Um passo de cada vez para enfrentar a volta às aulas

Tudo é novo e esse momento exige readaptação. Por isso, não se cobre ou culpe. O importante é focar no agora e garantir o seu bem-estar

Na véspera do retorno às aulas, meu filho veio me abraçar e disse: “Mãe, o Maleek não vai para a escola, porque está com medo. Eu também tô com medo”, e a minha camisa já suja de papinha do bebê, ganhou lágrimas salgadinhas. “Filho, eu entendo o seu medo. Mas se não fosse seguro, eu não deixaria você ir para a escola”. Os meses de caos e incerteza em casa com três filhos, marido, rotina escolar, lazer, trabalho e amor, tudo misturado, estava com os dias contados e eu me sentia muito dividida entre o medo e o alívio.

(Foto: Getty Images)

Só o Thomas, meu filho de cinco anos, voltou às aulas aqui em casa. A turma dele foi dividida em três bolhas (ou grupos) e o Maleek, um dos melhores amigos dele, não aparecia em nenhuma. Thomas percebeu. Depois de três meses em casa, sem contato com os amigos ou ambiente escolar, ouvindo nossas conversas e atento ao que acontecia na rua, ele entendia muito bem o que estava acontecendo lá fora.
Falamos tanto em bolhas. Em sair da bolha para ver e sentir o mundo real. E foi justo ela, a bolha, que nos tirou da quarentena aqui na Inglaterra. Logo aqui na terra onde nos sentimos aliviados e livres para andarmos sem medo pela rua, para convivermos mais de perto com diferenças, para vermos o mundo de forma diferente. Mas tivemos que nos “embolhar” novamente.
O lockdown aqui já estava mais leve quando o governo anunciou o retorno às aulas. Toda quinta-feira o Primeiro Ministro fazia um grande anúncio. Um dos mais aguardados foi esse: o do retorno das escolas. Não porquê estávamos desesperados em casa, arrancando os cabelos, apenas, mas também porque era um sinal de que havia luz no fim dessa escuridão que foi a quarentena.
Foi um alvoroço nos grupos de WhatsApp. Só voltaram os primeiros dois anos da escola primária e o último ano, por conta de provas importantes para o novo ciclo escolar. Mas cada escola adotou uma data diferente de retorno e esquema.
Uma coisa muito linda que a nossa escola fez e que foi fundamental para preparar as crianças para a nova realidade, dessa vez na escola, foi um vídeo. As professoras gravaram o passo a passo de como seria o novo procedimento de entrada na escola e como seria a nova rotina, no novo grupo, com espaço delimitado e almoço dentro da sala para os grupos não se encontrarem nem usarem um mesmo espaço.
Foi um verdadeiro jogo de encaixe. A entrada de cada bolha foi em horários diferentes e a entrada dos alunos foi distribuída por três portões diferentes. Pias foram instaladas do lado de fora da escola para que as crianças pudessem lavar as mãos antes mesmo de entrarem. Círculos com dois metros de distância foram pintados no chão para auxiliar as crianças na hora da entrada e saída também.
O retorno às aulas se aproxima no Brasil e aqui na Inglaterra estamos apenas começando as férias. Eu sou você amanhã. E é mesmo muito difícil esse primeiro passo. Liberar o filho novamente para o mundo dói e preocupa. Dá, sim, vontade de engolir eles de volta e protegê-los de tudo. Mas um mantra que tenho usado muito é “um dia de cada vez”.
À tarde, eu e a Duda, minha filha de 9 anos, fomos buscar o Thomas e o sorrisão largo dele no portão da escola. Que menino feliz. Que alívio o meu. Ele gostou de voltar e quis voltar no dia seguinte. E seguimos ainda hoje avaliando diariamente os nossos passos, as nossas decisões. Sem grandes planos para o futuro distante, mas com planos, sim, para a semana que estamos vivendo agora.