Criança

Já faz três meses que cheguei aqui na Terra

Tenho um cromossomo extra e não tinha ideia que ainda podem me ver de forma negativa....

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

(Foto: arquivo pessoal)

(Foto: arquivo pessoal)

Resolvi escrever para contar para vocês, que ainda estão no curso, como é a vida por aqui. Todos nós fazemos o curso de preparação para vir para a Terra, mas acho que não nos explicam o quanto tudo por aqui pode ser complicado.

Como vocês sabem, tenho um cromossomo extra. Eu não tinha ideia que ainda podem me ver de forma negativa…. Achei que isso já tivesse mudado! Mas parece que o processo é longo. Olhem só:

Um dia, eu estava tranquila no colo da minha mãe quando percebi sua respiração mudar. Comecei a prestar atenção na conversa que estava tendo com uma amiga dela e do papai. Ela contou que impediu a vinda de um bebê seu, que já estava a caminho da Terra, quando descobriu que este bebê tinha o tal cromossomo extra. Aqui chamam isso de aborto.

Minha mãe levou um susto, e ficou quieta. Meu pai ficou quieto também. Os outros amigos se olharam tentando mudar o rumo daquela conversa. Mas a amiga continuou: “Depois desse caso, quando fiquei grávida pela segunda vez, fiz todos os exames para checar que não tinha nada de anormal, mas sempre dava um medo…  Quando ela nasceu a primeira coisa que pensei foi: graças a Deus ela não tem síndrome de Down! ”

Down, vou explicar, é o nome do médico que descobriu que quando há uma diferença no número de cromossomos de algumas pessoas, que no meu caso é o 21, as pessoas apresentam um conjunto de características diferentes daquelas que não têm o tal do cromossomo extra. Ok, disso a gente sabe, mesmo sem nunca termos conhecido o Sr. Down. Mas a enorme diferença é que aí do outro lado aprendemos que não existe pessoa na Terra que seja igual a outra – todas são únicas. Então, para mim, até então, ter o cromossomo extra era como ser loira ou morena, alta ou baixa, ter renite ou asma…essas coisas.

(Foto: arquivo pessoal)

(Foto: arquivo pessoal)

Mariana reade

A mamãe respirou fundo e começou: “Acho que você precisa rever seus conceitos, você deve estar uns 40 anos atrasada. Aliás, a primeira coisa que eu pensei quando a minha filha nasceu foi “graças a Deus estamos em 2018! A maioria das pessoas não pensa da forma que você pensa. A maioria não tem tanto medo ou sentimentos negativos. Aliás, o mais difícil na síndrome de Down é ter que conviver com esse tipo de mentalidade”.

A amiga ficou sem saber como responder. E a mamãe continuou: “Isso é uma maneira negativa de olhar a vida. Mas tudo bem porque você vai ver nossa filha crescer e logo aprenderá com ela a ser mais positiva. ”

Depois daquele silêncio que durou muitos segundos, os amigos mudaram de assunto e a conversa acabou. E eu fiquei pensando… no curso de preparação para vir pra Terra nos contam discretamente sobre preconceito. Será que é pra não nos assustar? Ou pra gente não desistir de vir pra Terra? Ou simplesmente porque aí, na nossa origem, não existe preconceito em nosso coração e seria impossível explicar o inexplicável? Em todo o caso, acho que seria melhor vir mais preparado, porque parece que o preconceito existe e ele é uma espécie de não gostar de abóbora sem nunca ter provado.

O que não entendi foi por que minha mãe ficou tão incomodada. Ela falou disso a semana inteira. Eu tentava dizer pra ela que não tinha importância. Mas já adianto uma coisa fundamental pra vocês: os adultos não nos entendem aqui na Terra.

Será que minha mãe ainda não tinha se dado conta que existe preconceito? Talvez porque os amigos dela e do papai tenham sido positivos e acolhedores.  Com o tempo minha mãe vai perceber que nem todo mundo nos vê como somos, indivíduos únicos como todos os seres humanos!

Texto de Mariana Reade, nossa embaixadora e mãe de Maria e Carolina.

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