A pandemia e o imprevisível

Nesse novo mundo presente, faz parte lidar com as incertezas

Antes de 2020 vivíamos na ilusão de um mundo razoavelmente ordenado, previsível. Apesar das inevitáveis contingências, acidentes, acontecimentos não planejados, o futuro próximo parecia delineado e possível.

Ainda restam muitas incertezas em relação ao presente e futuro, com a nova variante da Covid-19
Ainda restam muitas incertezas em relação ao presente e futuro, com a nova variante da Covid-19 (Foto: Getty Images)

A pandemia do Covid-19 afetou os vínculos e as relações afetivas, nos tirou do conforto da(s) certezas para o desassossego da(s) incerteza(s), com uma violência que não conhecíamos. Como será o amanhã? Não sabemos nada. A incerteza se tornou parte do nosso dia a dia. A imprevisibilidade parece ser a única certeza.

São muitas dúvidas: o que fazer agora, com a presença da nova variante, com a velocidade de contágio do vírus e de seu altíssimo poder de contaminação? Confinamento? Busca de algum lugar seguro, um refúgio?

Não sabemos. Não há institutos de pesquisas ou videntes que possam garantir um “Feliz Ano Novo”, como as mensagens que trocamos ao final de todos os anos.  O Ano Novo já chegou. Estamos nele.

Não há lugar seguro. Apenas sabemos que temos quer manter os cuidados, usar máscara, álcool em gel e manter o maior distanciamento possível. Estamos numa maratona da qual não sabemos a distância e nem a duração. Numa maratona tradicional, o atleta se prepara para um momento turbulento, ao redor do km 30, mas sabe que ela termina em 42,2km. Nesta pandemia, precisamos ter energia para quanto, ainda?

É próprio de nosso DNA querer viver. Não queremos morrer, nem adoecer. E a frustração tem parte importante neste processo, por mais sofrimento que possa gerar.

Entre tantas frustrações, acompanhamos o sentimento de  inconformismo de muitos que não puderam viajar com suas famílias. Haviam programado viagens de fim de ano com a esperança por tempos “normais” de lazer e confraternização, destruindo planejamentos e expectativas.

Não temos mais poder para dirigir ou controlar nossa própria vida, comenta a agente de viagens, Rosane, 63 anos, mãe de Lucimara, 41, desalentada ao ver seu trabalho interrompido, mais uma vez, após quase dois anos sem turismo, sem viagens. Difícil viver, e sobreviver, nestas águas turbulentas. Do outro lado, os viajantes…

Os que não foram

Marina, 36 anos, mãe de Luísa, 11 anos, e Pedro, 5, planejava, entusiasmada, uma viagem para Alagoas, programa pé na areia, desabafou: “Agora vai, vamos aproveitar tudo que não fizemos no ano passado. A vontade de sair, reunir a família, voar, ir com liberdade e voltar na hora que cansar. Praia, férias, abraços e diversão”.

“Nós programamos essa viagem para celebrar a vida. Depois de tanto tempo dentro de casa, eu cheguei no meu limite. Eu dizia para o meu marido ‘preciso viajar, colocar essas crianças para correr na areia, pegar sol, entrar no mar e esquecer do mundo’. Eu não suportava mais o trabalho remoto e essa rotina imposta pela pandemia. Durante esses dois últimos anos, as crianças não perderam o ânimo, nem o meu marido, mas eu não aguentava mais.”

A família não foi. A companhia aérea faliu. Diversos voos cancelados. Sem justificativa e sem nenhum aviso prévio. Hotel pago, mas sem a chance de ir e voltar. “Revoltante”, ela complementou. A frustração da Marina foi a de milhares de pessoas naquela sexta-feira, em Guarulhos, São Paulo. Ela, os filhos e o marido voltaram para casa.

Carlos, pai de Sabrina, 17 anos, comentou sobre essa questão: “Estamos tentando ir para o Chile. Minhas irmãs estão nos esperando, mas o sistema chileno está com problemas e a comprovação de vacina da nossa filha sumiu do site do Ministério da Saúde do Chile. Estamos aptos a embarcar, mas ela não”. A viagem estava planejada desde abril de 2020. E agora acharam que daria tudo certo… “O Governo chileno fez várias exigências, fizemos tudo certinho, já tinham validado a vacina da nossa filha. Sem mais, nem menos, o sistema deu esse erro e mesmo com o comprovante da vacinação dela – comprovada pelo ministério da Saúde do Brasil – ela não poderá embarcar. Como vamos viajar sem ela? Isso não existe. A verdade é que o mundo não está preparado para a pandemia. Definitivamente não está”, desabafa Aline, mãe da Sabrina.

Pela segunda vez, a família perde a viagem para o Chile. A frustração de não encontrar com os parentes, os abraços, as conversas que foram adiadas novamente.

“A viagem é para NY,” contou Luis, pai das adolescentes Alice, 18 anos e Sabrina, 16 anos. “Quando iniciamos o planejamento em outubro a sensação era ‘os tempos normais estão voltando’. Família toda vacinada, tudo parece caminhando para o bem e nos EUA a pandemia já está controlada. Essas eram as nossas sensações quando resolvemos comprar as passagens e planejar a viagem em família”, acrescentou Catarina, mãe de João, 12 anos, Fábio, 15 anos e madrasta das adolescentes.

Os meses foram passando e o cenário mudando. “Viajamos muito pelo Brasil neste ano, fomos para a praia e essa será a nossa primeira viagem internacional depois da pandemia. Mas agora, tudo mudou. Estamos com medo de ir com as meninas, porque logo após o nosso retorno elas terão o Passaporte Sanitário. E se pegarmos Covid lá e ficarmos presos nos EUA, como está acontecendo com muita gente? A chance delas perderem o PAS é real. Elas estão tristes, mas conformadas. O PAS é prioridade, não temos como prever o que pode acontecer. São mais do que viagens canceladas ou perdidas. Não é apenas a questão monetária. Tem a ausência da liberdade. Tem a imposição das regras e a família perde a viagem”.

Entre a vontade de acreditar que dias melhores e “normais” estão chegando e o real controle da proliferação do vírus existe uma distância enorme que guarda medo, euforia, frustração, alegria e tristeza em todas as histórias.

Há, porém, os que conseguiram viajar

“Depois de dois anos, consegui viajar com as meninas. Como foi maravilhoso. Nos divertimos muito e amei voltar para a Bahia”, contou Carla, mãe de Luana, 8 anos, e Luiz, 16 anos. Mãe solo, ela aproveitou as férias e o período da guarda dos filhos para viajar. “O pai deles me encheu a paciência, me chamando de leviana e irresponsável em viajar com eles no fim de ano. Nós temos uma relação até amigável, mas durante a pandemia discordamos muito. Eu queria que eles retornassem para a escola, o Alberto não. Eu bati o pé e disse que iríamos viajar e ele discordou; disse que receberia os meninos de volta só depois que eles fizessem o PCR. Eu disse tá bom e fomos. Foi maravilhoso, tomamos cuidado, mas confesso que na praia parecia que não existia pandemia. Todo mundo sem máscara. Nos primeiros dias, a gente fica mais cuidadoso, depois nem lembrava mais. A Luana viajou sem nenhuma vacina, o Luiz com uma dose e eu com duas. Fui irresponsável? Para o pai deles sim, mas não me arrependo. A viagem foi fantástica, voltamos para o Ano Novo renovados. Estamos bem e felizes. Fizeram o PCR e 4 dias depois foram para a casa do pai. Estão lá acomodados no apartamento dele, mas com as lembranças da Bahia na mente”.

A imprevisibilidade é um fato. Cláudia, 55 anos, mãe de Fernando, 33, e Maria Antônia, 22, divorciada e empresária, mora em Porto Alegre, RS, deu seu depoimento: “Nesse ano, passei o dia 24 de dezembro em casa, a pedido da minha filha, que faz aniversário nesse dia, pois no ano passado viajei para visitar uns primos e não passamos juntas. No dia 25, meu namorado e eu fomos tirar uns dias para descansar em uma praia no Ceará. Nos organizamos com tempo e sonhamos com uns dias de descanso. E tivemos! Passamos 6 dias entre sol, calor, banhos de mar e contemplação da natureza, foi uma viagem inesquecível, pudemos esquecer da pandemia, em lugares abertos não era necessário o uso de máscaras, enfim, literalmente, respiramos”.

“Para a virada do ano, os planos eram de retornarmos para Porto Alegre e estarmos com a minha família numa praia pequena do litoral sul. Como teríamos contato com minha mãe, de 83 anos, quando chegamos testamos para Covid, afinal, vínhamos de horas em aeroportos e aviões. Exames negativados, seguimos com os planos. Eu e o meu namorado conversávamos sobre o sentimento de estranhamento em ver os aeroportos tão lotados, do relaxamento do uso das máscaras em ambientes fechados; pensávamos em uma mistura de sentimentos: a pandemia está controlada, o sucesso da vacinação, vida que segue, vamos em frente, correr atrás do prejuízo, mas, por outro lado, pensando… Será?”.

“As notícias nos jornais, nas redes, nesse período das festas, bombavam mais sobre o surto da gripe H3N2 do que sobre a variante Ômicron, embora já era sabido que essa nova Cepa contagia mais, porém é menos letal e que os cuidados precisavam seguir. Passamos uma virada de ano em família, matando a saudade dos encontros, das longas conversas com tempo e comemorando a vida. Estarmos com a mãe, que já tem mais de 80 anos, tem sido mais intenso e valorizado por mim e pelo meu irmão, vemos no olhar e nos relatos dela o quanto a pandemia a assusta, ela diz que nunca imaginou viver isso em sua vida”.

“No dia 3 de janeiro de 2022, isto é, o primeiro dia útil do ano, literalmente virou uma chave: antes das 8h minha filha me ligou dizendo que ela e o namorado tinham feito exames e positivado para Covid. Isso significava que meus planos de voltar para a minha casa sofreriam alterações, além da preocupação como seria a evolução da doença na minha filha. No mesmo tempo que eu falava ao telefone com a Maria Antônia, o filho mais velho do meu namorado, que tem 19 anos, noticiava que a maioria dos amigos que estiveram juntos entre o período das festas estavam com Covid. Assim pegamos a estrada de volta do litoral para Porto Alegre, em um clima de tensão e incerteza”.

“Hoje, sexta-feira, dia 7 de janeiro, ao dar meu depoimento para o PAISdemia, sinto-me insegura do cenário atual e tenho medo do que está por vir. Como não pude voltar para minha casa, pedi abrigo para o meu filho mais velho, que mora sozinho e estou aguardando os dias e orientação médica para  voltar para casa em segurança, pois como sou dona do meu negócio, não posso adoecer e ficar em casa, visto que 5 pessoas do meu time de trabalho estão em confinamento com os filhos mais jovens que adoeceram nesse período. Me senti, nessa semana, numa operação de guerra, levava suprimentos para a minha filha, deixava do lado de fora da porta e nos olhávamos de longe, eu no pátio, ela da janela, ambas de máscaras, assustadas, com saudades”.

“Minha filha passou praticamente dois anos confinada em casa comigo, conversamos sobre a possibilidade dela ter feito diferente e não ter se exposto nas festas de final de ano e não precisarmos passar por todo esse perrengue de início do ano e, juntas, chegamos à conclusão, sem julgamento, que precisamos seguir conversando e enfrentando esse período longo e difícil. Não está sendo fácil para ninguém, eu temo pelo meu negócio, toco um time de 40 funcionários, as reservas e os benefícios do governo terminaram e o clima é de insegurança e imprevisibilidade. Sofri em ver a minha filha com Covid, sozinha em casa, dando conta de lavar, cozinhar e se cuidar. Muitas vezes ela me liga chorando, arrependida, culpada e nessas horas, penso que o meu papel de mãe é acolher. Os pais se atrapalham, erram, acertam e os filhos também, assim é a vida e o crescimento de cada um.
Tenho saudade do dia de Natal que minha filha nasceu, há 22 anos. Ficamos as duas na maternidade, construindo a nossa intimidade, onde a minha única preocupação era de cuidar e nutrir a minha bebê, fico pensando hoje em como as mães que estão parindo os seus bebês se sentem, com a sombra dessa pandemia que não termina”.

Marcos, 39 anos, dono de lanchonete de rodoviária, comentou:  “Tenho receio de que este tempo todo em que o trabalho não engrena (confinamento), tenha feito com que os jovens tenham desaprendido a cumprir tarefas com responsabilidade. Toda nova contratação é assim: pode ser boa gente, mas falta muito ao serviço. E, quando falo, que tem que ajudar na limpeza (varrer, passar o pano mas mesas…), desistem.”

O rescaldo que a COVID deixa é uma profunda mudança nos modos de viver, trabalhar e consumir.

Há menos confiança no caminho traçado, alterações da organização doméstica, provocados pela vida híbrida (real/virtual) e o tributo invisível e pesado sobre as mães, mas também os pais, que trabalham e vivem o constante desafio/medo de não ter onde deixar os filhos, com as escolas fechadas, o ensino em casa, a necessidade de criar a vida de outros modos.

O que pensar deste conjunto de experiências, que vão do insignificante ao trágico, da tristeza à indignação, da frustração à resignação? A constante emergência da improvisação? Este é o presente, e não o futuro. Imprevisível.

Ressurge a pergunta: como será o amanhã? Não sabemos nada. Não há oráculo a consultar, como nos tempos dos gregos. A névoa que nos cerca não é uma metáfora. É real. Não temos a chave para conhecer o futuro, nem o presente, de momento. Nós, do PAISdemia, estamos debruçados sobre este tema, ouvindo, refletindo, pensando, querendo compreender.

Sabemos, porém, que há cientistas trabalhando na criação de vacinas, em um tempo incrivelmente veloz, que têm salvado muitas vidas e nos ajudam a ter fé e esperança no poder da ciência e da tecnologia para mudar o mundo, e a existência humana.

Talvez tenhamos que experimentar outras possibilidades de vida, abrir espaços de prazer dentro dos limites impostos pela crise sanitária trazida pela Pandemia. Dar asas à imaginação e à criatividade, como taboas de salvação frente ao desânimo, ao desamparo e à imprevisibilidade. “Um pouco de possível, senão sufoco.” (Gilles Deleuze)