Os “novos melhores amigos” do outro lado do Oceano

As mudanças não são fáceis e é necessário criar uma nova rede de apoio. Mas acima de tudo, é o momento de se abrir para conhecer o mundo e você mesma

É importante formar a sua vila (Foto: Shutterstock)

Se você pensa em se mudar de país um dia com a sua família, posso apostar que uma das suas maiores preocupações é se os seus filhos vão se adaptar, gostar da escola e conseguir fazer novos melhores amigos. Lembro bem do dia em que conhecemos a escola da Duda e fomos apresentados à sua primeira melhor amiga aqui. A professora nos levou para um tour por salas e pátios e eis que surge uma brasileira com jeito de alemã e carinha de anjo, que chegou como uma esperança de dias mais leves e em tecla sap, em português. Grudaram.  

Uma das gratas surpresas da vida por aqui foi a quantidade de pessoas queridas com as quais me cerquei. E nem me refiro às crianças. Ganhei amigos que sei que vou levar para a vida. Em todo nosso processo de planejar a mudança, em nenhum momento pensamos nesse tema “novos amigos” para nós, adultos. 

Saímos de São Paulo, onde conhecemos pessoas incríveis, mas onde as amizades buscavam um vácuo no espaço do tempo para sobreviver. Quando muito, ele (o tempo para os amigos) brotava como uma margarida por entre o caminho de pedras, só para enfeitar a semana e colorir o cinza daquele pedregulho. Quanta escassez.

Não que aqui em Londres a gente não corra também. Nossa, se corremos. A vida aqui acumula mais papéis e é preciso estar atento para não nos perdermos. Não perdermos o foco no que é realmente importante. 

Mas acontece um fenômeno muito interessante quando você começa a vida em um novo país: você se abre para o mundo. Você se abre para as pessoas e abre espaço de tempo disponível e que você nem sabia que era possível ter. O tempo ganha uma nova dimensão. Essa parte não foi só um ganho na nossa vida. Foi um presente! Hoje sabemos que o tempo está guardado e se parece que não temos acesso a ele, entendemos o caminho para abrir espaço para ele entrar.

O fato de não termos família e nem amigos de longa data por aqui nos tira da zona de conforto. Acabamos buscando logo por candidatos a novos velhos amigos. Criamos rapidamente nosso círculo de amigos íntimos e que serão nosso grupo de apoio, de rede, nossa vila. Aqui tem um ditado que diz: “É preciso uma vila inteira para criar um filho”. E quando nos distanciamos do conforto da rede familiar e amigos que acumulamos naturalmente ao longo da vida, percebemos que precisamos escolher bem onde vamos nos instalar e quem vamos escolher para compor a nossa nova vila. 

O planejamento da mudança é solitário. A chegada é de solitude. E é mesmo para ser. Mesmo que a dois, a três… este é um caminho que precisa ser feito de dentro para fora. Do seu jeito. No seu tempo. Com você e para você. Mesmo que seja também pela sua família. 

Mas olha, depois de se instalar, basta escolher uma pessoa que te sorria com os olhos e de coração quente, que ela te levará a outros como ela. Foi assim comigo e será assim com você. O curso deste rio, que não é o de Janeiro, é natural. Deixe fluir. Vá de coração aberto para a nova fase da vida que te espera. Vai dar tudo certo!