Por que meu filho tem medo de tudo? Veja como ajudar a criança a entender e lidar com a emoção

Durante a infância, crianças têm dificuldade de separar o mundo real do imaginário. Isso colabora para que elas sintam medo, mas é preciso ficar atento para ver como os próprios pais inserem a emoção no dia a dia do filho

Resumo da Notícia

  • O medo é uma emoção natural e que costuma ser bem acolhida por adultos, mas a história não é a mesma quando o assunto são os sentimentos das crianças
  • Alguns pais e educadores acabam usando histórias de personagens fantasiosos, como o bicho-papão, para fazer os filhos seguirem suas instruções
  • Essa decisão, no entanto, não é saudável para o desenvolvimento da criança e pode trazer problemas para ela a curto e longo prazo

Homem do saco, bruxa, bicho-papão. As figuras assustadoras de monstros (dos mais tradicionais aos que são inventados pelas famílias durante brincadeiras ou contações de história) estão presentes nas memórias de infância da maior parte dos adultos, assim como na vida das crianças de hoje em dia – principalmente quando o assunto é um sentimento que todos possuem, mas que é pouco acolhido: o medo.

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Sentir medo é normal – e, inclusive, uma maneira de se proteger de possíveis perigos. Faz parte do desenvolvimento da criança ficar assustado com histórias mal assombradas e não conseguir distinguir a realidade do imaginário. No entanto, é preciso entender também como surge esse medo na vida do seu filho: ele nasce somente da imaturidade do córtex pré-frontal ou vem acompanhado também de estímulos dados, muitas vezes, pelo pais e educadores?

Criar um filho não é fácil. Exige jogo de cintura, paciência, respirar fundo e contar até 100 em grego, se for preciso. Em diversos momentos, no entanto, pais acabam usando o medo como ferramenta para conseguir fazer com que os filhos obedeçam ao que está sendo pedido. Frases como “vai dormir agora, ou o Homem do Saco te pega” não são desconhecidas para a maioria de nós. Mas as consequências por trás dessas falas podem ser extremamente prejudiciais para a criança – a curto e longo prazo.

Uma relação de obediência baseada no medo pode criar crianças angustiadas e enfraquecer os vínculos familiares
Uma relação de obediência baseada no medo pode criar crianças angustiadas e enfraquecer os vínculos familiares (Foto: Shutterstock)

“A criança pode se desenvolver de forma frágil, sempre amedrontada e com receio de que algo aconteça”, conta Fernanda Teles, educadora parental, psicóloga e mãe de Liz, Théo e Mel. O medo como forma de fazer com que o filho siga o que o pai está falando é algo que configura uma educação desrespeitosa e também pode trazer outros impactos negativos além desse. “Isso é terrível para o desenvolvimento da autoestima da criança, mas principalmente porque o vínculo de segurança que a criança vai criar com os pais será frágil”.

A arte imita a vida

A criança passa a desenvolver uma relação com o medo logo no início da vida. Ainda que não consiga nomear o que sente, ele está ali, presente. Os contos de fadas mostram são ferramentas que mostram, de maneira lúdica, como lidar com o sentimento e que ele não precisa ser paralisante. A histórias de hoje em dia, no entanto, são versões adaptadas para serem muito sutis – o que, para a doutora em psicologia Vanessa Abdo, CEO do Mamis na Madrugada, mãe de Laura e Rafael, também prejudica o entendimento da criança sobre o assunto.

“Antigamente, os contos de fada, eles davam a oportunidade da criança vivenciar, processar e elaborar situações de medo. As histórias eram ‘mais pesadas’ do que são hoje. Com isso, tinham tempo de entender como lidar com esse sentimento. Hoje, elas ficaram muito ‘fofinhas’. As crianças perderam uma das oportunidades brilhantes que a humanidade tem de elaborar os seus conflitos, que é por meio da arte”.

Mas, atenção: o ponto não é contar histórias de terror para o seu filho dormir. Para Vanessa, a principal questão é o choque de realidade que existe quando as crianças entendem o mundo. “Tudo é muito duro. Quando autorizamos nosso filho a assistir jornal, eles não foram construindo raciocínio do medo e elaborando aquilo que faz sentido, aquilo que faz parte do imaginário, aquilo que é vida real. É muito abrupto”, explica.

O medo é uma emoção natural, mas costuma ser invalidada quando são crianças que o sentem
O medo é uma emoção natural, mas costuma ser invalidada quando são crianças que o sentem (Foto: iStock)

Via de mão dupla

A presença do medo no dia a dia da criança somado ao fato de que elas não conseguem distinguir o que é o mundo real da própria fantasia é uma bomba para aquelas que não possuem seus sentimentos validados. “Se ela diz que está com medo de dormir porque acha que tem algo embaixo da cama e os pais dizem que aquilo é besteira, eles estão ignorando que existe todo um processo de desenvolvimento acontecendo no corpo dela”, disserta Fernanda Teles.

“Quando os pais não validam o medo da criança, é como se ele estivesse empurrando a poeira para debaixo do tapete. Posteriormente, o filho pode começar a desenvolver uma crise de ansiedade, uma síndrome do pânico e viver nervoso, angustiado e agitado”. Para Vanessa Abdo, a validação de sentimentos costuma acontecer somente no mundo adulto: “Nós temos e medos irracionais, exagerados, e gostamos que os nossos pares lidem com eles. Mas a gente tende a banalizar o medo das crianças”.

Nomear para curar

A validação do medo da criança começa quando os pais explicam para o filho o que é aquilo que ele está sentindo. Parece muito simples, mas essa atitude faz toda a diferença para que ele passe e entender melhor o que acontece dentro dele e como lidar com situações que possam ser assustadoras. “Uma das premissas da inteligência emocional é que só eu consigo regular o que eu consigo nomear. A partir disso, eu legitimo a emoção da criança e ensino equilibrar para que ela não se torne algo desproporcional”, orienta Fernanda Teles.

O acolhimento é o principal fator para ajudar seu filho a entender melhor o medo e lidar com essa emoção numa boa
O acolhimento é o principal fator para ajudar seu filho a entender melhor o medo e lidar com essa emoção numa boa (Foto: Getty Images)

Driblando o medo

A decisão de não usar o medo como uma maneira de fazer seu filho te obedecer é a primeira para o caminho da relação entre vocês dois ser cada vez mais saudável. Existem jeitos para que ele siga suas instruções sem que o vínculo familiar fique fragilizado. “Os pais precisam ensinar que existe uma reação para cada escolha. Se você não escovar o dente muito, o dente pode apodrecer. Quer dizer, faz sentido. É claro que precisa muito mais do que não escovar os dentes meia dúzia de vezes para isso tudo acontecer. Mas é o medo que responsabiliza. Se você soltar a minha mão no shopping, você pode se perder. Não é o medo pelo medo, ele faz sentido”, diz Vanessa Abdo.

“A criança vai ficando corresponsável pela própria segurança dela também. É diferente de você ficar amedrontando seu filho como se o mundo fosse um lugar só perigoso. Isso pode inibir a criatividade, deixá-lo ansioso, inseguro e, inclusive, apático”, comenta a doutora a psicologia.

Depois que o medo deixa de fazer parte da rotina e não é mais o foco principal para que a criança colabore com os pais, que passam a ajudar ela a entender e regular suas emoções, eles podem trabalhar juntos para encontrar ferramentas lúdicas que deem suporte para o filho quando ele se sentir inseguro ou com medo do bicho-papão, por exemplo.

Fernanda Teles orienta que conversar com a criança e até mesmo colocar no papel o que ela está sentindo – seja por meio de um esquema mental ou desenhos – é uma boa maneira de começar a criar essas ferramentas. Ouvir e acolher seu filho principalmente durante os momentos em que a emoção aparece mais forte é essencial para que ele desenvolva mais confiança em você e cresça se sentindo seguro no ambiente familiar. Seja dormir na cama dos pais durante uma noite, pedir colo ou criar um bicho de pelúcia que é um escudo protetor contra monstros, o suporte acolhedor e lúdico é o ideal para criar crianças que têm uma relação saudável com o medo.

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