Criança

Liberte o saci que existe em você

Autor de livro paradidático fala sobre sua obra

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Por Djair Galvão
 
O olhar das crianças tem um brilho especial porque nem sempre os medos são tão verdadeiros quanto muitos adultos supõem depois que 'perdem' a criança interior. Pais que querem poupar demais seus pequenos podem tirar deles a chance de tomar contato com situações que, mais na frente, poderiam servir para despertar o interesse pelo conhecimento ou pela criação literária e artística.
 
Digo isso par ilustrar minha condição de autor de livro infantil, nascida dos primeiros contatos com as ricas histórias do folclore brasileiro. Repletas de seres lendários, monstros e criaturas assustadoras – ou mesmo engraçadas -, as ricas criações populares que levam apenas a assinatura do tempo e das tradições são uma fonte inesgotável de criação e de estímulo.
 
Quem não se emocionou um dia lendo ou ouvindo a história triste do Negrinho do Pastoreio, que no sul do Brasil é o embrião do Saci-Pererê? E o próprio Saci, com suas travessuras, truques e maldades nem tão más assim, conseguia prender a nossa atenção para um universo que é particular dos pequenos: o poder de transformar coisas, de ser herói, de atravessar realidades que a maioria dos adultos imagina serem instransponíveis para criaturinhas tão 'frágeis'.
 
Este era o meu mundo quando despertei para a literatura, no interior do Rio Grande do Norte, levado pelos encantos dos gibis e das histórias contadas em noites de lua e, depois, por meio do contato com o cordel e diversos elementos da cultura popular nordestina, brasileira e mundial. Tudo quanto é coisa impossível acontece neste mundo de letras e do imaginário popular, e é exatamente isso que se busca quando se quer ampliar os horizontes da realidade.
 
Dos ingredientes que usei para criar o livro "O Saci de Duas Pernas", primeira obra que publiquei em 2008 (1ª edição), seguramente lá estavam os 'medos' infantis, agora com um propósito: transportar os meus futuros leitores para o mundo dos grandões, dos valentões e daqueles que, por desvios de conduta, formação ou perversidade, sentem-se bem provocando tristeza e dor aos outros. Esta realidade também estava nas salas de aula onde lecionava, nas redes estadual e municipal de São Paulo, e serviu de reforço à ideia do livro.
 
E o caminho que escolhi foi justamente usar um personagem muito conhecido do folclore brasileiro, dar-lhe uma roupagem imaginária para que provocasse uma reflexão. Ao ter uma perna "a mais", o Saci poderia usufruir uma condição privilegiada. Mas não é bem assim o que acontece, pois é vítima de dor, sofrimento, perseguição e toda sorte de preconceito por não ser "igual" aos demais. O enredo embute exatamente a condição em que se encontram crianças, adultos e jovens que sofrem por não terem as características exigidas para o que é padronizado como sendo o normal.
 
Colocar essas e outras situações no papel foi apenas o início de uma longa batalha para abrir espaço e fazê-la conhecida em quantos lugares fosse possível. Originalmente, a história foi escrita por mim no ano 2000, mas levei duros oito anos para viabilizar o projeto editorial, que agora já está na segunda edição (2009). Com a obra em mãos, o passo seguinte foi percorrer livrarias, apresentar o trabalho a amigos e educadores e realizar lançamentos.
 
Tive o apoio da Secretaria de Educação do Rio Grande do Norte, que me abriu espaço para lançar o livro em diversas cidades daquele Estado. Por lá, pelo menos uma dezena de prefeituras adotou o livro para trabalhar questões como inclusão, diversidade e respeito às diferenças em salas de aula. O mesmo depois aconteceu em bairros da capital paulista. Passei a aceitar convites de escolas públicas e particulares para conversar com os estudantes e expor o que seria aquela criaturinha que sofre por "ter em excesso".  A obra está hoje em pelo menos 30 diferentes colégios da cidade e também em alguns do interior de São Paulo. Sempre que convidado, vou ao encontro da garotada para brincar e falar de medos e travessuras, contra os travessos da maldade e da crueldade.
 
De fato, impressiona muito o que provoca o contato das crianças com uma situação como esta em que a ordem é subvertida e o personagem sofre muito. Dos encontros, brotam risos e até choros porque o olhar infantil não se preocupa com o medo do "bicho-papão" tradicional, mas com os que fazem maldades verdadeiras, provocam sofrimentos reais, sejam eles físicos ou psicológicos.
 
Sabemos que os desenhos animados da nova era se encarregaram de amortecer o peso da violência visual na cabeça das crianças, além do que ninguém mais está imune aos efeitos do mundo real via internet ou demais meios de comunicação de massa. A instantaneidade não permite mais imaginar criancinhas apavoradas com a Mula-Sem-Cabeça ou o Saci-Pererê, e sim com a violência gratuita e outros problemas dos grandes centros e cidades médias.
 
O desejo das crianças é por um mundo verdadeiramente dominado pela amizade, pelo companheirismo e pelo respeito, a despeito dos que continuam, e continuarão, sentido prazer em provocar danos aos seus semelhantes. São coisas da natureza humana que, certamente, não tem literatura, cuidados clínicos nem educação que tire completamente – e existem desde que o mundo é mundo. O papel de quem escreve para crianças é exatamente reforçar esse anseio pelo melhor, a fascinação pelo que realmente nos faz pessoas melhores e completas. E trabalhar as contradições é fundamental para garantir fluidez ao processo criativo.
 
Escrever “O Saci de Duas Pernas” foi uma experiência pessoal que teve apenas começo, pois o autor nem sempre sabe onde vai parar aquilo que escreve, e pode ser que o seu desejo inicial seja extrapolado. Dou como exemplo esta obra, originalmente voltada para crianças, que certo dia foi parar em processo trabalhista envolvendo um ex-empregado de uma multinacional, no Tribunal Regional Federal de Brasília. A juíza citou a obra na sentença em que condenou a empresa por provocar "danos psicológicos e morais" ao ex-funcionário, que é negro. Sua condição provocou a ira de gerentes, que o tratavam como "Saci", atribuindo a este os erros e problemas vividos no trabalho, coisa que o levou à demissão e a problemas de saúde, financeiros e afins. Não menos curioso foi ver o canal por assinatura Multishow postar na internet uma montagem de telejornal intitulado "Sensacionalista" em que o personagem é exatamente "um saci que nasce com duas pernas". O vídeo também foi exibido na tevê.
 
Tive o prazer do livro despertar o interesse do teatro amador, e O Saci de Duas Pernas virou peça infantil montada em São Paulo pela companhia de teatro amador "Arteiros Espetaculosos", do diretor Reggie Fontes. Percorreu e percorre casas de cultura e Centros Educacionais Unificados, além de escolas.
 
Todav