Por onde será a transformação dos homens?

Um papo honesto e aberto sobre como agimos ao longo de 2020, em busca de desconstrução

Não sei se você percebeu, mas junto com o isolamento social, fomos bombardeados o ano inteiro com novos desafios e metas, justamente porque estávamos em casa. Cursos online gratuitos, lives de crossfit, tudo porque deveríamos aproveitar a quarentena para nos qualificar e “entrar em forma”, sem contar os livros que todo mundo estava lendo e a produtividade elevadíssima no trabalho. Ufa!

Quebrar estereótipos para se encontrar (Foto: Getty Images)

Eu realmente não fui dos mais eficientes. Ganhei alguns quilos, não li centenas de livros, não ouvi mil podcasts, não fiz cursos online e definitivamente não fui o suprassumo da produtividade no trabalho. Com três filhos em casa e sozinho com a minha companheira, eu já me dava por vitorioso se eu conseguisse terminar o dia com a cozinha minimamente limpa e sem ter gritado com os meus filhos.

Por outro lado, esse ano foi bem interessante para mim, no que diz respeito à minha própria masculinidade. Talvez por estar isolado de tantas pessoas, pude aproveitar alguns momentos para olhar para dentro com mais atenção. Você sabe, né? Se existe algo que nós, homens, não fazemos, é olhar para dentro. Olhar para os sentimentos, mais difícil ainda. Externá-los então? Jamais!

São anos, décadas, ouvindo que homem tem que ser forte, que sentimentos são coisas de pessoas fracas, que vulnerabilidade é coisa de “mulherzinha”. Foi então que, durante esse período de quarentena, pude olhar para os sentimentos de carinho e amizade que existem dentro de mim, e perceber que eu, apesar de amar algumas pessoas muito queridas, raramente dizia a elas sobre o que eu sentia. Especialmente se essas pessoas fossem homens.

Não vou dizer que foi extremamente fácil, porque ainda há muito machismo enraizado aqui dentro, mas senti uma enorme satisfação de conseguir enviar para alguns amigos, mesmo que em mensagens privadas no WhatsApp, mensagens como: “Ei, cara, queria dizer que eu te amo, viu?”. Era só isso que eu queria dizer mesmo. Para minha total surpresa e alegria, ouvi alguns “eu te amo” de volta.

Pode parecer bobo, mas considerando que os homens não são ensinados a amar e a se deixarem amar desde crianças, eu acho que esse é um passo fundamentalmente transformador. Mas, de longe, o que foi mais profundo para mim foi o dia em que eu me olhei no espelho do banheiro, ao final de um dia especialmente difícil com as crianças, me sentindo extremamente exausto e culpado por tudo o que eu fiz – ou não consegui fazer – e disse para mim mesmo: “Ei, cara, eu te amo, viu?”. Anote aí, a transformação dos homens virá pelo afeto.