6 dicas para desapegar do mau comportamento do seu filho e como isso pode mudar a sua vida

Temos o costume de achar que certos comportamentos desafiadores e hábitos “ruins” dos nossos filhos fazem apenas parte de quem eles são. Mas como Harold S. Koplewicz, conselheiro da revista americana Parents e médico escreveu em seu novo livro ‘O efeito andaime’, nossa compreensão dos nossos filhos pode ser distorcida pelas nossas percepções. Veja como treinar seu cérebro e explorar o verdadeiro potencial do seu filho

Resumo da Notícia

  • Temos o costume de achar que certos comportamentos desafiadores e hábitos “ruins” dos nossos filhos fazem apenas parte de quem eles são
  • Mas como Harold S. Koplewicz, conselheiro da revista americana Parents e médico escreveu em seu novo livro ‘O efeito andaime’, nossa compreensão dos nossos filhos pode ser distorcida pelas nossas percepções
  • Saiba como treinar seu cérebro e explorar o verdadeiro potencial do seu filho - não vai ser fácil, mas é uma caminhada que vale muito a pena, por você e por ele!

“Uma mulher que eu aconselhei chamada Claire veio até mim porque ela estava passando por um momento difícil com seu filho, Daniel”, Harold S. Koplewicz, conselheiro da revista americana Parents e médico, conta. Poucos minutos depois de entrar numa sala, o menino de 7 anos iria derramar ou quebrar algo. Claire foi atrás dele, avisando-o para ir mais devagar. Quando o acidente aconteceu, ela gritou com ele e pediu por um tempo, que às vezes ele obedecia. “Parece que ele corre por aí só para me irritar”, ela disse. Claire registrou apenas a desobediência. “Meu filho adora me colocar em situações difíceis. Meu maior medo é que seja assim pra sempre”.

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Embora Claire não tenha percebido isso, o seu estilo parental foi desenhado a partir de dois instintos que não são efetivos para criar crianças independentes e confiantes no mundo em que vivemos hoje. O primeiro foi o que chamamos de ‘rastreamento negativo’, ou apenas perceber o que é ‘errado’. Se você está sempre evidenciando o que seu filho não pode fazer, você não está ensinando o que ele deveria fazer. Neste caso: Claire apenas focou nos comportamentos problemáticos de Daniel.

O segundo instinto é o de confirmação e tendência a usar situações para comprovar opiniões que você já tem. Isso cria o que psicólogos chamam de profecia autorrealizável – que é criar uma crença tão forte, que ela acaba se realizando – para crianças “más” e para crianças “boas”, que lutam para corresponder às expectativas de seus pais. Eles costumam definir seus filhos como “a estrela” ou “o encrenqueiro”, e acabam se apegando a essas definições, apesar das evidências contraditórias. “Daniel tem apenas 7 anos e Claire já decidiu que ele vai frustrá-la pelo resto da vida”, o especialista pontua. Mas calma, ainda é possível reverter esse roteiro e dominar esses instintos.

Reconheça os pontos positivos

“Eu costumo mostrar aos pais uma foto com 20 crianças num parquinho e peço que me digam o que notaram primeiro. Eles geralmente percebem a criança que está com o dedo no nariz, ou aquela que está chorando, ou a que está se preparando para bater em um colega. O que eles não percebem são as crianças que estão brincando juntas, que parecem calmas e aquelas que estão convidando o colega para participar da brincadeira”, diz Harold S. Koplewicz.

Você pode estar se perguntando: então devo focar apenas no que é positivo e fingir que os comportamentos negativos não estão acontecendo? Não. Recalcule a rota da sua parentalidade de maneira que você possa observar todos os comportamentos do seu filho. “Se você conseguir prestar mais atenção nos comportamentos positivos do seu filho, verá eles mais do que imagina”, diz David Anderson, Ph.D. e psicólogo clínico do Instituto da Mente Infantil, em Nova York.

Temos o costume de achar que certos comportamentos desafiadores e hábitos “ruins” dos nossos filhos fazem apenas parte de quem eles são (Foto: Getty Images)

Claire poderia tentar focar no oposto do Daniel derramando as coisas, que poderia ser, por exemplo, celebrar todas as vezes que ele bebe um copo de suco sem incidente. Uma vez que você tenha esses ‘opostos’ em mente, tente percebê-los – e elogie seu filho quando isso acontecer. Diminua o seu nível de estresse com uma criança que acorda cinco vezes por noite, e reconheça quando ela conseguir ficar pelo menos uma noite inteira.

Tente visualizar uma proporção de três para um em relação a apreciação e crítica. É difícil de fazer quando você apenas percebe o lado negativo, mas a recompensa a longo prazo vale a pena. “Aprecie seu filho quando ele fizer algo positivo, diminua a gritaria e o foco nos comportamentos negativos, e você verá uma mudança real de comportamento”, diz. Dr. Anderson.

Pratique, pratique, pratique

Existe um método para superar os instintos ‘menos úteis’, chamado de ‘superaprendizado’. A dica é: nos primeiros meses tente focar numa proporção maior do que três para um para ‘superaprender’ a prática de valorizar o positivo, mais do que criticar o negativo. É preciso ter disciplina, mas se você puder tentar fazer isso por um tempo, vai perceber a mudança no comportamento do seu filho. Se essa mudança durar alguns meses significa que você está conseguindo atingir o objetivo.

Realmente exagere no elogio e apreciação do seu filho, mesmo que pareça um pouco forçado pra você. Se o seu filho deixa de bagunçar toda a comida, por exemplo, vale dar uma exagerada na fala, não é mesmo? Uma mãe disse que superou a estranheza e começou a usar o termo ‘cara’ para elogiar o filho – e funcionou melhor do que você imagina. “De alguma forma deu tudo certo. Eu passei a falar: ‘cara, obrigada por manter sua comida no prato. Cara, obrigada por ser educado com a sua irmã’”, ela conta. “Em qualquer outro contexto, falar ‘cara’ poderia ser muito esquisito. Mas neste caso, tem me ajudado muito”. Ou seja, faça o que for preciso para dar certo, cara.

De olho em tudo

Durante duas semanas finja que seu filho é um experimento científico e que você é o cientista. Escolha um comportamento problemático para estudar e comece a coletar dados. Já que a hora de dormir é uma reclamação popular entre os pais, vamos usá-la como exemplo: todas as noites conte quantas vezes e por quais motivos seu filho sai da cama. Registre como você reage a isso. Além disso, fique de olho em quantas vezes ele não saiu da cama.

“Pais tendem a se concentrar nas duas vezes na semana em que os filhos quebraram as regras da hora de dormir, especialmente se isso causou um estresse com choro e gritaria. Eles parecem esquecer sobre as outras três noites que a criança foi dormir numa boa, ou que reclamaram pouco e se acalmaram rapidamente”, o especialista diz. Se os seus dados coletados mostram que o comportamento do seu filho foi positivo na maioria das vezes, então talvez você aprenda a relaxar mais na hora de dormir, em vez de ficar alerta a ponto de causar um nervosismo em todos. Com as suas anotações, você pode literalmente olhar para os números e ver que duas noites que seu filho te deu um pouco mais de trabalho, você gritou apenas uma e conseguiu controlar seu estresse. Na próxima semana, você pode tentar se esforçar para superar os seus ‘números negativos’ também.

É preciso ter disciplina para tentar mudar o foco e se concentrar apenas nas coisas positivas, mas se você puder tentar fazer isso por um tempo, vai perceber a mudança no comportamento do seu filho (Foto: Getty Images)

Quando você presta mais atenção em você mesma e no seu filho usando esse tipo de análise, acaba aprendendo o que funciona e o que não funciona na sua casa – assim, as noites mal dormidas ficam cada vez mais distantes e mais curtas. Esse exercício vai te ajudar a visualizar o que dá certo e o que dá errado, e permite que você use essas informações para o bem de todos.

Desista de estar sempre ‘certa’

“Toda vez que ouço um pai dizer algo parecido com o que Claire disse, ‘Daniel é um encrenqueiro’, uma bandeira vermelha aparece na minha mente. Ela tem uma ideia fixa sobre o filho, e isso é difícil de mudar”, Dr. Harold diz.

Se você pensar: ‘meu filho é ruim em matemática’, você provavelmente ficará ansiosa em relação a isso. Mesmo que seu filho vá bem na matéria, você pode não conseguir se livrar do sentimento de ansiedade. “Quando um menino que chamarei de Victor estava no Ensino Médio, ele não se preocupava com os estudos e falava abertamente sobre seu desdém com a escola e professores. Os pais dele passavam por poucas e boas apenas para conseguir fazê-lo ir para a aula todos os dias. Ainda assim, de alguma maneira, ele conseguiu chegar ao Ensino Médio, e aí foi que ele teve o click. Inspirado pelos novos professores, ele começou a se importar com as aulas. Mas mesmo depois de meses, os pais dele pareciam não ter percebido a mudança de comportamento dele, e continuavam gritando com ele todas as manhãs sobre chegar atrasado – mesmo que ele não tivesse perdido hora nenhuma vez. Ele continuava as sessões de lição de casa à noite, mesmo que por uma motivação e iniciativa interna dele. Um ano depois, os pais perceberam a evolução dele e que ele estava indo bem, mas ainda tinham medo de que ele voltasse a ser a criança que eles ‘sabiam’ que ele era. Victor conseguiu fazer uma mudança contínua por conta própria, mas a melhor maneira desse tipo de situação acontecer é quando os pais acreditam nos seus filhos – reforçando as coisas boas e não apenas assumindo que o sucesso é um acaso”, o médico conta.

Assim como todos já experimentamos, o sucesso não é uma linha reta e inabalável. Terão curvas, altos e baixos, quedas e retrocessos. Mas crianças (e adultos também) podem se recuperar mais rapidamente se eles sentem que as pessoas ao redor dele acreditam no potencial deles e a apoiam.

Evite criar expectativas limitantes

Suas crenças influenciam como você trata o seu filho, seja para o bem ou para o mal. Esse fenômeno, chamado de Efeito Pigmalião na psicologia, foi comprovado em 1964 por um professor da Harvard, chamado Robert Rosenthal, que fez um experimento fascinante com alunos e professores do Ensino Fundamental em São Francisco. Ele criou um teste de QI falso, colocou o selo da Harvard nele e informou aos professores que esse novo teste poderia prever o sucesso acadêmico e testou ele em 18 salas de aula de crianças. Ele escolheu 20% dos alunos aleatoriamente e disse aos professores que o QI deles iria ‘florescer’. Nos dois anos seguintes, Dr. Rosenthal rastreou as pontuações reais do QI dessas crianças – e em comparação com as outras 80%, a pontuação deles realmente disparou. Dr. Rosenthal então concluiu que os professores deram aos estudantes escolhidos aleatoriamente mais tempo, atenção e incentivo, o que se refletiu em mais ganhos de QI. A expectativa tornou-se realidade.

Para reafirmar essa pesquisa, basta olhar para o seu próprio passado. Quais crenças e expectativas dos seus pais ou professores tinham em você que você manteve durante a sua infância, adolescência e trouxe até a vida adulta? Como sua vida teria sido diferente se você não tivesse carregado essas expectativas?

Quais crenças e expectativas dos seus pais ou professores tinham em você que você manteve durante a sua infância, adolescência e trouxe até a vida adulta? Como sua vida teria sido diferente se você não tivesse carregado essas expectativas? (Foto: Getty Images)

Claire, a mãe do ‘encrenqueiro’ Daniel, falava sobre a sua opinião negativa sobre o filho para os familiares e amigos diariamente, como se os chamasse para comprovar seus pensamentos. “Depois de eu explicar para ela como o foco negativo e a tendência de confirmação estavam prejudicando a mudança de comportamento do Daniel para o positivo, ela ficou chocada. A supervigilância dela e as críticas estavam criando a profecia autorrealizável – que é criar uma crença tão forte, que ela acaba se realizando. Daniel, em sua necessidade de atenção, correspondeu às expectativas dela. Junto com a introdução desse conceito de valorizar o comportamento oposto e rastrear as habilidades dele, sugeri que Claire fizesse uma avaliação de TDAH no Daniel”, conta o médico.

“O comportamento dele pode não ser culpa dele”, ele usou para finalizar. Antes disso, Claire nunca havia pensado na possibilidade de que Daniel corria de um lado para o outro por qualquer outro motivo que não fosse ‘apenas o jeito dele’. “No fim das contas, os testes mostraram que ele tinha TDAH grave”, ele acrescenta.

Descubra seu filho

A maravilha de ser pai ou mãe é olhar para aquela pessoa que você criou e se perguntar: ‘Quem realmente é ele?’. “Pouco tempo atrás um dos meus filhos teve um bebê. Minha esposa e eu não temos ideia de quem é nosso neto. Neste momento, ele tem apenas cerca de 7 quilos. Ele se mostrará para nós gradualmente, enquanto ele, e nós, vamos descobrir o mistério de quem ele realmente é. Enquanto isso, estaremos apoiando e ajudando ele, guiando e nos maravilhando (e elogiando) tudo o que ele fizer de certo, permitindo que ele se torne quem ele realmente é: ele mesmo, em vez das nossas ideias e expectativas sobre quem ele deveria ser”, Dr. Harold finaliza.

Se eu mudar meu jeito de educar, meu filho vai mudar também?

Se você controlasse seu foco no negativo apenas hoje, levaria cerca de três meses para notar a mudança no comportamento do seu filho. Mas você vai encontrar sinais encorajadores no caminho!

  • Depois de duas semanas, você vai sentir menos resistência em mudar o seu foco das coisas negativas
  • Depois de quatro semanas, por meio do ‘superaprendizado’, você terá aumentado a proporção de foco nas coisas boas e apreciação e vai conseguir notar algumas mudanças no comportamento do seu filho
  • Depois de seis semanas, seu filho terá um bom comportamento quase que constantemente
  • Depois de oito semanas, você já estará acostumada a enxergar e valorizar como seu filho te obedece melhor agora
  • Depois de doze semanas, o novo comportamento – seu e do seu filho – deve estar completo, estabelecido e sólido

Para crianças com dificuldades graves, pode ser que leve de quatro a cinco meses para que os maus comportamentos parem. Para crianças típicas, pode demorar até dois meses. Mas se você tentar essa estratégia tempo suficiente para notar pequenas mudanças, é um sinal de que dará certo. De acordo com pesquisas (e a experiência do Dr. Harold) essas intervenções causam mudanças que continuam por seis meses, um ano, e até três anos de adaptação. Pode parecer um longo caminho, mas depois que a mudança for estabelecida o bom comportamento se tornará o novo normal.

Reproduzido do livro ‘The Scaffold Effect: Raising Resilient, Self-Reliant, and Secure Kids in an Age of Anxiety’, por Harold S. Koplewicz, que é médico, publicado pela Harmony Books, um selo da Random House, uma divisão da Penguin Random House LLC. Copyright © 2020 por Child Mind Institute, Inc.