Escolas e reencontros: o retorno e as mudanças no comportamento das crianças

Voltar a socializar com os colegas na escola trouxe uma transformação na vida das crianças e das famílias, confira alguns relatos

No mês de maio, o grupo PAISdemia foi pesquisar e ouvir os pais sobre como estão percebendo os filhos nessa retomada para a Escola: o que tem chamado a atenção, o que as crianças estão trazendo para casa e como estão percebendo os filhos em relação aos limites nesse momento de retomada.

O retorno presencial às aulas trouxe mudanças ao comportamento das crianças (Foto: Shuterstock)

“A pandemia trouxe aos pais também essa tarefa, de se reinventar como pais e educadores, por isso acreditamos que as escolas não poderão ser as mesmas”, opina Valesca Karsten. Apareceu na pesquisa o quanto os pais tiveram de desempenhar seu papel nessa atividade e aventura criadora que é educar, assim como os professores. O lar teve influência tão importante quanto a sala de aula.

“A participação dos pais nas atividades criadoras dos filhos tem ainda outro importante sentido. Creio que não existe, para os genitores, melhor oportunidade para conhecerem seus filhos, pois na arte criativa se manifestam mais espontaneamente as reações das crianças. Muitas realidades, que os pais jamais descobririam, facilmente se revelam durante esse processo criador. O motivo é óbvio. As tensões, as experiências e as restrições que existem nas crianças estão como que ‘enterradas’ no seu íntimo, e não vem à tona, porque a criança não está suficientemente relaxada para poder ‘livrar-se’ delas” – de A Criança e sua Arte, de Viktor Lowenfeld (autor que alcançou os mais altos graus que se podem obter na Europa, no campo da Arte e da Educação).

Confira abaixo as entrevistas:

Márcia Menezes, 46 anos, nutricionista e educadora infantil assistente. Mora em Porto Alegre e é mãe da Sophia, de 7 anos respondeu como está vendo a filha em relação aos limites nesse momento de retomada: “Para mim está mais difícil, pois antes da pandemia eu conversava e explicava uma ou poucas vezes as coisas para a minha filha e ela entendia, agora está muito mais difícil. Claro que eu me dou conta que ela está crescendo, mas parece que esses dois anos que passaram foi um tempo estagnado, é como se o tempo tivesse parado. Agora eu preciso explicar e retomar várias vezes as combinações, as regras; ela insiste e questiona muito, quer ter a última palavra e que eu ceda. O retorno às aulas presenciais tem feito muito bem para a Sophia, eu sinto ela mais aliviada, mais contente”.

“Parece que esses dois anos que passaram foi um tempo estagnado, como se o tempo tivesse parado”

Rafaela Camargo, 34 anos, Pedagoga e professora, mãe do Matheus, 13 anos e casada com o Leonardo, 37 anos, conta: “Eu nunca tive problemas em dar limites para o Matheus, ele é tranquilo e respeita as nossas combinações. Agora, na pré-adolescência, que é o momento que ele está, algumas vezes preciso retomar algumas coisas, até mesmo porque é uma fase mais delicada, então eu vou chegando aos poucos, procurando não invadir o espaço dele. Como professora, percebo nesse momento de retomada, uma ânsia das crianças da faixa etária que eu trabalho, que é da educação infantil, em se socializar, estar com os amigos e colegas, não perder nada. Quando contrariados, como não irem para casa de algum amigo ou aniversários, ficam muito contrariados, como se desejassem recuperar o tempo perdido”.

“As crianças querem tudo, como se quisessem recuperar o tempo perdido”

Felipe Kalil, 38 anos, médico neurologista infantil, casado com a Fernanda, também com 38 anos e pais do Antônio, de 2 anos e 11 meses. Moram em Porto Alegre, disse: “No caso do meu filho, que é pequeno, não me ocorrem dificuldades em relação aos limites, o que eu percebi é que ele precisou de mais tempo para se adaptar na segunda escola do que na primeira e também precisou da socialização com outras crianças para desenvolver mais as questões em relação a fala. Hoje, adaptado e vinculado com as professoras e os colegas reafirmo a importância dele estar na escola, aliás, como profissional também acho que a escola é muito relevante e importante para as crianças. Como médico neurologista infantil, percebo um aumento significativo do embotamento afetivo das crianças, elas sofreram muito na pandemia, foram privadas do convívio com outras crianças e isso reflete no aumento dos casos de doenças neurológicas e psicológicas”.

“As crianças sofreram muito da privação do contato com outras crianças e os efeitos disso vão reverberar por muito tempo”

Thamirys Nunes, 32 anos, casada com o Fábio, 49 anos, pais da Agatha, de 7 anos. Moram em Curitiba-PR, ainda acrescentou: “Sabe, eu tive muito medo da Covid, fiquei receosa e apavorada com a possibilidade da minha filha pegar o vírus. No início da pandemia, quando as aulas presenciais foram suspensas, a Agatha seguiu com as aulas online, meu marido e eu decidimos contratar uma professora particular que viesse em casa. Ela tinha 5 anos naquele momento. Em 2021, nós percebemos que a nossa filha estava muito ansiosa, irritada e a psicóloga que a acompanha sugeriu que ela retornasse para as aulas presenciais. Foi uma decisão muito difícil de tomarmos, pois o medo ainda imperava em nós, mas os argumentos da psicóloga foram os que nos impulsionaram em decidirmos por ela voltar presencialmente para a Escola. Era o momento dela ingressar na primeira série, então optamos por trocar de Escola, escolhemos uma instituição menor, mais personalizada e com menos alunos. Percebemos que para ela ficou uma lacuna aberta entre o Maternal, que era o que ela frequentava, para a primeira série, com novas rotinas e demandas. No início, a Agatha ficou muito triste com essa nova rotina, não entendia a dinâmica, para ela faltavam as brincadeiras no pátio e os amigos que ela tinha. Foi uma adaptação sofrida, não foi nada fácil para ela e para nós. Imagina quantas mudanças na vida dela, fazer vínculos com os novos colegas e ainda com o distanciamento de 1,5m entre as classes. Para completar, tinha o agravamento da nossa situação profissional, porque tanto o meu marido quanto eu trabalhávamos em casa e ela era a única que saía para ir para a Escola. Ainda hoje a Agatha prefere seguir usando máscaras, mesmo a Escola já tendo flexibilizado para a faixa etária dela, me diz que se sente melhor, mais segura, apenas tira a máscara quando vai brincar de correr. Felizmente, o pior já passou, a vemos mais integrada, fez amigos, foi um processo lento e difícil, mas está positivamente avançando. Tanto o meu trabalho quanto o do meu marido aumentou muito na pandemia, o que nos fez estimular a autonomia da nossa filha, como tomar banho sozinha, se vestir, comer. Conversávamos com ela dizendo que precisava colaborar e isso ajudou que amadurecesse mais nessas questões, embora, em outros momentos, demandou mais de nós, queria mais atenção, que parássemos de trabalhar e brincássemos com ela. Estava mais sensível, cansada de estar em casa, irritada, de saco cheio dos brinquedos e do ambiente”.

“No momento do confinamento, estimulamos ainda mais a autonomia da nossa filha, como tomar banho sozinha, se vestir, comer. Precisávamos nos ajudar”

Ângela, 50 anos, Personal Treiner, mãe da Catarina, 14 anos, relata: “Foi muito difícil para mim esse período. A academia onde dou aulas parou por muito tempo e eu precisei dar aulas improvisadas e à domicílio. Minha rotina ficou virada de pernas para o ar, as aulas online eram uma bagunça e eu precisei flexibilizar o uso do celular para a minha filha. Daí eu senti que outro mundo se descortinava para ela e que eu perdia o controle. Era a adolescência dela que aflorava junto com a pandemia. Obviamente que ela apagava as conversas para eu não ver, passava horas naquele celular, o desempenho escolar indo morro abaixo, desinteresse e brigas comigo. E eu exausta, desanimada! Quando as aulas retornaram, por um lado, foi um alívio. Tenho confiança na Escola e achava que lá estas questões todas estariam diluídas com o olhar dos professores e com o retorno do convívio com adolescentes da idade dela. Ainda as coisas estão turbulentas, pois estou retomando o meu trabalho, grana escassa e ela demandando muito. Tenho a sensação que num piscar de olhos perdi a criança e agora tenho uma adolescente com muitas dificuldades. Para completar, há um mês, morreu o nosso cachorrinho, de uma doença avassaladora. Com esse fato, parece que veio todo o sofrimento represado, vi minha filha deprimida, com uns pensamentos sombrios, fiquei apavorada. Ela não parava de chorar, não queria comer, só adormecia no meu colo, dormia comigo, emagreceu, sofreu pra caramba. Eu dizia: ‘Filha, reage, vamos em frente, me ajuda!’, e a pobrezinha nem levantava os olhos para me olhar. Eu tinha jurado não ter mais bichos em casa, mas vendo ela daquele jeito me rendi e adotamos um outro cachorrinho, que tem ajudado muito. Essa morte da nossa Pet foi triste, mas ajudou a minha filha a chorar uma tristeza que estava contida, represada. Fico imaginando quanto sofrimento de tantas outras crianças que devem estar nessa mesma situação, sem entender ou poder botar para fora esses sentimentos”.

“A adolescência da minha filha aflorou junto com a pandemia”

Francine Monteiro Formigari, 46 anos, designer de interiores, casada com o Fábio, 42 anos, administrador, pais da Helena, 10 anos. Moram em Porto Alegre-RS, deu mais detalhes: “No primeiro ano da retomada das aulas, nós decidimos que a Helena seguisse com as aulas online, pois meu pai estava debilitado e em função do contato com ele, preferimos nos manter em isolamento. Nossa filha retornou para as aulas presenciais em maio de 2021. A Helena nos contava que estava difícil a relação entre os colegas, estavam mais agressivos, algumas brigas físicas e verbais que não aconteciam antes da pandemia, começaram a surgir. Quando a Helena chegava da Escola, nos relatava coisas absurdas. No período em que as crianças ficaram afastadas da Escola, grupos de WhatsApp entre os colegas começaram a surgir, assim como muitos assuntos, parece que os pais perderam o controle e, no retorno presencial, isso tudo veio à tona. Era um turbilhão de emoções represadas, uns não sabiam lidar com os outros, a ânsia pela socialização e ao mesmo tempo o medo do desconhecido. Parecia que as crianças não sabiam mais regular as emoções, era tudo muito, muitas risadas, muito choro, parecia tudo desregulado. Felizmente a Escola percebeu e, aos poucos, foi retomando, de forma adequada, dando suporte e conversando com os alunos. Hoje, percebemos que isso já está mais calmo. Me dou conta que não dá para colocar isso tudo na conta da pandemia, existe o fator da idade e dois anos faz muita diferença na vida de todo mundo, ainda mais das crianças, mas me pego pensando se a pré-adolescência dessas crianças não foi acelerada… Quanto aos limites, não percebo maiores dificuldades, pois procuro dar e mantê-los com a Helena desde pequena, explico que a vida não é fácil e que ela precisa respeitar as regras e se esforçar muito, faz parte da vida. O que me angustiou mais foi vê-la triste, ansiosa, como no início do confinamento, lá por maio de 2020. Ela verbalizava um desconforto físico, me dizia: ‘Mãe, eu não quero brincar com adultos, eu preciso brincar com os meus amigos, com crianças’. Era de cortar o coração! Quando foi possível, combinávamos com os pais das amigas mais próximas e nos encontrávamos em praças, o que trazia muita alegria para as crianças e para nós também, pois era o momento de podermos dividir com os outros também os nossos sentimentos. Outra coisa que fiz com a Helena foi antecipar o presente de aniversário de 9 anos dela. Nós tínhamos uma cachorrinha, a Bijou, que morreu em 2018. Após um tempo, ela nos pediu de presente outro cachorro. Então fiz com ela um calendário. Preenchíamos todos os dias algo relacionado com a espera desse novo cachorrinho. Assim veio o Cacau, cheio de energia, como um chocolate. Foi muito legal essa experiência e o mais incrível foi ter renovado a ESPERANÇA da nossa filha”.

“Era um turbilhão de emoções represadas, uns não sabiam lidar com os outros, a ânsia pela socialização e ao mesmo tempo o medo do desconhecido”

Milena Jenckel, 24 anos, influenciadora da agência Mind, produtora de conteúdos digitais, mãe do Guilherme, 2 anos e 4 meses. Mora em São Paulo-SP, fala: “Tive o Gui em janeiro de 2020, um pouquinho antes da pandemia, ele é um bebê da pandemia mesmo. Estou separada do pai do meu filho recentemente, moro com a minha mãe, que é pedagoga e professora, tenho a sorte de ter uma consultoria educacional em casa. O Guilherme ainda não está na Escola, estou aguardando um pouco mais, para que o sistema imunológico dele esteja um pouco mais maduro. Como eu trabalho em casa, posso estar e cuidar dele. Nos conteúdos que eu crio, procuro mostrar a maternidade sem romantizações, o dia a dia como é, com suas coisas boas e as não tão boas também, vida real mesmo. Eu percebo que as pessoas que me seguem valorizam bastante isso, temos trocas muito ricas e essas trocas de experiências geram uma rede de apoio. Eu gosto muito do que eu faço. Sou formada em Gestão Ambiental pela USP, tenho facilidade e gosto de escrever, de produzir textos, estou sempre buscando referências em diversas fontes para enriquecer a minha escrita. Quando nós começamos a retomar o convívio social, depois da quarentena, foi um choque, lembro da primeira vez que eu levei o Gui ao supermercado. Ele ficou encantado, olhava para tudo e quando via e chegava perto de outras crianças, estranhava, algumas vezes se retraía, outras, puxava o brinquedo da outra criança. Me dou conta que ele teve a sua socialização roubada por um ano, o que é muito para um bebê, por isso entendo a dificuldade dele em se relacionar com outras crianças naquele momento”.

“Meu filho teve a sua socialização roubada por um ano, o que é muito para um bebê”

Daniel Saullo, 42 anos, empresário, casado com a Mariana, 36 anos, pai da Anita, 7 anos, do Antônio, de 6 anos e dos gêmeos José e João, de 4 anos. Moram em Passa Quatro, no Sul do Estado de Minas Gerais, comenta: “Olha só, Valesca, fico muito feliz em participar dessa pesquisa tão importante que vocês estão fazendo em parceria com a Revista que eu tanto admiro que é a Pais&Filhos. Nós somos privilegiados em morar numa cidade do interior, que é a minha cidade natal. Moramos numa casa ampla, com pomar, bastante espaço e isso foi muito importante para os irmãos, essa é uma das grandes vantagens de uma família maior, que hoje em dia não é tão comum, então, um fazia companhia para o outro no tempo do isolamento. A nossa cidade, por ser pequena, nunca esteve em um estado caótico em relação à pandemia e os nossos filhos, como ainda são pequenos, foi e é mais fácil de manter o controle. Ficávamos preocupados e assustados quando conversávamos, durante o período mais difícil do confinamento, com os nossos amigos das grandes cidades, eles nos contavam que a rotina deles de uma hora para outra tinha virado de cabeça para baixo e tiveram de se reorganizar em espaços pequenos, trabalhando em casa e tendo de lidar com as crianças juntas o tempo todo. Nesse momento de retomada da vida escolar, vejo os nossos filhos bem na Escola, felizes com os coleguinhas e a rotina. Os primos também estudam na mesma Escola, virou uma grande turma e mais unida. A Anita se mostrava muito incomodada em usar máscara e foi a que mais comemorou quando flexibilizaram o uso. Agora vejo as coisas engrenadas e o momento é mais sereno. Sobre os limites, vejo que o período em que ficamos ainda mais em casa e com eles nos fortaleceu. Nós passamos muito tempo juntos, brincamos mais e fizemos longos passeios de bicicleta com eles e isso gerou ainda mais intimidade. Na minha percepção, quanto mais você fica com os seus filhos, mais fácil fica de estabelecer as regras e os limites, tenho a sensação que eles compreendem mais, ficam mais próximos e parceiros. A fase que os meus filhos estão eu os considero como umas ‘esponjas’, absorvem tudo e eu acho que os filhos aprendem muito mais com as nossas atitudes do que com muitas conversas. Tanto a Mariana, minha esposa, quanto eu, somos muito família e esse tempo que ficamos mais com eles fortificou ainda mais os nossos laços. Nós desejamos muito ser pais, construir uma família, então agora é curtir. A paternidade e a maternidade não nos pesa. É claro que tem perrengues, eles disputam brinquedos, atenção, ficam doentes, se desentendem, mas a gente vai administrando e entendendo que faz parte, afinal, são crianças. Eu acho que seria pretencioso indicar para os filhos o caminho certo o tempo todo, por exemplo: os meus pais são a minha referência, minha inspiração, até mesmo pelos defeitos deles. Eles me influenciaram, mas eu, ao longo da minha vida e amadurecimento construí as minhas próprias referências”.

“A paternidade para mim é uma grande escola”

Tatah Favero, 30 anos, criadora de conteúdo digital há 10 anos e advogada, mãe do Dominique, 3 anos, companheira  do Victor Hugo, 34 anos, músico. É natural da cidade de Juiz de Fora-MG e atualmente moram no Rio de janeiro. Para podermos conversar, Tatah precisou administrar o Dom, que chegou cansado da Escola, ele está no período de adaptação e fica muito cansado, a mãe também. Tatah começou me contando que tem orgulho de ter estimulado o Dom em ter a sua privacidade. Me disse que ele adora ficar no seu quartinho, com suas coisas, não se incomoda com a penumbra nem com o escuro, diferente dela, que quando era pequena, sempre precisava de uma luz acesa. Algumas vezes, durante a entrevista, Dom chamou por ela, que, delicadamente interrompia a nossa conversa e ia ao encontro dele. Girafa de pelúcia, suquinho, cobertor fofinho acalmavam o Dom, mas o que mais chamou minha atenção foi a maciez da sua voz com ele. Há de ser isso uma mãe! Às vezes, ele vinha ver com quem a mãe estava falando e me presenteava com um sorriso.

“ Valesca, eu sempre gostei muito de escrever, tive essa necessidade de me expressar através da escrita sobre o que sinto. Às vezes escrevo só para mim. Vou contar para você porque a escrita hoje faz ainda mais sentido para mim, diria que é um propósito… Tive uma gravidez tranquila, fui mãe muito jovem, com 26 anos.  O Dominique nasceu com 40 semanas, na minha cidade, Juiz de Fora, que é relativamente pequena. Seu nascimento foi uma festa, tivemos muitas visitas e eu encantada com aquela movimentação toda. No dia que tivemos alta do hospital, o médico nos deu a notícia que o nosso bebê tinha Síndrome de Down. Naquele momento, me senti desamparada, inclusive pelo médico. Meu marido e minha mãe foram a minha rede de apoio, não posso imaginar como teria sido se eu não os tivesse ao meu lado. A partir dessa notícia, eu agora era uma mãe de um bebê com Down. Passado o susto, decidimos procurar ajuda terapêutica e eu, sempre que podia, mergulhava em informações e pesquisas sobre famílias que tinham filhos com essa síndrome e comecei a dialogar com elas. Isso é hoje a parte mais importante do meu trabalho: ajudar, conversar, escrever, oferecer um espaço de escuta e informação para essas mães, dar voz para o que elas pensam e sentem.

“O violão foi o nosso maior terapeuta na pandemia”.

“Nós fomos muito rigorosos no início e durante a pandemia, tínhamos medo de adoecer, principalmente receio que o Dom pegasse o Covid, então nós restringimos muito as nossas saídas. Tínhamos contato com poucas pessoas, entre elas, a minha mãe, que foi  minha rede de apoio também durante a pandemia. Eu diria que outra rede de apoio que tivemos e temos é o violão. A música faz parte da nossa vida, o Victor canta e o Dom se encanta com a música. Nesse momento, estou profundamente mexida com o período de readaptação do Dom na Escola. Quando ele era menorzinho, antes da pandemia, ele frequentou uma pequena Escola e foi muito fácil a adaptação, diferente de agora. Há dois anos ele tinha 1 ano e agora, ele tem 3 anos. Eu me dei conta, nesse momento, que o meu bebê cresceu e está em uma outra fase, manifesta suas vontades, faz birra, teima, não quer tomar banho, demonstra raiva, às vezes bate, arranca brinquedos dos colegas e eu me apavoro. Bate um desespero em pensar que alguém pode revidar, que na nova Escola eu não estarei lá para protegê-lo, ao mesmo tempo, eu queria que ele falasse e ele está em processo de aquisição da fala, enfim, um turbilhão de sentimentos que acontecem com quem é mãe. Ainda para completar, nós mudamos para o Rio, estou longe da minha mãe, sinto muita falta dela. Ao mesmo tempo, sei da importância da Escola na vida do Dom, escolhemos uma Escola diferenciada, afetiva, inclusiva, pequena. Sei que ele vai estar bem, tenho conversado com a coordenadora e a professora e elas tem acolhido minhas angústias e me ajudado”.

“Sei que vai dar tudo certo, no tempo, no ritmo do Dom e no meu”.

Gabi Ribeiro, 27 anos, mãe da Elis, 2 anos e meio, influenciadora digital, criadora de conteúdos sobre a maternidade, aborda assuntos sérios de forma leve e com humor e também escreve sobre a introdução alimentar. Gabi é casada com o Fabrício, 29 anos, pai da Elis. Moram em Birigui, interior de São Paulo, conta: “Quando iniciou o lockdown, em 2020 e tudo fechou, foi um choque. De uma hora para outra me vi em casa com a Elis e o meu marido o tempo todo. Às vezes, com todo o cuidado, eu descia do apartamento com ela para levar o lixo e lembro do quanto ela estranhava em ver as pessoas. Até mesmo a minha mãe, quando veio me dar uma ajuda, levou quase uma semana para a Elis se acostumar com ela, estranhava até os óculos da vovó, bem como as pessoas com cabelos de outras cores, afinal só via eu, o pai e a avó. Lembro da primeira vez que pudemos retornar para a consulta com a pediatra pessoalmente, foi uma loucura, tinham muitas crianças penduradas nos pescoços das mães, pareciam assustadas em verem mais pessoas e outras crianças. Era muito estranho para os adultos e ainda mais para os pequenos. Da janela do nosso apartamento, podíamos ver uma pracinha, dava uma tristeza enorme em ver a praça vazia, sem as crianças. A Elis só foi ao parquinho pela primeira vez com quase dois aninhos, pensa que loucura isso… Em relação aos limites, agora nessa fase que ela está ficou muito diferente do que era. Antes eu falava e ela aceitava, agora não tem sido assim, ela questiona, retruca, teima, quer escolher as roupas, dá muito mais trabalho. Penso que às vezes é mais fácil dizer sim, pois ela tenta me ganhar na insistência, no cansaço. Outra coisa que eu percebo é que ela demanda mais atenção, como eu trabalho de casa, as vezes estou fazendo um vídeo ou conversando com alguma seguidora e ela me diz: ‘Mamãe, olha para mim, estou falando com você!’. No segundo semestre, a Elis irá para a Escola, nós já visitamos algumas e acho que as Escolas estão mais preparadas no enfrentamento da Covid, o que me deixa mais tranquila para ela iniciar sua vida escolar. Na pandemia, eu pesquisei diversas fontes pedagógicas e construímos juntas brinquedos, jogos e fizemos muitas atividades de uma forma lúdica. Morávamos num apartamento, com espaço mais restrito, transformei a nossa sala em um lugar mais amplo para ela ficar com mais espaço para brincar. Outra coisa que temos hábito de fazer juntas é cozinhar, a Elis participa da preparação de alguns alimentos, eu divulgo as receitas para os meus seguidores e o pessoal curte muito. As tarefas cotidianas da casa contavam e contam com a ajuda possível da pequena, se sente útil me ajudando a arrumar a cama, organizar as roupas e assim ocupamos o nosso tempo e restrinjo o uso das telas. Sobre o que as crianças devem ver, também pesquiso conteúdos adequados e compartilho com os meus seguidores. Eu fiz o que eu pude, mas agora está chegando a hora dela socializar com outras crianças da mesma idade e ter seu espaço privado um pouco longe de mim e assim eu também ter o meu espaço”.

“Procurei ocupar minha filha fazendo coisas com ela, como cozinhar e fazer algumas tarefas domésticas que ela poderia participar, isso foi muito bom para ela e para mim”.

“O futuro pertence àqueles que podem imaginá-lo, projetá-lo e executá-lo. Não é algo que você espera, mas cria.” – Mohammed bin Rashid Al Maktou