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O corpo e a equilibrista

Especialmente na maternidade, nosso foco se dilui entre tantas tarefas que esquecemos do valor do nosso corpo para nos manter prontas para carregar e sustentar nossas vidas equilibristas

Nesta vida corrida, jogar a luz para nosso corpo pode parecer complicado, mas precisamos começar a prestar atenção nos sinais que ele nos dá e ir ajustando nossa rotina a isso (Foto: iStock)

Muitas inspirações me levaram a escrever este artigo para minha coluna da Pais e Filhos. A começar pela música de Aldir Blanc que se consagrou na voz de Elis Regina, O bêbado e a equilibrista. Em seus versos, já no final da música, reflete sobre viver a vida na corda bamba:

“Dança na corda bamba de sombrinha

E em cada passo dessa linha pode se machucar

Azar, a esperança equilibrista

Sabe que o show de todo artista tem que continuar”

Nossas vidas como mães e pais que equilibram pratinhos conciliando múltiplos papéis nos faz bem próximos do bêbado de Aldir Blanc. Dançamos na corda bamba, achamos que vamos cair e fazemos tudo para não nos machucar. Ou nosso maior temor, machucar nossos filhos.

Embalada pela música, quero aqui trazer o foco não para nossas cabeças culpadas e conflitantes, mas sim para o corpo da equilibrista que precisa estar sempre a postos. Afinal, qualquer deslize, a corda está bamba e pum! Caímos, nos machucamos e o corpo sofre. Dores da alma mas também dores de corpo.

Sinto que nosso olhar vai exageradamente para nossas cabeças, sentimentos e emoções e nos esquecemos de que dependemos de nosso corpo para nos equilibrar e nos manter firmes na corda bamba da vida. Isso não significa desprezar a cabeça e as emoções que nos atormentam cotidianamente mas sim termos a consciência de que ela dependerá de nosso corpo para funcionar bem e até mesmo para carregá-la.

Mães e pais, especialmente aqueles com filhos pequenos, negligenciam seus corpos. Não digo do ponto estético, pois isso é uma opção de cada um, mas sim do ponto de vista da saúde, de seu valor para nos mantermos vivos por inteiro. Relaciono a seguir algumas áreas que mostram como nosso corpo equilibrista sofre e, acima de tudo, como precisamos parar e estar atentos a ele:

1. Talvez este seja um dos aspectos mais visíveis da mudança de estilo de vida no momento em que chegam nossos filhos. Aliás, talvez até mesmo já nas últimas semanas de gravidez. Poucas horas de sono, sono interrompido, rotinas alteradas. Não é preciso explicar muito, o corpo equilibrista sofre, afinal, a nossa biologia segue a mesma e ressente-se de noites mal dormidas. O resultado, além das visíveis olheiras, é o peso que carregamos em nosso corpo a partir de sucessivas noites interrompidas.

2. Corre-corre. A equilibrista parada na corda bamba cai. Parece que o estado permanente da vida de equilibrista é o de estarmos 100% em atividade, seja em casa, seja no trabalho, ou nos deslocamentos de um para outro. Um corpo demandado 24 horas, dia e noite. Corremos para o trabalho, para casa, para o supermercado, para a escola dos filhos.

Cansaço, falta de ar, dor de cabeça são todos sinais de um corpo que está trazendo avisos. Resta-nos termos tempo e atenção para ouvi-lo. Corpo precisa de parada, de respiro, de sentarmos no sofá. Precisamos algumas vezes respeitar os sinais de que ele está sofrendo.

3. Coração:Doenças do coração eram coisas de homens. Como bem diz o cardiologista, Dr.Otávio Celso Eluf Gebara, autor do livro “Coração de Mulher”: “Com a rotina mais atribulada do que nunca e a expressiva participação no mercado de trabalho, além da segunda jornada em casa, o universo feminino passou a conviver com fatores de risco silenciosos como o colesterol alto, a hipertensão, além do sedentarismo e tabagismo e, consequentemente, maior risco de um infarto – que antes era associado somente ao sexo masculino. A maioria das mulheres, e boa parte dos médicos não têm plena consciência desse risco”.

A fala dele resume tudo. Nosso ritmo de vida traz ameaças ao nosso coração, esse músculo que nos mantém pulsantes está nos mandando também outro recado. Acalme-se, respire, desacelere. É o alerta que nosso coração nos dá para olharmos para ele como deveríamos.

4. Nutrição: Corre-corre, sem tempo para refeições, comida dentro do carro, em cima da mesa, muitas embalagens e pouca saúde em nossos pratos. Novamente trago a palavra de quem entende, trazendo pistas para um corpo bem nutrido e preparado para nossas rotinas equilibristas. Adriana Savoldi, Health Coach pelo Integrative Nutrition, comenta: “Para cuidar do nosso corpo e da nossa energia com carinho e generosidade é preciso olhar para o nosso ‘prato’ de comida.

Alimentos frescos, minimamente processados, lanches mais naturais (como frutas e castanhas), comida feita em casa e preparações simples. Comece devagar, aproveite e respire. Comer bem é uma forma de nutrir energia”. Simples mas pouco praticado em nossa rotinas atribuladas, certo?

Claro que poderia me estender trazendo outras áreas de sofrimento do corpo, mas me concentrei naqueles mais visíveis em minha própria vida. Esta pauta está cada vez mais presente em minha vida. Não por acaso, acabo de iniciar um curso no Sedes Sapientae, na área de Psicologia Analítica integrada a uma perspectiva corporal. Busco cada vez mais trazer essa visão integrativa de corpo e mente para minha profissão e também para minha vida.

Somos o todo, não apenas um nem o outro. Especialmente na maternidade, nosso foco se dilui entre tantas tarefas que esquecemos do valor do nosso corpo para nos manter prontas para carregar e sustentar nossas vidas equilibristas. Sem ele não somos nada. Não podemos dar carinho nem amor para nossos filhos. Não podemos correr de um lado para o outro. Não seremos competentes no trabalho. Nosso corpo pode nos limitar ou nos fazer avançar.

Nesta vida corrida, jogar a luz para nosso corpo pode parecer complicado, mas precisamos começar a prestar atenção nos sinais que ele nos dá e ir ajustando nossa rotina a isso. Tudo é uma questão de planejamento, coisa que mães sabem fazer muito bem, pelo menos no que se refere aos nossos filhos.

O corpo nos diz muitas coisas, o corpo fala todos os dias, basta querermos escutá-lo e, a partir disso, respeitá-lo, e a nós mesmas. Vamos juntas?

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