Criança

Criação sem gênero: o que os especialistas acham sobre a tendência que está dando o que falar

As famílias que seguem esse tipo de criação dão nomes neutros aos filhos e não informam o sexo, até que a criança decida por conta própria

Gabriela Bertoline

Gabriela Bertoline ,filha de Maria José e Marcel

O que os pais que optam por esse tipo de criação normalmente tomam a decisão para que a criança não receba nenhum tipo de rótulo da sociedade (Foto: iStock)

Muito se fala sobre a criação sem gênero, mas você sabe o que isso representa de verdade? A criação com a perspectiva de um gênero neutro tem sido adotada por várias famílias e significa ter uma abordagem que sirva tanto para o gênero feminino quanto o masculino

O que os pais que optam por esse tipo de criação normalmente tomam a decisão para que a criança não receba nenhum tipo de rótulo da sociedade. E para isso, omitem a informação sobre o gênero da criança de quem não tem um contato próximo com a família. O objetivo é que, quando alcançar a idade em que comece a se perguntar sobre a própria sexualidade, a criança decida por conta própria, sem uma obrigação de seguir um determinado gênero por conta de uma pressão que a sociedade faz ou do sexo em que nasceu.

Essas famílias buscam por uma criação em que a criança possa ser mais independente, além de querer que seus filhos tenham a liberdade de poder escolher com que gênero se identificam mais. Mas, na prática, médicos e especialistas acreditam não ser possível educar as crianças desse modo. Muitos afirmam ser é impraticável seguir uma criação com gênero neutro, principalmente a partir do momento em que os filhos vão para a escola. A sociedade em que vivemos hoje divide as pessoas entre os gêneros feminino e masculino, como uma maioria. Os banheiros, linguagem, roupas e até mesmo os esportes seguem uma certa separação, então os pais acabam esbarrando nessas diferenças de gêneros conforme a criança vai crescendo.

Base biológica

Segundo Fabíola Salustiano, psicóloga cognitivo-comportamental, especialista em sexologia, neurocientista e membro da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (SBRASH) e mãe de Chrístopheer, Pedro Paulo e Davi, a criação sem gênero é um assunto extremamente delicado. “As consequências da criação sem gênero ainda não estão sendo estudadas, é uma coisa muito recente. As categorizações que já existem não servem apenas para rotular. Elas funcionam como auxílio. Se você não tivesse uma categorização de disforia de gênero, um transgênero que nascesse em um local muito isolado poderia sofrer consequências graves, por exemplo. Todas essas categorizações que são criadas e as pessoas pensam que só servem para catalogar e colocar em quadrados, na verdade são construídas para orientação das pessoas e para instrução dos profissionais que lidam com esses indivíduos, de forma que consigamos ajudar e fazer intervenções cada vez mais subjetivas”, explica. 

Os pais que adotam o gênero neutro para os filhos afirmam que esse tipo de educação serve para que tanto meninos quanto meninas sejam criados com igualdade, e que valorizem isso conforme forem crescendo e formando a personalidade própria. No mundo dos famosos a criação de forma neutra é algo recorrente. Celebridades como Angelina Jolie, Brad Pitt, a cantora Adele, Will Smith e a atriz brasileira Priscila Fantin criam os filhos deixando eles escolherem o que vestir, com o que querem brincar, sem separar de acordo com os estereótipos de gênero, como rosa para meninas ou azul para os meninos, por exemplo. Muitos casais vão além dos hábitos e estabelecem até mesmo um nome que seja neutro para a criança. Mas isso pode gerar alguns problemas, já que a escolha pode ser barrada pelo cartório onde a criança for registrada caso o nome seja visto e entendido como estranho. Por isso, é essencial ter bom senso na hora de escolher uma opção que não exponha a criança e não a coloque em situações desconfortáveis. 

A maior preocupação está na faixa-etária entre 2 aos 7 anos, quando a criança desenvolve a linguagem (Foto: Getty Images)

As fases de desenvolvimento da criança

Para Fabíola, as crianças têm níveis de desenvolvimento diferentes. “Existem muitas fases. Segundo Piaget, a primeira etapa descrita é a sensório-motor, que vai de zero a dois anos, quando a criança está na fase de desenvolvimento de consciência do próprio corpo. Ela passa pelo processo de depender muito da mãe, do cuidador e dos responsáveis, que estão sempre dando apoio. A criança começa a organizar suas percepções de mundo: a partir da inteligência prática, que é essa do choro, a percepção de esfíncter (o desconforto do xixi e do cocô). Neste estágio, a criança não foi nem para o lúdico.

Segundo a especialista, a maior preocupação está na faixa-etária entre 2 aos 7 anos, quando a criança desenvolve a linguagem. Essa é a fase das consequências, em que se dá início a um processo de muito aprendizado. São três fatores muito importantes que vão contribuir para a vida mental da criança:

 – Socialização de ação

“É a troca entre entes queridos, indivíduos, comunicação. A criança começa a ver que não basta chorar; ela tem que se comunicar. Começa a ver que se brigar com o amiguinho, ela perde o brinquedo. Começa a perceber o que é o social: como tem que se comportar em público, o tipo de roupa mais à vontade que usa em casa e que é diferente do que usa na rua, que tem um cachorrinho na rua, mas não pode colocar a mão como no de casa, porque pode ser mordida”.

 – Desenvolvimento do pensamento

“O que era externo e jogado para fora de maneira automática começa a ter um processamento cognitivo. A criança começa a pensar internamente antes de falar ou mesmo enquanto está falando. Ela pensa e fala. Começa a ver que dentro dela existe um mecanismo onde ela funciona sozinha. É aquele pensamento: de acordo com o que minha mãe e o amiguinho falaram, eu penso e falo”.

 – Finalismo

“É a fase dos porquês. A criança quer saber as respostas, fechar os ciclos, etapas, histórias e entender o porquê das coisas. Então, você tem um pintinho e ela tem uma pepeca. Por quê? E aí, o que você vai falar para essa criança? Que não importa? Que os dois são iguais? Essa criança está na fase pré-operatória, ela não vai entender”.

O que diz a lei

Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, quando se fala em proteção dos Pais e do Estado, é necessário deixar claro que a obrigação não é somente de garantir a integridade física, a alimentação, o esporte e o lazer, mas sim um conjunto de situações que permita à criança estar preparada para a vida social da melhor forma possível. Para o ECA, a criança está em uma condição de vulnerabilidade por ser dependente do auxílio dos pais, por isso criar um filho de forma neutra seria prejudicar o desenvolvimento dele, já que as decisões estão baseadas nos pais e não na vontade da criança.

Quais são as consequências

A especialista reforça a dificuldade ter provas científicas sobre a criação sem gênero: “É uma coisa muito atual, então, não se tem pesquisas feitas em larga escala, realmente validadas, publicadas por órgãos médicos, psicológicos ou instituições. Ainda não temos respostas científicas sobre o que pode acontecer às crianças que passam por este processo de socialização. Mesmo porque a formação de caráter do indivíduo vai dos 12 aos 14 anos”.

Por ser uma tendência recente, que vem acontecendo há cerca de cinco ou sete anos, as crianças que são criadas a partir de um gênero neutro têm em sua maioria no máximo 7 anos. “Muito esporadicamente, elas têm 10 ou 12 anos, mas o quantitativo ainda não é suficiente para que consigamos fazer um traço de pesquisa científica, que precisaria da investigação em uma população maior para não virar um relato de experiência própria. Mesmo porque são pais e pessoas próximas que veem o que está acontecendo e relatam. Não é a própria criança que passou por isso e agora é uma adulta, relatando quais foram as consequências da maneira pela qual ela foi criada, sem gênero”, complementa Fabíola. 

Para finalizar, a especialista explica um ponto importante da dificuldade de implantar essa criação dos filhos. “Nós estamos falando de crianças que têm que ser respeitadas, também, em suas perspectivas do que podem fazer. E a proposta da criação sem gênero é uma percepção adulta do que elas deveriam ser. Que crianças sejam crianças, que nós adultos deixemos que elas cresçam, se desenvolvam, entendam e escolham, que consigamos preparar o mundo para
respeitar as suas escolhas.
 Que crianças sejam crianças, que nós adultos deixemos que elas cresçam, se desenvolvam, entendam e escolham, que consigamos preparar  o mundo para respeitar as suas escolhas”.

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