Criança não namora! Saiba por que esse comportamento não pode ser uma “brincadeira” entre as crianças

Elas podem chegar em casa um dia dizendo que têm um namoradinho. Sua parte é explicar que namoro é coisa de adulto, que criança tem amigo

Não dá para comparar o que as crianças chamam de namoro com o relacionamento dos adultos (Foto: iStock)

A infância é aquele momento gostoso da vida em que somos livres para nos divertirmos e sermos quem quisermos. Quando a criança começa a andar, a falar, a conhecer o mundo e, principalmente, o outro, passa a querer fazer o que todas as outras pessoas ao seu redor fazem. Andar de salto alto, passar maquiagem, usar o celular da gente, dirigir o carro da família… Namorar está na lista. Mas assim como ela não vai pegar a chave e sair com o carro da garagem, não vai namorar de verdade. Criança não namora. Tem amigos. Não dá para comparar o que eles chamam de namoro com o relacionamento dos adultos.

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Passar a falar que tem um namoradinho ou namoradinha na escola é sinal de que seu filho ou filha está se desenvolvendo normalmente. Quer dizer que ele já percebeu que não pode realizar a fantasia de namorar a mãe ou casar com o pai. “Dos 3 aos 6 anos, as crianças estão imersas em experiências de paixões, além de perceber as diferenças corporais entre homem e mulher”, explica a psicanalista Soraia Bento Gorgatti, mãe de Gabriel e membro do Instituto da Família. Ela conta que toda essa tensão relacionada à idade está ligada à fase do Complexo de Édipo. Com o tempo, eles percebem que os pais já têm companhia e procuram outro “namoradinho”, na verdade um amigo mais especial. Amigo, ok?

O tal do “namoro”, como eles chamam, não tem de ir além de querer ficar perto, pegar na mão, abraçar… E só. Quando a coisa passa do limite é que os pais e professores precisam interferir. “Para que o desenvolvimento da criança siga um curso adequado, os adultos precisam colocá-la no seu devido lugar”, diz a psicoterapeuta Silvia Petrilli, filha de Risoleta. Ou seja: no lugar de criança. Cabe a nós explicar aos filhos que gente pequena NÃO namora, mas tem amigos, gosta e sente carinho por eles. Namoro mesmo, só depois de grande.

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“Na era da sexualização, isso tem atingido cada vez mais as crianças, que não estão preparadas para receberem esses estímulos, tanto neurologicamente, quanto fisiologicamente. Precisamos lembrar e relembrar que criança tem que ser criança”, explica Camila Cury, psicóloga e presidente da Escola da Inteligência, filha de Augusto Cury e mãe de Alice e Augusto.

O caminho do meio

Para que as crianças entendam o que os adultos querem dizer, não dá para incentivar e nem ficar falando no assunto o tempo todo. É importante deixar de lado aquelas brincadeirinhas do tipo “fala pra sua avó da sua namoradinha” ou “me conta, filha, você namora aquele menino bonitinho da sua sala?”. É aquela velha e boa medida do meio-termo: não pode incentivar nem reprimir demais. Nada de fazer do namorico um assunto, porque não é. “Proibir nunca é uma boa estratégia quando se trata de sexualidade. Quanto mais bola os pais derem para o tema, mais eles reforçam o comportamento, pois a criança saca rapidinho como provocar os adultos”, afirma Maria Cecília Pereira da Silva, mãe de Marina e João, autora do livro Sexualidade Começa na Infância. O seu papel é mostrar o que é certo e errado, não simplesmente reprimir as manifestações de afetividade.

Não dá para incentivar e nem ficar falando no assunto o tempo todo (Foto: iStock)

Também é importante não tratar o assunto como se fosse proibido ou reprimir totalmente seu filho toda vez que ele mencionar o namoro. “Se os pais já cortam o assunto logo de cara, a criança vai atrás do amiguinho ou pesquisar na internet e acabar descobrindo coisas que não se adequam à sua idade”, explica Camila.

Meninos x meninas

Em um sociedade patriarcal e machista, também é importante tratar os meninos e meninas da mesma forma em relação aos namoros no futuro. Aquela velha história de que o menino precisa conquistar namoradinhas para ser o garanhão, enquanto a menina deve se resguardar e reprimir suas vontades precisa cair por terra.

“Existe esse conceito social e a visão de que o homem tem que ser macho. Mas cada vez mais, a sociedade caminha para uma relação mais madura e os pais precisam orientar os filhos e filhas de forma igual em relação ao namoro e os relacionamentos afetivos. Os pais precisam ensinar aos filhos que o número de meninas que o filho ‘pega’ não o faz mais homem, assim como uma menina não precisa ser a ‘Virgem Maria’ para ser respeitada, por exemplo”, defende Camila.

Na escola

Como o convívio com crianças da mesma idade começa mesmo na escolinha, é lá que a coisa pega mais. “Quando o aluno começa a perturbar os coleguinhas, levantar a saia da menina ou brigar com os outros por causa do amigo, orientamos a criança e também os pais para que não incentivem esse tipo de atitude”, afirma Nilsa Barros Leal, mãe de Fernanda, coordenadora da Educação Infantil do Colégio Humboldt. Mais uma vez, é questão de bom senso, que infelizmente nem todo mundo tem. “Tem mãe que compra presente para o ‘namoradinho’ da filha no Dia dos Namorados, ou então o pai que acha engraçadinho o filho levantar a saia das garotas”, conta Kátia Chedid, mãe de Rodrigo, Mateus e Leonardo.

Para ajudar na difícil tarefa de lidar com a sexualidade infantil, algumas escolas oferecem palestras com especialistas. Por mais que seja um namoro de brincadeirinha, muitas vezes as crianças sofrem se o amigo não corresponde. Nesses casos, é preciso ter sensibilidade para explicar que esses sentimentos de tristeza também passam.

Um termômetro para saber se seu filho está passando bem por essa fase de descobertas é a brincadeira. “Toda vez que uma criança deixa de brincar devemos nos preocupar. Essa é a forma de ela dizer que algo não vai bem”, indica Maria Cecília. Repetindo: criança não namora, só brinca de namorar. Nada de adultização e vulgaridade. Tudo tem a idade certa para acontecer.

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