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Será? Será?

A nossa fala interna nos vê como melhores pais quando abrimos mão de coisas nossas em prol dos filhos

A nossa fala interna nos vê como melhores pais quando abrimos mão de coisas nossas em prol dos filhos (Foto: iStock)

“De todo modo, em vez de dizerem: ‘Faço isso pelos filhos – isso pode se realizar no futuro’, tentem fazer as coisas por vocês mesmos, aqui e agora. Aí verão se é possível ou não. Se vocês adiarem a busca da felicidade para os filhos, vocês deixam a herança de alguma coisa que não ousaram realizar…se deixam para o futuro (a felicidade), deixam menos que nada para os filhos: deixam um mau exemplo.”

A citação acima foi escrita em 1939 por Carl Jung, em suas reflexões acerca da famosa obra de Nietzsche, “Assim falava Zarathustra”. Entre essa reflexão e nossos dias lá se vão 80 anos. Nem parece: para mim soa como se tivesse sido escrita hoje! Penso em como, nós no papel de mães e pais, deixamos nosso bem estar de lado apostando na felicidade futura dos filhos.

A nossa fala interna nos vê como melhores pais quando abrimos mão de coisas nossas em prol dos filhos. Planos de trabalho, de viagem ou de um simples encontro com amigos ficam adiados, afinal, filhos vêm sempre em primeiro lugar, certo? Será? Será que é isso o que devemos fazer por eles? É abdicarmos de nossa felicidade que resultará em filhos mais felizes?

Por um lado, podemos argumentar que somos felizes quando estamos vivendo integralmente para os filhos, afinal, eles ficam felizes quando deixamos de lado uma viagem a dois para ficar mais tempo próximo a eles, ou quando resolvemos abandonar uma carreira que gostamos pelo bem estar dos filhos.

Novamente acho que vale uma reflexão nossa sobre isso e não apenas nos contentarmos com uma visão simplista sobre o tema. Talvez, ao abdicarmos de coisas nossas em prol dos filhos estejamos colocando na conta deles elas desistências sobre nós mesmos e um dia essa fatura será cobrada. Quem já não ouviu pais e mães falarem: “Mas eu fiz isso por você, para o seu bem….” Será mesmo? Ou será que o melhor ensinamento que podemos dar para nossos filhos não seja mostrar que os pais são sujeitos que cuidam de si, que zelam por suas felicidades, que batalham por seus sonhos? Algo como novamente relembra Carl Jung: “Se os pais podem cuidar de si mesmos, os filhos também poderão. Eles não ficarão procurando a felicidade para os netos, mas o farão para terem, eles mesmos, uma razoável porção de felicidade”.

Será que não somos egoístas se cuidamos de nós mesmos em primeiro lugar? Com certeza esse é uma dúvida que nos persegue mas que vale nos debruçarmos sobre ela e não rapidamente engolirmos tal culpa sem dar a ela seu devido tempo de digestão. Em minhas pesquisas com pais, mães e filhos observo que a felicidade de nossos filhos está diretamente relacionada à felicidade dos pais. Pouco importa a escolha de mães, trabalhar fora ou não, desde que seja uma decisão que as façam se sentir bem, em paz com suas escolhas.

De uma coisa tenho certeza: somos modelos para nossos filhos. Para o bem ou para o mal. Modelo mais por aquilo que fazemos e sentimos do que por aquilo que falamos. Qual o modelo de felicidade queremos passar a eles? Será de alguém que luta por sua felicidade ou de alguém que abre mão dos seus sonhos?

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