Dar e receber: o perfil do seu filho começa dentro de casa e durante a infância

Por trás deste comportamento existem tendências que variam do egoísmo máximo, ao altruísmo máximo

(Foto: Getty Images)

Dar e receber. Essas são duas palavras – ou melhor, dois verbos – que são simples e até bem desgastados pelo uso frequente e popular em nosso dia a dia. Mas acabamos usando sem muita reflexão a respeito do significado.

Mas existe uma teoria sobre dar e receber no campo dos afetos, das emoções e dos sentimentos. É sobre isso que vou falar hoje. Sobre “doadores” e “receptores”.  

Se vocês perceberem, vemos tendências gerais no comportamento das pessoas pela simples observação: umas são mais do tipo “doadoras”, seja de tempo, atenção, afeto, presente, dinheiro, e etc. Enquanto outras pessoas tendem a ser mais “receptoras”, e acabam recebendo  dos outros muito mais nestes aspectos acima colocados, e entre outros. 

Por trás deste comportamento existem tendências que variam numa escala entre dois extremos: que vai do egoísmo máximo, ao altruísmo máximo.

Os  egoístas são os que tendem ao estilo demandador, sempre querem mais afeto, atenção, bens e serviços. Sempre acham que poderiam receber mais dos outros a sua volta, seja dentro ou fora da família. Não percebem as necessidades dos outros, têm “olhos” só para si mesmo. Em geral, estão sempre insatisfeitos com o que recebem, e querem mais. São pessoas bem exigentes. 

Os altruístas são os que tendem ao estilo doador, sempre estão oferecendo mais de si para os outros, sejam nas relações pessoais ou profissionais. Ao contrário dos egoístas, estes só têm “olhos ” para os outros, querem sempre agradar e favorecer aos outros, inclusive em detrimento de seus próprios interesses e necessidades pessoais. Na verdade, o prazer dessas pessoas é se doar. São pessoas extremamente generosos e servis.  

Os egoístas, ou receptores, são por excelência egocêntricos, repletos de necessidades e carências de todos os tipos, e precisam de grandes doses de esforço de todos a seu redor para lhe satisfazer. E mesmo assim, continuam pedindo mais e mais. São insaciáveis. É como você se sentisse sempre “devendo” algo para tal pessoa. 

Os altruístas pelo contrário, se satisfazem com pouco, e nada exigem para si. Eles preferem ajudar aos outros, independente de estarem precisando ou não. Querem ser úteis de qualquer maneira. O grande objetivo do altruísta é se dedicar aos outros, às causas alheias. Estão sempre em busca de necessitados e carentes para se ocuparem.

Mas sabe o que acontece com estes dois estilos com alta frequência em termos relacionais? Ambos se escolhem como parceiros, pois cada um tem tudo o que o outro precisa para se sentir bem. Um sempre está se doando e o outro está sempre recebendo. Estabelece-se um padrão relacional fixo, que mantém a “liga” entre eles. Cada um se sente bem ao lado do outro até que algo inusitado possa fugir deste padrão relacional. E se algo inusitado não acontecer, pode ser uma parceria eterna e completa. Numa outra coluna vou escrever sobre as dinâmicas básicas da origem dos casais.  

Voltando ao tema de hoje, “dar e receber”, é importante saber que os dois estilos começam a ser construídos ainda na primeira infância, desde o nascimento do bebê as situações já vão se configurando de tal maneira a construir indivíduos doadores ou receptores. 

Quando os pais fazem todas as vontades dos filhos sem frustrá-los, eles acabam se sentindo o centro das atenções do universo e criam uma identidade exageradamente auto-centrada, onde suas necessidades e desejos devem ser sempre atendidos, independentemente de qualquer circunstância. 

Já o altruísta, com certeza teve uma história bem diferente na família, onde provavelmente para se fazer notar e receber atenção teve que se esforçar, e para agradar seus progenitores ou cuidadores também. Possivelmente não chorava para pedir alimento, pois inconscientemente não queria perturbar ou incomodar seus pais. E essa dinâmica, como disse anteriormente, inicia-se muito cedo na família, pois tem a ver com a história pregressa dos próprios pais na respectivas famílias de origem. São as chamadas transmissões geracionais, que se dão inconscientemente de uma geração para outra, assunto que tanto comento aqui com vocês. 

Por trás deste comportamento existem tendências que variam do egoísmo máximo, ao altruísmo máximo (Foto: Getty Images)

É importante se auto-observar e ver qual é sua maior tendência: mais para doador, ou mais receptor? Lógico que cada estilo tem suas vantagens e desvantagens no mundo em que vivemos, mas ambos os estilos quando polarizados num dos pontos extremos da escala são fruto de inadequação e causam sofrimento pela rigidez existencial. 

O mais saudável, sem dúvidas, é atingir uma posição flexível, onde buscamos construir uma reciprocidade relacional na vida adulta, sem fixar nas posições infantis que carregamos. Na verdade, enquanto seres humanos inteiros, temos ambas as necessidades psicológicas dentro de nós, tanto de dar, como de receber, e se pudermos ensinar logo cedo aos nossos filhos, mais fácil será  introjetar essa dinâmica. Os filhos que entendem que devem ficar no lugar de filhos e aprendem a esperar e a não ter todas as suas solicitações atendidas prontamente, vai percebendo que todos são importantes na sua família, e que todos têm sua vez. Ele [o filho]  não precisa ser o rei, nem o súdito da família. Mas pode ter um lugar mais equilibrado, que o prepare para lidar com o mundo como ele é: com realizações e frustrações.  

Não é fácil, mas necessário entender que família é fábrica de gente, então vamos ajustar nossas expectativas e habilidades para transformar nossos filhos numa geração melhor do que a nossa.

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