Criança

E se fosse possível voar?

Regina Machado é organizadora do Boca do Céu, um evento que acontece em São Paulo e reúne contadores de história do mundo todo

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Foi em meados dos anos 70 que Regina começou a se interessar por contar histórias. Mas com uma pegada bem particular: ficou completamente encantada por essa arte, atividade central da tradição oral das mais diversas culturas, dos indígenas brasileiros às tribos africanas ou aos povos do mundo árabe.

Quando ela descobriu como essas histórias despertavam a atenção das crianças, como resgatavam o contato humano e como os pais também poderiam aprender com elas, tudo fez sentido. Arquitetou então o Boca do Céu – Encontro Internacional de Contadores de História, que organiza desde 2001, para justamente compartilhar isso.

Para a maioria das pessoas, o que ela faz, estuda e ouve chama-se contação de histórias. Para ela, não: é uma arte da narração, que toda mãe e pai deve praticar também. “Se os pais entendessem o que estão fazendo por si mesmos e pelos filhos ao contar histórias, nunca parariam”, afirma.

Você não costuma usar a expressão “contação de histórias”. Por quê?
Quando pessoas de vários países, inclusive eu, começaram a se interessar por contar histórias no contexto urbano, na década de 70, o nome que passou a circular na mídia e acabou se instalando foi contação. A partir daí, qualquer pessoa passou a ser denominada contadora de história, mesmo sem conhecimento. Isso acabou banalizando o que, a meu ver, é uma arte. A história contada é um reflexo muito particular da própria visão do contador. Se eu usasse essa expressão, estaria caindo no que eu chamo de vulgarização de uma arte.

O que faz um contador de história encantar tanto as crianças?
Não existe fórmula. O contador se conhece e conhece o universo da criança. Ele realmente se dedica àquilo como uma arte. Estuda, lê muitos livros, vive com a história dia e noite na cabeça para depois contar, e conta de vários jeitos possíveis, se arrisca até acertar. E acertar não é a criança aplaudir. É saber que aquilo tem uma verdade tão profunda dentro dele, que sai do coração e encontra a criança na fantasia. Um gesto do contador, uma piscada ou um sussurro no meio da história fazem isso, sem precisar de estardalhaço, bonecos, fantoches, barulhos demais. O excesso de recursos é falso: são a voz e a clareza do contador que fazem a história chegar até a cabeça da criança, conversar com ela e transformá-la por dentro.

A escolha da história também é importante?
Com certeza. O contador faz escolhas o tempo inteiro. Mas se a intenção dele for errada, como por exemplo só agradar, a escolha também pode ser errada.

Para os pais, quais critérios de escolha da história você pode sugerir?
Ao chegar em uma livraria, em que há um milhão de possibilidades, é preciso respirar fundo e se lançar a olhar o que é ruim e o que é bom. O mundo de hoje ensina as crianças a prestar atenção em coisas chamativas, cheias de objetos que se abrem, não importa o conteúdo. Grande parte dos livros é de pessoas que não conhecem o universo das crianças. Os pais devem ter a sensibilidade de dar uma folheada, ler um pouco e ver se tem vontade de contar aquela história. E deixar as crianças escolherem sozinhas de vez em quando.

Quais seriam bons exemplos?
Para os maiores, uma coisa que não tem erro são os clássicos, como os livros dos irmãos Grimm ou as histórias das Mil e Uma Noites. Dentro das opções de livros contemporâneos, há uma variedade grande que traz ilustrações belíssimas. É um recurso a ser explorado: se a história não for tão boa, os pais podem inventá-la junto com a criança a partir desses desenhos ricos.

Que tipos de histórias você conta?
Durante muitos anos, eu pesquisei contos tradicionais das mais diversas culturas. São histórias que não foram escritas, ou seja, não nasceram de um autor específico, tem essa característica de passar de uma geração a outra. No Oriente e no Ocidente, na Europa, ou entre indígenas, africanos, árabes, chineses… É um encanto ver que existem histórias em qualquer lugar do mundo. Eu vou por aí: passeando pelas tradições do mundo, observando semelhanças, diferenças e influências, e contando um pouco disso para as pessoas. Uma vez ou outra, conto uma história de autor.

Como se dá hoje essa tradição oral no Brasil e no mundo? Está resistindo?
Existem dois mundos: o tradicional e o do Ocidente. No tradicional, a cultura oral, transmitida pela palavra falada, é ainda importante. Exemplos dessa cultura são as tribos indígenas, os povos africanos, as culturas tradicionais do Japão e da China. Nessas culturas, as histórias têm funções específicas: serem guardadas por cada um e serem transmitidas, carregarem os conhecimentos a ser difundidos. Em cada lugar, há um responsável por guardar esse conhecimento ancestral e contá-lo. Na cultura Ocidental, a nossa, tudo foi se transfomando porque o símbolo foi dando lugar à cultura de mercado. Com a ascensão da tecnologia, a oralidade não foi sumindo, mas se transformando. É esse o trabalho da arte de contar histórias: resgatar aqui as culturas orais do mundo.

Qual a importância de resgatar histórias indígenas e da cultura africana para as crianças  brasileiras?
Eu acho que é dar oportunidade para as crianças nas escolas compreenderem de onde a gente vem e o que é tudo isso que está dentro do nosso sangue. As crianças são como árvores: n&ati