Criando filhos com afeto: libertando eles de papéis que aprisionam

Será que existe um prazo máximo onde podemos criar nossos filhos com afeto? Será que existe um ponto de não retorno na parentalidade?

Quando nós temos um bebê e ele começa a crescer, começamos a nos preocupar com o peso das nossas palavras e a perceber que nossos filhos conseguem entender muito mais do que nós imaginamos, mesmo que eles mesmos não consigam se comunicar perfeitamente através da fala.

Precisamos ensinar nossos filhos que eles podem experimentar e ser diferente
Precisamos ensinar nossos filhos que eles podem experimentar e ser diferente (Foto: iStock)

Apesar de sabermos do poder que a nossa fala tem perante os nossos filhos, na realidade, nós não temos noção do tamanho desse poder. A maneira que vemos nossos filhos pode influenciar não somente como as crianças se veem, mas também como se comportam. Em outras palavras, se todos que você ama (e tem como modelo) dizem que você é uma criança “preguiçosa”, você acaba realmente se tornando uma pessoa preguiçosa, porque aquele foi o papel que lhe foi atribuído.

É como se fosse uma profecia autorealizável: acontece porque todos acreditam nela e fazem com que ela se torne realidade. A questão é que, às vezes, até um papel positivo pode ser também uma prisão. O perigo desses papéis é que eles aprisionam. Uma vez estabelecido um papel, a criança passa a pensar que só tem valor naquele contexto se seguir aquele papel. E, dependendo de como é o relacionamento dos pais com a criança, ela pode concluir que só pode ser amada se seguir o papel.

Em resumo, um menino inteligente não se arrisca a usar a criatividade e liberdade em um trabalho escolar porque tem medo de tirar uma nota ruim e, por consequência, perder o seu valor enquanto pessoa. Uma menina preguiçosa continua sendo preguiçosa porque é assim que ela encontra seu lugar na família dela. E por aí vai.

De todo modo, precisamos parar e refletir um pouco para entendermos que, embora não seja tão perceptível no dia a dia, o poder da nossa fala é imenso sobre aquilo que nossos filhos percebem de si mesmos. Parte da construção do que eles pensam sobre eles mesmos depende também do que nós dizemos a eles.

Classificar e rotular nossos filhos sempre terá um efeito limitador sobre eles mesmos, sendo este rótulo positivo ou negativo. Um filho preguiçoso será preguiçoso porque, afinal, é o que dizem que ele é. Uma filha teimosa será teimosa porque é nisso que ela é “boa” em fazer. Um filho “bonzinho” sentirá toda a pressão para atender essa expectativa. Uma filha “responsável” só pensará que tem valor naquela família se for responsável.

E o que eu quero para os meus filhos? Eu gostaria que eles fossem felizes e livres, mas que a busca pela felicidade e liberdade também não sejam a maior prisão de suas vidas. Espero que eles consigam, porque é difícil, viu?