Os avós e a pandemia: como ficou a relação familiar nesse período

Você já se perguntou como os avós sentiram esse período em isolamento e distanciamento social? Separamos alguns relatos para você refletir

Nossa travessia continua e resolvemos explorar novos diálogos. O PAISdemia se dedica a observar os fenômenos causados pela pandemia nos pais e seus efeitos nos diversos segmentos da sociedade; e para escrever esta coluna, desta vez, fomos entender os impactos nos pais dos pais – os avós. Com vocês, o AVÓSdemia.

A relação entre netos e avós e importante para todos os envolvidos
A relação entre netos e avós e importante para todos os envolvidos (Foto: Getty Images)

Hoje vivemos mais, portanto, envelhecemos mais. Envelhecer traz consigo sinais que não mentem, são efeitos do tempo. Além dos indicativos físicos, irredutíveis, há os conflitos entre as gerações, o desafio de se aposentar, as limitações, a solidão. Velhos, em geral, são invisíveis: seu papel na família se modifica para a retaguarda. Mais fragilizados, também, requerem mais cuidados – motivo de preocupação para os filhos e a família, isso é um ponto; o outro é que muitos estão envelhecendo com qualidade de vida, com autonomia e independência, e alguns (ou muitos) carregam o compromisso de sustentar os mais jovens da família.

Independente da forma como estão chegando na terceira idade, existe uma realidade recente na qual muitos avós estão desempenhando o papel de responsáveis financeiros e emocionais dos netos. Um fenômeno ainda novo, porém muito presente nas estruturas familiares atuais. Debilitados, saudáveis, lúcidos ou não, existe um olhar para os idosos que os colocam em uma posição muitas vezes incômoda e de desprestígio.

É preciso ter especial cuidado contra o ETARISMO, o preconceito contra os idosos. Provém de estereótipos socialmente construídos, e se referem à idade, fragilidade, declínio de capacidades, vulnerabilidade, apresentadas pelos velhos. São fortalecidos por crenças falsas que se tornam verdades: os idosos não podem trabalhar; as pessoas mais velhas são todas iguais, possuem saúde debilitada; os idosos são frágeis, não conseguem resolver suas necessidades básicas; os mais velhos nada têm a contribuir, e são um ônus econômico para a sociedade. Alguns desses juízos evidenciam uma discriminação a priori (prejuízos) por parte da sociedade em relação aos idosos. Nesse sentido, a luta contra o preconceito é diária e precisa ser feita. Mesmo aqueles que ainda trabalham para sustentar a família sofrem dessa ausência de influência, deferência e estima.

E como ficaram e estão esses avós durante o período da pandemia? Vejamos o relato de dona Selma, professora aposentada, 85 anos, divorciada, mãe de dois filhos, Ricardo, 64 anos e Claudia, 55 anos. Avó de 4 netos adultos.

“Me sinto mais sozinha na pandemia. Nesse momento da minha velhice, minha cabeça é boa, mas meu corpo não é mais o mesmo, tenho muitas limitações e o fato de estar mais em casa, há tanto tempo, me limita ainda mais em todos os sentidos. Têm acontecido algumas coisas diferentes no meu comportamento, por exemplo, em alguns momentos eu preciso ficar mais deitada e o meu filho acha que estou incomodada com ele. Eu envelhecendo e os filhos também, sinto falta de mais diálogos, tenho a sensação de que em alguns momentos eles têm dificuldade de aceitar que as mães envelhecem e não suprem mais as expectativas.”

Mas será que não? Por que fica esse estereótipo de que quando envelhecemos não podemos ajudar com a experiência e o conhecimento da vida?

“Eu aprendi na infância, com os meus pais, que foram de uma geração entre duas guerras mundiais, a não desperdiçar, a reaproveitar, a comer com menos proteínas e mais vegetais, a dividir. Fico pensando nessa geração que tem demais, que consome demais, que come mal, acho que tenho muito a ensinar e contribuir. Falam dos avanços dos tratamentos antienvelhecimento, da estética, mas poucos falam do quanto as pessoas mais experientes têm a contribuir para esse mundo e esse momento tão difícil que estamos atravessando, com pandemia e, agora uma guerra.”

A pandemia produziu sofrimento e dor para muitos idosos, especialmente na relação com filhos e netos. A súbita cessação de toda atividade social, o isolamento, o medo do contágio e de contrair o vírus, as dificuldades em usar os aplicativos básicos, smartphones, plataformas de Zoom, Google Meet, WhatsApp, Facetime e as redes sociais – que ocuparam e ocupam lugar de destaque durante a pandemia da Covid-19 –, produziram um enorme sentimento de solidão.

Desgaste do corpo e sofrimento emocional, dificuldades de relacionamento, mudanças nas configurações familiares, foram muitos aspectos que se exacerbaram neste período. Ouvimos diversos idosos relatando o quanto se sentiram “demasiadamente protegidos e isolados pelos filhos com medo do contágio da Covid”, acarretando outras doenças, como a depressão, a insegurança e as dificuldades motoras.

Você já parou para ouvir seus pais sobre as experiências anteriores que eles viveram ou de seus antepassados em relação a pandemias ou guerras? Será que eles não poderiam nos orientar e até mesmo nos acalmar sobre o que estamos vivendo? Assim foi o relato de Dona Sílvia, 83 anos, viúva, mãe de dois filhos, Carlos, de 60 anos e Dulce, de 51. Avó de duas netas adolescentes.

“Meus filhos são amorosos e muito ocupados e eu sou uma mulher independente. Passei dois anos em casa, consciente dos riscos da pandemia, porém nunca perdi a esperança. Falamos, eu e os meus filhos, todos os dias por telefone. Gozo de boa saúde física e mental e prezo pela minha liberdade e autonomia. Moro sozinha e ainda dirijo. Nesse segundo ano, se encaminhando para o terceiro ano da pandemia, planejei uns dias na praia com umas amigas, reservei hotel e estava com muita expectativa de passar uns dias com mais liberdade e em um outro lugar, mas infelizmente, cancelei, em função da variante Ômicron. Não sei se foi por isso, mas comecei a ter alguns problemas de pele, fui ao meu médico de confiança e ele me receitou algumas medicações, as quais segui criteriosamente. Minha filha ficou muito assustada e quis, pela primeira vez, marcar e me acompanhar numa consulta em outro especialista. Ela foi incisiva e eu cedi. Me buscou e fomos juntas. Eu senti uma mistura de estar sendo cuidada e ao mesmo tempo invadida. O especialista não concordou com o tratamento anteriormente prescrito pelo meu médico de confiança e me assustou quanto ao diagnóstico. Na hora pensei, será que daqui em diante vai ser isso? Voltei para casa triste, resolvi pensar sobre o ocorrido e, passado algumas horas, eu ainda desacomodada, escrevi para a minha filha e expliquei a ela que eu agradecia a preocupação, mas daqui em diante, se eu precisasse, pediria ajuda e que seguiria tomando minhas decisões pessoais”.

CUIDADO VERSUS INVASÃO, esse é um dilema muito comum nessa etapa da vida, em que a fragilidade do velho convida à entrada do filho ou filha mais jovem na vida daquele que sempre foi capaz de cuidar de si mesmo. Dilema que não se resolve facilmente, pois afastar-se também pode significar abandono, descaso, descuido. É a luta contra a infantilização e a preservação da autonomia. Todos iremos envelhecer. É preciso ressaltar os pontos positivos do envelhecimento, especialmente a sabedoria e a experiência.

De grande importância é o convívio entre avós e netos, e nisso a pandemia teve efeitos devastadores, como podemos ver no depoimento de Marió, 74 anos, 7 netos.

Perguntada sobre o que a pandemia lhe tinha roubado, respondeu: “Tudo”. Como assim, tudo? Você está viva, seu marido, filhos e netos, todos estão bem e com saúde. Você ficou sem nada? É isso mesmo?

“Sim, roubou tudo mesmo, o sentido das coisas, nunca mais será como antes. Eu vou passar o resto da minha vida preocupada com essa coisa, achando que de uma hora para outra tudo pode voltar. Eu nunca percebi como era importante para mim o abraço, o pegar na mão, estar todos juntos. Mas já estamos voltando para isso, já estamos nos reunindo novamente.

“Sim, mas a gente não se abraça direito mais, vocês chegam aqui em casa e tem dias que nem perto ficam, porque fizeram algo na rua ou viajaram. Sempre de máscara, o tempo todo pensando nos detalhes da convivência para ter cuidado. Isso não vai passar. Isso a Covid roubou e não devolve mais. Eu sinto uma tristeza que não passa. Não existe normal mais”.

O desconforto de não ter mais lugar em sua própria casa – é o que conta Ronaldo, 65 anos, 1 neta. “A Sabrina se separou na pandemia e ela e a minha neta, Sofia, vieram aqui para casa. Um apartamento de 2 quartos que sempre achei espaçoso e confortável para mim, mas que agora está pequeno e sufocante. As duas ocupam muito espaço. Quando aconteceu a separação, ela não quis ir para a casa da mãe. Me pediu para ficar comigo. Lógico que aceitei. A vida tá diferente e eu perdi o meu lugar. Sempre fui um pai presente e muito rígido da educação da minha filha. Agora eu a vejo educando a Sofia e fico me segurando para não interferir. Mas ao mesmo tempo estão na minha casa, as regras são minhas, daí vira uma confusão. Vejo as duas brigando e penso ‘Ahhhh isso não acontecia na minha época’.

E de fato somos de épocas diferentes. O mundo mudou muito, as pessoas mudaram, os valores são outros e, de repente, a pandemia trouxe tudo isso pra dentro da minha casa. Eu estava tranquilo passando pelo isolamento, cuidando de mim, e agora tenho duas crianças dentro de casa novamente. Olho para a minha filha, arrasada com a separação, sem saber o que fazer com a filha e morro de pena, mas ela tem que amadurecer e assumir as consequências das suas escolhas. A culpa não é da pandemia, não foi a pandemia que separou ela do pai da filha, tudo aconteceu porque eles não tinham maturidade. Simples assim”.

Dificuldade de estar na retaguarda e ter que lidar com a necessária invisibilidade, ou seja, estar impotente para fazer as coisas à sua maneira, como descreve Ester, 81 anos, 9 netos.

“Eu quase enlouqueci de ver a minha filha cuidando dos meus netos nessa pandemia. Para ela, tudo era um exagero, as máscaras, o isolamento, os cuidados. Não teve cuidado com nada, não sei como não pegou. As minhas duas outras filhas brigavam com ela o tempo todo, pedindo mais sensatez e responsabilidade e nada. Ela ainda brigou comigo e o pai porque a proibimos de vir aqui em casa. Usou sem dó alguma os seus filhos ‘vocês não amam seus netos, não querem vê-los, eles estão se sentindo rejeitados’. Eu não imaginava que a minha filha pudesse ser tão cruel. E foi. Nunca chorei tanto na minha vida. Sentia culpa, me achava uma péssima avó, tinha medo de pegar e morrer. Perdi a minha irmã mais velha em janeiro de 2021. Perdi o sossego e a vontade de entender as pessoas. Quando vejo as irmãs brigando hoje, por conta da pandemia, da política, do mundo ou por conta da conta do meu supermercado, eu deixo pra lá. A sensação que tenho é que todo mundo ficou doido. Eu não quero e não posso ficar assim. Os meus netos já estão vindo aqui para casa, ficam pouco, comem na varanda e eu na cozinha. Não era como era, mas já é alguma coisa. Eu olho para eles e penso como serão no futuro. ‘Será que serão mais tolerantes ou vão brigar por tudo?’. Espero não estar mais viva para saber como será no futuro”.

Por fim, um relato verdadeiro, mas constrangido de uma avó que pediu para não ser identificada. “Eu sei que a pandemia matou muita gente e deixou milhares mais pobres e infelizes. Mas na minha vida, foi preciso um vírus como esse para transformar a minha relação com o meu filho. Eu cuido financeiramente dele e do meu neto há anos. Ele recebe o meu dinheiro, precisa de mim para tudo, mas isso matava ele por dentro e não me deixava falar ou opinar na educação do pequeno. Via coisas absurdas com o meu neto e sei que usava a questão do dinheiro para exercer o controle. Com a pandemia, eu percebi que não existe controle de nada; e meu filho entendeu que o dinheiro não podia se transformar em um muro entre nós. Aprendemos a lidar com o jeito de cada um e a pensar que o amanhã não é mais importante que hoje. A nossa relação mudou de tal forma, que choro de alegria quase todos os dias. Nada disso teria acontecido se não fosse o choque da pandemia. Não sei explicar e nem quero entender mais algumas coisas, quero apenas agradecer a Deus por estar viva e abraçando meu filho e meu neto todos os dias com o amor que nunca exaltamos antes.”

Hoje podemos ser moços, adultos jovens, adultos maduros. Amanhã seremos velhos, e essas situações se repetirão com nossos filhos e netos. Não podemos esquecer que um dia esses avós, nossos avós, já foram crianças, adolescentes e jovens adultos. A marcha do tempo é inexorável, e todas as idades têm suas belezas e encantos. Ninguém escapa à lei da vida.

Carlos Drumond de Andrade nos convida a pensar sobre esse tema que se torna mais pungente em tempos de pandemia. “Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo/e ele não pesa mais que a mão de uma criança. As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios/provam apenas que a vida prossegue/e nem todos se libertaram ainda./Alguns, achando bárbaro o espetáculo prefeririam (os delicados) morrer./Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação”.