Criança

Criança não namora: entenda os perigos de incentivar esse comportamento com o seu filho

Elas podem chegar em casa um dia dizendo que têm um namoradinho. Sua parte é explicar que namoro é coisa de adulto, que criança tem amigo

Jennifer Detlinger

Jennifer Detlinger ,Filha de Lucila e Paulo

Não dá para comparar o que as crianças chamam de namoro com o relacionamento dos adultos (Foto: iStock)

A infância é aquele momento gostoso da vida em que somos livres para nos divertirmos e sermos quem quisermos. Quando a criança começa a andar, a falar, a conhecer o mundo e, principalmente, o outro, passa a querer fazer o que todas as outras pessoas ao seu redor fazem. Andar de salto alto, passar maquiagem, usar o celular da gente, dirigir o carro da família… Namorar está na lista. Mas assim como ela não vai pegar a chave e sair com o carro da garagem, não vai namorar de verdade. Criança não namora. Tem amigos. Não dá para comparar o que eles chamam de namoro com o relacionamento dos adultos.

Passar a falar que tem um namoradinho ou namoradinha na escola é sinal de que seu filho ou filha está se desenvolvendo normalmente. Quer dizer que ele já percebeu que não pode realizar a fantasia de namorar a mãe ou casar com o pai. “Dos 3 aos 6 anos, as crianças estão imersas em experiências de paixões, além de perceber as diferenças corporais entre homem e mulher”, explica a psicanalista Soraia Bento Gorgatti, mãe de Gabriel e membro do Instituto da Família. Ela conta que toda essa tensão relacionada à idade está ligada à fase do Complexo de Édipo. Com o tempo, eles percebem que os pais já têm companhia e procuram outro “namoradinho”, na verdade um amigo mais especial. Amigo, ok?

O tal do “namoro”, como eles chamam, não tem de ir além de querer ficar perto, pegar na mão, abraçar… E só. Quando a coisa passa do limite é que os pais e professores precisam interferir. “Para que o desenvolvimento da criança siga um curso adequado, os adultos precisam colocá-la no seu devido lugar”, diz a psicoterapeuta Silvia Petrilli, filha de Risoleta. Ou seja: no lugar de criança. Cabe a nós explicar aos filhos que gente pequena NÃO namora, mas tem amigos, gosta e sente carinho por eles. Namoro mesmo, só depois de grande.

“Na era da sexualização, isso tem atingido cada vez mais as crianças, que não estão preparadas para receberem esses estímulos, tanto neurologicamente, quanto fisiologicamente. Precisamos lembrar e relembrar que criança tem que ser criança”, explica Camila Cury, psicóloga e presidente da Escola da Inteligência, filha de Augusto Cury e mãe de Alice e Augusto.

O caminho do meio

Para que as crianças entendam o que os adultos querem dizer, não dá para incentivar e nem ficar falando no assunto o tempo todo. É importante deixar de lado aquelas brincadeirinhas do tipo “fala pra sua avó da sua namoradinha” ou “me conta, filha, você namora aquele menino bonitinho da sua sala?”. É aquela velha e boa medida do meio-termo: não pode incentivar nem reprimir demais. Nada de fazer do namorico um assunto, porque não é. “Proibir nunca é uma boa estratégia quando se trata de sexualidade. Quanto mais bola os pais derem para o tema, mais eles reforçam o comportamento, pois a criança saca rapidinho como provocar os adultos”, afirma Maria Cecília Pereira da Silva, mãe de Marina e João, autora do livro Sexualidade Começa na Infância. O seu papel é mostrar o que é certo e errado, não simplesmente reprimir as manifestações de afetividade.

Não dá para incentivar e nem ficar falando no assunto o tempo todo (Foto: iStock)

Também é importante não tratar o assunto como se fosse proibido ou reprimir totalmente seu filho toda vez que ele mencionar o namoro. “Se os pais já cortam o assunto logo de cara, a criança vai atrás do amiguinho ou pesquisar na internet e acabar descobrindo coisas que não se adequam à sua idade”, explica Camila.

Meninos x meninas

Em um sociedade patriarcal e machista, também é importante tratar os meninos e meninas da mesma forma em relação aos namoros no futuro. Aquela velha história de que o menino precisa conquistar namoradinhas para ser o garanhão, enquanto a menina deve se resguardar e reprimir suas vontades precisa cair por terra.

“Existe esse conceito social e a visão de que o homem tem que ser macho. Mas cada vez mais, a sociedade caminha para uma relação mais madura e os pais precisam orientar os filhos e filhas de forma igual em relação ao namoro e os relacionamentos afetivos. Os pais precisam ensinar aos filhos que o número de meninas que o filho ‘pega’ não o faz mais homem, assim como uma menina não precisa ser a ‘Virgem Maria’ para ser respeitada, por exemplo”, defende Camila.

Na escola

Como o convívio com crianças da mesma idade começa mesmo na escolinha, é lá que a coisa pega mais. “Quando o aluno começa a perturbar os coleguinhas, levantar a saia da menina ou brigar com os outros por causa do amigo, orientamos a criança e também os pais para que não incentivem esse tipo de atitude”, afirma Nilsa Barros Leal, mãe de Fernanda, coordenadora da Educação Infantil do Colégio Humboldt. Mais uma vez, é questão de bom senso, que infelizmente nem todo mundo tem. “Tem mãe que compra presente para o ‘namoradinho’ da filha no Dia dos Namorados, ou então o pai que acha engraçadinho o filho levantar a saia das garotas”, conta Kátia Chedid, mãe de Rodrigo, Mateus e Leonardo.

Para ajudar na difícil tarefa de lidar com a sexualidade infantil, algumas escolas oferecem palestras com especialistas. Por mais que seja um namoro de brincadeirinha, muitas vezes as crianças sofrem se o amigo não corresponde. Nesses casos, é preciso ter sensibilidade para explicar que esses sentimentos de tristeza também passam.

Um termômetro para saber se seu filho está passando bem por essa fase de descobertas é a brincadeira. “Toda vez que uma criança deixa de brincar devemos nos preocupar. Essa é a forma de ela dizer que algo não vai bem”, indica Maria Cecília. Repetindo: criança não namora, só brinca de namorar. Nada de adultização e vulgaridade. Tudo tem a idade certa para acontecer.

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