Criança

O compartilhamento tornou-se a nova moda nos dias de hoje

Você já aderiu?

Nathália Martins

Nathália Martins ,Filha de Sueli e Josias

(Foto: iStock)

(Foto: iStock)

Os valores mudaram. Ninguém mais quer o status de ser dono do mundo, mas, sim, participar dele. Seu filho já é fã de um universo compartilhado, imagine daqui a 50 anos.

Vem com a gente examinar o mundo ao seu redor por alguns minutos. Observe a quantidade de compartilhamentos
que pularam das redes sociais, mundo online, para a nossa vida offline. A gente compartilha casa, carro, sala de empresa, até a bicicleta que fica disponível para uma corrida de um quarteirão ao outro ou até mais.

O compartilhamento tomou conta da nossa vida de maneira supernatural, mas a gente quer chamar a sua atenção para esse fenômeno (se é que podemos chamar assim) para refletir como o futuro que seu filho vai encontrar daqui a 50 anos vai ser completamente diferente.

Mudança de valores foi a explicação que surgiu durante a nossa conversa com especialistas que estão ativos nesse meio compartilhado. A maneira de encararmos a vida, a cidade e as pessoas ao nosso redor mudaram. E boa parte dessa alteração é culpa da tecnologia – no bom sentido. “Acredito que isso tenha a ver com a busca pela liberdade e isso só vai crescer com o passar das gerações”, comenta Mônica Queiroz, diretora de relacionamento e inovação do CO.W, empresa de coworking, e mãe de Tatiana e Thiago.

A gente passou a enxergar posses e bens de maneira diferente, com menos importância, e começamos a dividir a nossa economia visando a experiência. Dividimos a corrida do carro, a casa alugada da praia, o aplicativo de música e o mais interessante é que cada pessoa que participa dessa divisão pode aproveitar um pedaço daquele “serviço”: compartilhamos experiências.

“Eu defendo que a revolução tecnológica do compartilhamento na vida online e o fácil acesso às informações é o que marcam essas mudanças”, pontua Tamy Lin, CEO e fundadora da Moobie, filha de Nair e Lin.

Esta é a nossa última matéria da série de reportagens que fizemos para comemorar os 50 anos da Pais&Filhos, completos este ano, no mês de setembro. Desde janeiro, a cada mês, discutimos sobre temas importantes para o desenvolvimento do seu filho. Mas sempre com a cabeça no futuro. Em vez de olhar para trás, projetamos como serão os próximos 50 anos para essa geração de crianças que, a gente já sabe: viverá mais de 100 anos.

Na prática, como funciona? 

Criaram alguns termos para explicar essas diferentes maneiras de relacionamento entre as pessoas misturando convivência e economia. Vamos explicar cada um para facilitar sua compreensão.

Coworking ou co-trabalho 

É um modelo de trabalho em que pessoas compartilham o mesmo espaço e recursos do escritório. A sacada é que
elas não precisam trabalhar para a mesma empresa ou na mesma área de atuação. Podem ser jornalistas, designers,
advogados, publicitários, todos no mesmo lugar. Essa reunião, além de permitir a convivência entre pessoas diferentes todos os dias, pode até rolar uma colaboração no trabalho do outro, possibilitando novas visões de empreendimento.

Coliving 

A ideia começou em 1970 e ganhou bastante força nos últimos anos, dando vida ao conceito coliving ou cohouse. É uma grande mudança para a sociedade que se isolou cada vez mais em pequenos mundos individuais e agora está tentando remar na direção contrária. O termo se resume a morar junto com pessoas diferentes a partir de motivações que podem ser econômicas, profissionais ou pessoais – colocando sob o mesmo teto um grupo que tem propósitos de vida parecidos e estão bem dispostos a, simplesmente, conviver em harmonia.

Mobilidade compartilhada

Neste tópico entram vários termos: carsharing, bikesharing e por aí vai. Um ótimo exemplo disso é as pessoas deixarem seu carro em casa para compartilhar uma corrida a algum lugar, como é o caso do Uber Pool. Ou até mesmo alugar o seu próprio carro, quando não estiver utilizando, para outras pessoas, através de aplicativos como o Moobie. Quer mais? As bicicletas do Itaú também são uma forma de locomoção coletiva. Tudo compartilhado!

Redes sociais

Não poderia faltar nosso compartilhamento da vida online – de onde, com certeza, brotou toda essa ideia de continuar compartilhando no universo offline durante a nossa rotina. Facebook, Instagram, Twitter, WhatsApp, tantos aplicativos que a gente usa naturalmente no dia a dia que até esquecemos o quanto a nossa vida é completamente compartilhada com todo mundo. E esses novos estilos de vida em que as pessoas compartilham até economia, não deveriam soar estranhos, mesmo!

Juntando as moedas

Economia compartilhada é o nome que o mundo inteiro está dando para essa prática. E, veja bem, por mais que a gente tenha dito que esse chacoalho do universo compartilhado tenha origem na revolução tecnológica e redes sociais, ele começou há bastante tempo. O termo foi citado pela primeira vez em 1978 pelo sociólogo americano Amos Hawley. Mas a ideia inteira do cara só ganhou força nos Estados Unidos com a crise financeira de 2008 – quando o calo aperta e todo mundo fica em busca de uma solução prática, não é?

Quem levantou essa bola nos anos 2000 foi um colunista do jornal americano, superfamoso, New York Times, Thomas Friedman. Ele usou da filosofia para dizer que tanto a mãe natureza quanto o mercado chegaram a um limite e o modelo hiperconsumista, que estávamos acostumados a viver, não funciona mais! Não dava para seguir desse jeito. Então, chegamos à economia compartilhada.

Na mesma vibe

Algumas escolas estão entrando na onda do compartilhamento como é o caso da Avenues. A primeira unidade da escola foi aberta em 2012 em Manhattan, Nova York, no bairro do Chelsea com 750 alunos matriculados. Agora a instituição já está com o dobro de estudantes e vai chegar ao Brasil. A nova unidade será inaugurada em São Paulo, no bairro Cidade Jardim, oficialmente em agosto deste ano. Além do material didático ser compartilhado, o formato
da sala é diferente – em forma de U – e todos os alunos têm acesso a um espaço de coworking para desenvolver
projetos. Pensando em compartilhar, as unidades de São Paulo e Nova York estarão sempre em sintonia. Compartilhando conhecimentos e projetos. Demais, não é?

O Bê-a-bá

Alguns pontos tiveram um peso bem grande nessa mudança de comportamento. Os pesquisadores atribuem às preocupações com o meio ambiente, às tecnologias e redes sociais (não dissemos?) e a redefinição do sentido de
comunidade, ou seja, a forma como a gente percebe e interage com a sociedade.

“Acredito que ‘convivência’ define bastante esse novo jeito de viver a vida. A gente começou a perceber a cidade de maneira diferente”, comenta Simone Gallo, Head de Relações Institucionais do Itaú Unibanco e ativista da causa da mobilidade urbana, mãe de João Vitor.

Toda a nossa conversa se resume a uma nova maneira de se consumir e se relacionar. Economia compartilhada
prova que existem outras formas de você ter acesso a serviços e produtos, além da compra. Com ela a gente sai um
pouco do individualismo.

Nesse estilo de vida, importa menos a posse do bem em si e mais a experiência que ele traz. Quer um exemplo? Se você decidiu pendurar um quadro em casa, com essa maneira de pensar, passa a entender que precisa só do furo e não de uma furadeira. Evitando o gasto desnecessário, sacou?

A escritora britânica Rachel Botsman, autora do livro “O que é meu é seu: como a economia colaborativa vai mudar
o mundo”, vem estudando esse estilo de vida e garante que não se trata de apenas modinha. “É uma força cultural e econômica poderosa que está reinventando não apenas o que a gente consome, mas como consumimos”, disse em
uma palestra na TED.

No vídeo, a especialista fala que a economia compartilhada nasceu quando as pessoas perceberam o poder da tecnologia. “A gente notou que programamos o nosso mundo para compartilhar, trocar, alugar, permutar ou comercializar praticamente qualquer coisa”, explica a britânica.

De volta ao coletivo

Essas conexões virtuais, trazidas para o mundo real, estão dando para a gente uma chance de redescobrir a humanidade que perdemos em algum lugar ao longo do caminho.

A teoria é que uma hora com o consumo desenfreado, levando a gente para o extremo do individualismo e uso, talvez inadequado, da tecnologia para nos excluir da convivência em sociedade, a gente se perdeu do contato humano.

A ideia do compartilhamento traz de volta um pouco do universo da época dos avós que curtiam compartilhar experiências e viver as pessoas. Como consequência, isso possibilita a reunião do “querer” com o “ter”.

Rachel Botsman dá os créditos dessa mudança de rumo a utilização do poder da tecnologia para construir confiança entre estranhos. Como é o caso do coliving em que pessoas diferentes, mas com algum objetivo em comum, se reúnem para dividir uma casa. Confiança é a palavra chave dessa nova maneira de viver a vida. Pensando dessa forma, Rachel divide esse tipo de economia em três pontos importantes:

1° Mercados de redistribuição: o sistema funciona como uma maneira de reaproveitar as coisas. Algo que não tem mais utilidade para você pode servir para outra pessoa. O que evita uma nova compra do mesmo produto como roupas, calçados e carros.

2° Lifestyles colaborativos: incentiva um estilo de vida onde as pessoas vivem com menos e trocam ou compartilham o que tem com as outras pessoas. Você pode compartilhar seu tempo, conhecimentos ou até mesmo as economias com os outros.

3° Sistema de produtos e servições: a ideia é não consumir os produtos e sim seus benefícios. Serviços de streaming que entregam filmes sem você precisar alugar o DVD ou os aplicativos de música, sem precisar comprar o CD, são exemplos disso. O mesmo acontece quando a gente contrata, por exemplo, o marido de aluguel para fazer alguma manutenção na casa, ao invés de comprar a ferramenta.

Tudo isso se resume a não consumir mais do que o necessário e aprender a trocar, reciclar e reutilizar os seus bens. Isso só tem a agregar para a nossa sociedade benefícios que o seu filho vai colher daqui a 50 anos, diminuindo
os impactos causados pelo consumismo sem freio.

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