Xuxa conta que foi abusada na infância e desabafa: “Me sentia culpada por existir”

Ela fez o desabafo apenas com quase 50 anos

Ela contou a história pela primeira vez no Fantástico (Foto: reprodução / Instagram)

Xuxa, que está com 56 anos, contou um dos piores episódios que viveu durante a vida, em uma coluna na Vogue. No texto, ela disse que é muito difícil reviver esses sentimentos outra vez, e ao lembrar da história, surge a culpa, a raiva, a impotência e o medo.  A apresentadora sofreu abuso sexual enquanto ainda era criança e abriu o coração para passar a história a diante.

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“Tudo começou muito cedo, eu devia ter uns 4 anos talvez, e morava no Sul com minha família toda. Bloqueei muito sobre esse assunto então eu não sei se é essa data de fato, talvez um ano a mais ou a menos. O que eu me lembro? O cheiro e a sensação…”, começou.

A mãe dela costumava colocar um edredom no chão de casa, e depois do almoço, Xuxa, os irmãos e Alda Meneguel, deitavam para passar um tempo juntos. “Eles costumavam nos dar um elixir que abria o apetite. Como sou intolerante ao álcool e sei que este elixir tinha – mesmo que em dose pequena – dormia mais profundo do que meus irmãos. No Sul também era comum misturar vinho com água e açúcar e dar pras crianças, o que também me deixava com mais sono do que o normal”.

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Alda Meneguel ficou grávida muito cedo e nunca teve uma babá para cuidar dos filhos, porque fazia de tudo para ser o melhor para eles. “Hoje em dia, as pessoas podem ver isso como falta de cuidado, mas não foi o caso da minha mãe, que nunca deixaria nada de mal acontecer com um dos cinco filhos dela. Mas aconteceu.”

“Por que eu fui a escolhida? Não sei, mas me lembro de um cheiro de álcool de alguém, uma barba que machucou o meu rosto e algo que foi colocado na minha boca. Acordei dizendo que alguém tinha feito xixi na minha boca e meus irmãos disseram que eu tinha sonhado. Essa foi minha primeira experiência com abuso sexual, que, diga-se de passagem, eu não me lembro direito, mas existiram outros casos…”, desabafou.

Xuxa sofreu abuso sexual dos 4 aos 13 anos (Foto: reprodução / Instagram)

Quando tinha por volta dos 5 ou 6 anos, Xuxa andava de Kombi com os primos de segundo grau e amigos próximos da família, indo todos na parte de trás. Ela contou que sentia eles a tocarem, colocarem o dedo, e tudo aquilo doía muito. Ela não sabia distinguir o que estava sentindo, por isso nunca chorou ou reclamou sobre os episódios.

“Essa mesma pessoa vinha ao Rio quando eu já tinha entre 9 e 10 anos, e, quando a família dormia, colocava seus dedos por debaixo dos lençóis e me tocava. Nesse tempo, esse parente distante já era um adolescente e sempre que podia me tocava. Por que eu não gritava, não chorava? Não sei!”, contou.

Quando completou 11 anos, um professor, que davas aulas de matemática no colégio Itu, chamado Mauricio, a chamou depois de uma aula e disse que queria a deixar apenas de calcinha e “colocar nas minhas coxas”. Tudo isso na frente de uma amiga, Yara. Xuxa não sabia ou entendia o que significava a expressão, e então viu pela primeira vez alguém se masturbar bem em sua frente.

No dia seguinte, próximo a hora do recreio, depois que os alunos já haviam saído da sala de aula, ele pediu que ela se levantasse e escrevesse algo no quadro, insinuando que isso a ajudaria nas notas finais. “Eu escrevi o que ele queria no quadro e vi que ele se tocava embaixo da mesa, usava uma calça quadriculada e se mexia muito, não entendia muito bem o que ele tava fazendo… Foi aí que o ouvi gemer e depois se limpar. Eu perguntei o que tinha acontecido, se aquilo era colocar nas coxas. Ele riu e disse que não, mas que faria isso em mim, que não iria me machucar e que se eu falasse pra alguém sobre o que eu tinha visto ou o que ele havia falado: ‘ninguém iria acreditar, pois entre a palavra de um aluno e de um professor, o professor sempre ganha'”.

Ela falou a história apenas aos 50 anos (Foto: reprodução / Instagram)

“Cheguei em casa e na hora do jantar, perguntei à minha irmã Mara o que era colocar nas coxas. Ela ficou furiosa e sem me explicar, queria apenas saber quem tinha me falado aquilo. Eu me borrei de medo, mas falei. Foi aí que eu e meu irmão fomos transferidos para o colégio de padre São Judas Tadeu – hoje Santa Monica – e lá tudo melhorou.”, desabafou.

Ela nunca soube o porquê tudo isso acontecia com ela. Com essa mesma idade, Xuxa via os seios crescerem e aquilo a incomodava muito, tanto pela dor, como por se sentir desconfortável com a situação. Quando ia para a casa da avó, Olivia, ela tinha um namorado, chamado Ubirajara, e iriam se casar em breve.

“Eu ia ao apartamento dela, ficava vendo TV e o futuro “vovô” ficava perto e me fazia carinho até que minha vó fosse costurar e ele pedia para eu sentar no colo dele. Às vezes ele tomava banho e deixava a porta aberta”, contou. Todas as vezes que a avó de Xuxa fazia algo que envolvia algum barulho mais alto, ele se aproveitava para tocar nos seios dela e a acariciar. “ele disse que era só um carinho e que só o “vovô” podia fazer porque me amava como neta”.

Ainda durante os 10 ou 11 anos, Xuxa frequentava Coroa Grande durante as férias, que fica no litoral do Rio de Janeiro. O pai dela alugou uma casa e ele e a mãe ficavam em um quarto separado dos pré adolescentes. Xuxa dividia um quarto com os irmãos, amigos da família e com Álvaro, que se deitava no meio de todos eles para “cuidar”. Ela sempre acordava com a mão dele a tocando.

A apresentadora quer alertar outras pessoas (Foto: reprodução / Instagram)

Quando fez 13 anos, ele a chamou para conhecer a casa, que estava em obras, e disse que haveria um quarto para Xuxa dormir lá quando quisesse. “Eu até o chamava de padrinho!”, desabafou. Quando Álvaro lhe pediu um abraço, foi encurralada em uma parede de pedras da varanda e ele passou as mãos por debaixo da camiseta dela, tentando a beijar. “Me lembro que chovia e eu saí correndo pela rua até chegar na praia. Chorava muito, peguei um punhado de areia e passava no meu corpo para limpar toda sujeira que estava impregnada há anos… Chorei muito e pensei: se falo pra minha mãe, eles vão se separar, pois ele era o melhor amigo do meu pai. Se falo para o meu irmão, ele vai querer matá-lo…”.

Ela só contou tudo isso pela primeira vez durante o Fantástico, aos quase 50 anos, para falar sobre a importância do disque denúncia, o Disque 100. ” Queria alertar as pessoas. Nós geralmente não queremos falar, porque é feio, porque não é certo, porque aprendemos que sempre tem que ter um culpado numa situação como essa. E é claro que nos sentimos culpados – eu me sentia culpada apenas por existir”.

Em todo esse período, dos 4 aos 13 anos, ela adquiriu certos traumas e manias por limpeza. “Tomo de 3 a 4 banhos por dia, tenho vontade de estar com crianças pois elas não me fariam nenhum mal – isso é coisa de adulto. Hoje, quero emprestar minha voz em campanhas paras crianças que não falam, não gritam e choram sozinhas. Eu preciso fazer isso por elas, já que não fiz por mim”, concluiu.

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