O inglês que me perdoe, mas o português é a nossa língua do amor

Estava desesperada para que eles aprendessem a língua local, mas o português sempre será o nosso refúgio,
nossa língua secreta e o “break” mental que eles precisam quando estamos em família

(Foto: Getty Images)

Quando encaramos uma mudança de país com mala, cuia e filhos a tiracolo, já temos uma ideia dos desafios que vamos enfrentar. Mas quando a língua local é uma das barreiras, prepare-se para emoções fortes. Maio é o mês internacional do Português como Língua de Herança. E o que significa isso? Para quem nunca morou fora do Brasil, provavelmente significa o óbvio. Mas para quem está nesse momento na missão de construir um lar em terras distantes, o POHL, como chamam os íntimos, significa o retorno para casa, o refúgio. Significam as férias na casa dos avós, as brincadeiras com os primos brasileiros. Significa entender nossa cultura e aceitar nosso jeito de fazer as coisas, de viver a vida e não permitir que “gringo” algum fale mal do nosso Brasil – mesmo que nós mesmos saibamos enumerar dezenas de motivos para termos deixado a nossa pátria para trás.

Quando eu cheguei em Londres, Duda tinha 6 anos e Thomas, 3. Eles nunca reclamaram ou renegaram o inglês, mas meu coração apertava cada vez que os deixava ou buscava na escola. Via neles a alegria, o medo e a tristeza que habitavam aquelas mini serzinhos especiais. Eles enfrentavam um dia todo sem entender praticamente nada que era dito, mas se entregavam mesmo assim àquela experiência. Fizeram amigos na mímica, na adivinhação.

Confesso que eu menti. Disse para eles que Netflix aqui na Inglaterra só funcionava em inglês. Fiquei desesperada para que eles aprendessem a língua inglesa. Me esforcei, me aproximei de amigos ingleses. Fiz o que julgava caber à minha parte, tentando que eles não sofressem, mas que estivessem expostos ao máximo à língua local. Mesmo assim, SEMPRE falamos com eles em português entre nós. O português era e sempre será o nosso refúgio, nossa língua secreta e o “break” mental que eles precisavam quando estávamos entre nós, especialmente durante a nossa adaptação em Londres.

E agora, quando o “porque” virou “porcausaque”, é chegada a hora de inverter a lógica. De explicar que descobri como botar o português no Netflix. Mas só em alguns desenhos (risos). De até começar a pensar em matriculá-los nas escolas de língua portuguesa que existem por aqui, como o BREACC, Clube dos Brasileirinhos, Curumim, entre outras, e que têm como missão ensinar a nossa língua materna e cultura.

Manter o português vivo em casa, especialmente quando os anos vão se empilhando, é um desafio. Já ouvi muitos relatos de pais que falam em português com os filhos, mas são respondidos em inglês ou na língua local. E olha, especialistas sempre aconselham a não desistir e continuar o diálogo mesmo que em duas línguas. Quando um dos pais é estrangeiro, então, continuar usando o português em casa é uma batalha. Uma batalha tão intensa quanto é a intensidade da vontade de manter o português vivo. Não desista.

Aqui em casa não somos de Carnaval nem festa junina, mas chega a hora em que percebemos que sentimos falta dos nossos rituais. Do Dia das Crianças. Não há uma explicação muito bonita que me venha à mente. Faz parte de quem somos, dos nossos antepassados, e se é assim, precisamos que assim continue.

Sempre vi o português como uma língua difícil, porém linda, rica, ritmada e com bossa própria. É fácil fazer poesia em português. Uma língua romântica, cheia de mistérios e a única onde a saudade não tem tradução. Quanta ironia. A gente até ama o som do inglês e entende a importância de aprender uma segunda língua. O inglês é fundamental para os negócios, mas a gente ama mesmo é em português.

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