Quem manda aqui? Saiba reconhecer se seu filho tem a ‘síndrome de imperador’ e como mudar isso

A gente sabe que, quando o assunto é educação dos filhos, autoridade dentro de casa é muito importante. Mas, daí a se convencer de que toda a responsabilidade de educação é sua, já é outra história…

Resumo da Notícia

  • Para conseguir educar os filhos, é preciso estar presente
  • Não precisa se culpar, tudo leva tempo, temos que ter paciência
  • Evite colocar a responsabilidade da educação em outras pessoas
  • Reconheça quais comportamentos do seu filho indicam que ele acreditar ser "o rei" da casa
  • Separamos algumas dicas que podem te ajudar a solucionar essa situação
A criança precisa entender quem é a autoridade em casa para poder respeitar os pais (Foto: Getty Images)

Educar nossos filhos não é uma tarefa fácil. Não importa se a gente é mãe de primeira viagem, se já teve três filhos, se é jovem, se já passou dos 40, se somos casadas ou mães solteiras. Educação não é brincadeira, é um desafio diário. Você pode pensar: meu filho é um amor, mas existem horas que parece que ele está mandando na relação. Muitas vezes, demandamos a educação dos nossos filhos para outras pessoas, tentamos compensar esse tempo com coisas materiais e depois eles acabam se transformando nos reis da casa. Todas essas questões são bastante delicadas, afinal a gente não recebe uma fórmula pronta para educar as crianças.

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A primeira questão é que filho é uma escolha nossa que precisa ser muito bem pensada. Conversamos com a Tania Zagury, autora do livro Educar sem Culpa – A Gênese da Ética, mãe de Renato e Roberto, e ela nos deu a chave para a educação: nossos filhos precisam de disponibilidade de tempo. “Apesar de o conceito de educação ser muito mais amplo, os pais precisam saber que os filhos exigem um tempo só para eles, para ficarem juntos. Embora muitos pais trabalhem fora, ter ou não um momento para os filhos é uma questão de escolha”, diz a filósofa e mestre em educação.

Os pais não precisam se culpar, devem ter calma e achar uma solução para a família (Foto: Getty Images)

Não há do que se culpar

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Isso não quer dizer que você precisa parar de trabalhar ou de fazer as atividades que gosta no dia a dia. Mas é muito importante separar um tempo para nossos filhos, onde a criança possa compartilhar com a família como foi seu dia, contar suas conquistas e suas frustrações. A psicoterapeuta infantil Monica Pessanha, mãe de Melissa, garante: conviver com crianças não é uma tarefa fácil. Elas choram, reclamam, são pura energia e precisam de alguém que lhes dê atenção. “Infelizmente, temos visto cada vez mais pais que estão distantes da educação dos filhos. Muitos pais às vezes ficam junto dos filhos sem realmente estar com eles”, ressalta.

O primeiro passo é promover o que o teórico psicanalítico inglês Donald Winnicott chama de holding, que é o somatório do aconchego, percepção, proteção e alegria na relação entre pais e filhos. Parece óbvio, mas não é. A gente tem algumas responsabilidades bem importantes em relação aos nossos filhos: alimentá-los, dar a eles onde morar, comprar roupas, levar à escola, ou seja, promover o bem-estar das crianças. O pai da psicanálise, Sigmund Freud, tem uma teoria interessante para isso: ele dizia que a educação é impossível.

Não é impossível porque não pode ser realizada, é que ela nunca será perfeita, porque requer persistência e paciência. “Precisamos entender que educação não é um projeto, é um processo. Como sabemos, os processos demandam muito mais tempo do que os projetos, que têm tempo limitado e prazo”, diz Monica Pessanha.

Eles são NOSSOS filhos

Hoje em dia muitos pais dedicam pouco tempo aos filhos, seja por causa do emprego, seja por causa do cansaço. Claro, a situação mudou muito se compararmos com 50 anos atrás. As mulheres estão buscando sucesso profissional, e isso não é a razão de as crianças estarem mais sozinhas. A questão é se, no meio de tudo isso, a gente tira um tempo para prestar atenção nos filhos.

A psicóloga e escritora Mariza Tereza Maldonado, autora do artigo A Era da Infantocracia, deixa claro que não adianta levar a criança ao clube se ela vai ficar jogando no celular enquanto os pais tomam um sol. Muitos pais caem nessa armadilha e acabam compensando o filho com presentes, roupas, brinquedos e viagens caras.

Essa é a hora da verdade: não dá para comprar nossos filhos. Nenhum presente no mundo substitui um momento de carinho ou de conversa. O final de semana é um ótimo momento para isso: se a semana é corrida, se não dá pra almoçar todo mundo junto de segunda a sexta-feira, é no final de semana que a gente pode compensar esse tempo, mas sem muitos luxos.

O presidente da Academia Brasileira de Pediatria e escritor José Martins Filho, pai de Fábio e Graziella e avô de Artur e Felipe, nos contou que, em países desenvolvidos, as mães têm até dois anos de licença-maternidade e esse período é dividido com os pais, para garantir que as crianças sejam cuidadas por seus pais.

Estar presente é importante para melhorar a relação com os filhos (Foto: Shutterstock)

Diga não à terceirização

“Terceirizar uma criança é colocar a responsabilidade de educá-las em outras pessoas ou instituições. As crianças que são terceirizadas sofrem, perdem o referencial”, diz José Martins Filho. É comum que alguns pais deixem seus filhos com os avós ou na escola durante todo o dia. Com isso, não há problemas, desde que os pais deixem claro para a criança que ela está lá por necessidade, mas que no final do dia vai voltar para casa e todos vão passar um tempo juntos.

Nem os avós e muito menos a escola têm a responsabilidade de impor regras, de mostrar limites, de ensinar valores. O que deve existir aí é uma parceria entre família para que as lições ensinadas pelos pais sejam reforçadas em todos os ambientes. “Se você não está tendo trabalho é porque não está educando”, conclui o escritor. Claro, quando os pais terceirizam os filhos não fazem isso de propósito. Mas é preciso sempre um exame de consciência para saber se a falta de tempo não está se tornando uma rotina e afetando a relação.

As consequências para a criança que é terceirizada são muitas e você pode começar a notá-las em comportamentos do dia a dia: agressividade, manha, recusa escolar, dificuldades de relacionar-se com amigos, baixa autoestima e, principalmente, não conseguem respeitar limites e figuras de autoridade. Outra questão que tem distanciado os pais dos filhos são os aparelhos tecnológicos. Eles são ótimos para entretenimento, mas o uso precisa ser controlado. Não só tablets e celulares, que são mais recentes, mas a televisão também tem esse efeito.

Claro, em alguns momentos deixar a criança brincar de ficar deslizando o dedo na tela faz parte. Mas isso não pode fazer parte da regra, só para aquele momento em que você quer um pouco de sossego e entretenimento. É a melhor saída para seu filho se distrair.

Não vamos confundir as coisas

Maria Tereza Maldonado, em seu artigo, fala que os psicólogos têm tido muito trabalho para tirar da cabeça dos pais a confusão que muita gente faz entre trauma e frustração. Frustração faz parte da vida, é um sentimento com o qual convivemos sempre, seja em pequenas ou grandes escalas. E nós precisamos desde cedo aprender a lidar com eles. Por isso, a frustração de uma criança não deve preocupar o pai ou a mãe por si só. Vamos aprendendo a lidar com isso ao longo da vida: no início choramos, depois crescemos e começamos a ver que o mundo não é sempre do jeito que a gente quer.

Pensando nisso, a gente pode dizer que negar certas coisas aos nossos filhos vai causar frustração e isso só vai fazer bem para eles no futuro. Toda criança precisa desenvolver seu autocontrole. E nós pais precisamos ajudar. Como? Dizendo NÃO. “Estimular a liberdade e a espontaneidade para a criança expressar o que sente não significa tolerar grosseria nem falta de educação”, explica Maria Tereza.

“Os pais não podem confundir autoritarismo com autoridade. Ser autoritário é não reconhecer o filho como membro da família, exercer seu papel de autoridade é saber quem você é na família”, diz a psicóloga. Vamos lembrar que nossos filhos precisam de pais, não de mais coleguinhas, por isso dentro da família é sempre bom ter um nível hierárquico bem definido.

Reizinho da casa

Se não estiver claro para a criança que os pais são figuras de autoridade, ela corre o risco de virar o rei ou a rainha da casa. E quem acaba desempenhando o papel do autoritarismo é a criança. Isso vai gerar não só problemas para os pais. Sabe aquela frase clássica “eu não sei mais o que fazer com meus filhos”? Não ter limites claros é uma forma de abrir mão da educação das crianças e traz retornos como impulsividade, falta de controle sobre a raiva, pouca tolerância, incapacidade de esperar, egocentrismo, sensação de vazio e insatisfação constante. Tudo aquilo que não desejamos para nossos filhos, afinal estamos criando pessoas que possam contribuir para um mundo melhor. Eles precisam saber que as decisões trazem consequências.

E eles só aprendem isso se a gente deixar que sintam o resultado das escolhas que fizerem. Se a criança não comer, não vai ver televisão. Se não fizer o dever de casa, não vai até a casa do amiguinho. Deveres e prazeres dividem as várias situações da vida.

É bom lembrar também que nenhuma criança é um déspota mirim só porque faz manha ou birra. Ela se torna autoritária se, toda vez que faz manha ou birra, consegue o que quer. Às vezes é mais fácil mesmo ceder e acabar com aquele momento de conflito, acontece com todo mundo. Mas vale lembrar que educar não é seguir o caminho mais fácil, é seguir o caminho certo.

Existem vários comportamentos que caracterizam uma criança que tenta mandar nos pais

Reconhecendo um imperador

Dá uma olhada nas frases a seguir. Se você se identificar com mais de três delas, é melhor parar um pouco para refletir:

• Meu filho tem acessos de raiva e se joga no chão todas as vezes que é contrariado

• Ele adora fazer coisas para me desafiar, como mexer em algo que eu já disse para não mexer

• Sempre tenta negociar as minhas ordens

• Trata mal os adultos e outras crianças

• Ele às vezes bate em mim

• Ele passa mais tempo com a babá ou avós do que comigo, mesmo quando estou em casa

• A babá ou os avós sabem mais das preferências do meu filho do que eu

• Quando a escola me procura para falar de mau comportamento, eu culpo a escola

• Eu não estipulei uma hora certa para meu filho comer, dormir e brincar

• Meu filho passa horas na frente da TV, do videogame ou do tablet

É com bom exemplo que se educa

Até os 6 anos de idade as crianças agem 90% do tempo por imitação. A partir dos 7 anos, elas começam a questionar o tal do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Por isso, é sempre bom manter a coerência. Isso deixa a criança segura. Alguns valores humanos, como respeito, responsabilidade, tolerância e amor, são uma herança valiosa: eles vão dar sentido e direção para a vida dos nossos filhos.

Calma, tudo tem solução

Depois de toda essa nova conversa, pode ser que você esteja com um pouco de medo do que vai acontecer. Respira. Você não é a primeira nem vai ser a última nessa situação. E nós temos uma notícia ótima para te dar: ainda tem solução. Tania Zagury atenta para um detalhe importante: dá para refazer o percurso, mas, quantos antes você começar, melhor. “Quanto mais velha a criança for, mais difícil e mais demorado será para reverter o processo de distorção da realidade. Mas é possível, é só os pais tomarem a rédia da situação.”

No começo vai ser complicado, pode ser que a criança fique um pouco mais rebelde, mas nessa hora é preciso firmeza. Explicar para os filhos que as coisas vão mudar daqui pra frente é um caminho. “Os pais não devem se desesperar e achar que tudo está perdido, porque não está. Não existe uma receita de bolo, mas a primeira coisa que se deve ter em mente é que estabelecer limites é estabelecer regras, tanto para os pais quanto para os filhos”, diz Monica Pessanha. Para os pais, a principal mudança será fazer coisas com as quais não estavam acostumados, como acompanhar o progresso do filho na escola, ver quem são seus amigos e administrar o dia a dia deles. Para os filhos, a dificuldade será o fato de que suas vontades imediatas não serão sempre atendidas. Alguns passos podem ajudar:

Aprenda a dizer não: A negativa vai ser contestada, a criança vai espernear, mas mantenha-se firme. Dê a seu filho a explicação sobre o motivo do não, mas não abra espaço para negociação em casos onde isso não cabe, como comer no horário ou fazer o dever.

Não manipule com suborno: Alguns dias, seu filho vai tentar esgotar sua paciência de qualquer forma. Quando isso acontecer, apenas deixe que ele se acalme e se dê conta de que a chantagem não vai funcionar. Acostumar o filho a receber subornos não faz bem.

Ensine respeito respeitando: Vale seguir a regra de ouro, faça com os outros, incluindo seus filhos, apenas o que você gostaria que fizessem com você. Se você não gritar e não tratá-los de forma ríspida, eles não vão fazer isso com os outros.

Reserve tempo para seus filhos: Programe-se para estar com eles. Às vezes, temos tantos afazeres que deixamos para nossos filhos o tempo que sobrar. E se não sobrar tempo? Filho, afinal, tem que ser prioridade.

A Pais&Filhos acredita que a educação dos filhos é responsabilidade dos pais. Ter filho é uma escolha maravilhosa e ninguém melhor do que os pais para educar os próprios filhos.

 

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