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Mãe de menino, mãe de menina: vamos dizer adeus aos estereótipos na infância

Precisamos ser mães de crianças livres, alegres, respeitadoras, gentis, curiosas e questionadoras

Donatella com a fantasia do Super Homem(Foto: arquivo pessoal)

Faltam poucas semanas para o Vicente nascer. Meu primeiro menino, irmão da Donatella, que está com três anos. Desde minha primeira gravidez, leio muito sobre educação infantil e busco entender a infância e a maternidade de hoje a partir de outros pontos de vista. Tanta coisa mudou, e muda a cada dia, que não me parece suficiente se ater apenas ao que recebemos quando éramos crianças. A tecnologia, por exemplo, tem uma influência enorme na infância, desde que nossos filhos são bebês – até mesmo porque nós, pais, estamos quase sempre conectados.

O debate sobre a igualdade de gêneros é outro tema necessário se quisermos criar pessoas gentis, tolerantes e capazes – tanto para serem felizes como para construírem um mundo melhor. Nessa reflexão diária sobre palavras e ações que podem, mesmo sem querer, reforçar posturas machistas (até porque essa visão de mundo ainda está arraigada em muitos de nós), acabei lendo o livro “Para Educar Crianças Feministas, um Manifesto”, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche.

Na forma de uma carta a uma amiga, ela reflete sobre como meninas e meninos são criados – e como os estereótipos são reforçados com frases como “isso não é coisa que menina faça”. Menina ou pessoa? Uma menina não pode jogar um brinquedo no chão mas um menino pode? Ou uma criança não deve jogar as coisas no chão? Enfim.

Um trecho se tornou bem especial para mim, que estou esperando o Vicente e procuro criar a Donatella com a liberdade para que ela seja o que quiser ser, em suas escolhas e brincadeiras infantis. Diz Chimamanda:

“Uma americana, me contou uma vez que levou o filho de um ano a um espaço de recreação infantil em que várias mães levavam seus bebês, e percebeu que as mães das meninas eram muito controladoras, sempre dizendo ‘não pegue isso’ ou ‘pare e seja boazinha’, e que os meninos eram incentivados a explorar mais, não eram tão reprimidos e as mães quase nunca diziam ‘seja bonzinho’. Sua teoria é que pais e mães inconscientemente começam muito cedo a ensinar às meninas como devem ser, que elas têm mais regras e menos espaço, e os meninos têm mais espaço e menos regras.”

Essa passagem foi muito certeira e me remeteu a dezenas de vezes que estive nessa situação, em pracinhas e parques, vendo mães de meninos dizerem para eles correrem e pularem ou justificando algo que eles não deveriam ter feito com “ah, coisa de menino”. Por outro lado, mães de meninas censurando as filhas repetidas vezes com o mesmo chavão, só que invertido pela mesma lógica machista: “isso não é coisa que menina faça”.

Acho que está mais do que na hora de sermos mães. E ponto. Não mães de meninas ou de meninos – o que por si só já implica em uma postura diferente para cada “maternidade”(e me refiro a questões de caráter, educação e valores, não biológicas). Precisamos ser mães de crianças. Livres, alegres, respeitadoras, gentis, curiosas e questionadoras. Só assim poderemos criá-las para que se tornem homens e mulheres autênticos e felizes, para além de estereótipos.

Um beijo e até a próxima,

Rafa Donini.

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