sobre o quê levar quando uma família muda de país. Hoje, olhando para trás, vejo que essa foi a parte fácil. Mas quando eu estava no olho do furacão, parecia que seria o fim do mundo. Talvez fosse mesmo o fim do mundo como ele era para mim e a minha família. 

Fiz as malas ao longo de muitas semanas. Tudo pensando em chegar em Londres e ter como arrumar minimamente a casa, sem precisar correr para lojas. Foram duas malas de roupas cada um, uma mala com coisas de casa e uma com brinquedos

Na mala de casa tinha um jogo de lençol e toalha para cada, os bichos que as crianças gostavam de ter na cama, um jogo americano para nossas primeiras refeições, alguns porta-retratos para dar o nosso toque pessoal à nova casa e algumas coisas meio loucas, como o espremedor de batatas que tinha acabado de comprar (não me julgue), minha caixa de coleção de colheres (pesadíssimas) que compro em todas as nossas viagens, e minhas colheres numeradas para o café, afinal o inglês também não é bom e pelo menos um toque brasileiro poderia ajudar. 

Foi duro fazer a seleção do que levar, vender, doar ou guardar. A hora da mudança é aquela em que revisitamos capítulos passados da nossa história. Em meio à loucura de sentimentos e a difícil despedida de quem ficava, foi quase tortura aquele ritual de rever fotos, bilhetes e tranqueiras guardadas. Só não me acabava de chorar o tempo todo, porque precisava segurar as pontas pelas crianças. 

Achava que teria um treco, especialmente depois que meu marido viajou na nossa frente para procurar nosso novo bairro, nossa nova casa. Fiquei sozinha com as crianças e a responsabilidade de fazer a mudança, fechar e entregar o apartamento, fechar malas, caixas, finalizar a venda do carro e o pior: ajudar os pequenos a passar pelas despedidas. Precisava estar forte para dar colo, mas não sabia quem estava precisando mais, eu ou eles. 

A cada passo que dávamos, tudo se tornava mais real e a minha ansiedade foi parar na lua. Parecia que brotavam coisas dos armários e minha vontade era jogar tudo pela janela. Doei, doei e doei e ainda sobrou muito. 

O que me consolava e me fazia continuar eram as ligações por “facetime” e o rosto propriamente dito do Diogo, que recebia minhas angústias com um sorriso estampado de tanta felicidade a cada conquista. Ele dizia: “Fica calma e doa tudo se precisar. São só coisas. Não se preocupe com nada e logo vocês estarão aqui”. Era difícil conseguir me imaginar lá, no meio da neve que caía milagrosamente no mês de março, quando no Brasil fazia tanto calor, dentro e fora de mim. 

Foi o caminhão da mudança saindo para um lado a caminho do depósito, e nós com as malas tão planejadas a caminho do aeroporto para o outro. Nunca senti tanta taquicardia. Estava a caminho do lugar onde aprendi a expressão “butterflies in my tummy” e nunca havia sentido tantas borboletas voando no meu estômago, como é a tradução da expressão em português. Voltar para o lugar onde passei parte da minha infância com a minha própria família foi uma emoção indescritível. 

Éramos nós três e dez malas a caminho do nosso próximo destino – aquele que nós mesmos escolhemos. Que bênção. O que levei de mais importante? Coragem. E os travesseiros, que vieram na mão para já fazermos uso no avião. Eu, Thomas com três anos e Duda com seis. Era como uma tartaruga levando o meu mundo inteiro comigo para o nosso próximo mundo. A verdade é que prontos ou não, a mudança acontece. E nada melhor que poder escolher qual direção tomar. Tenha coragem. Siga mesmo com medo, afinal não há melhor direção do que a bússola da realização dos nossos sonhos.